O
comércio internacional vive um período de forte turbulência. Alterações
repentinas de tarifas, interrupções de
fornecimento e barreiras não tarifárias têm
se tornado o novo normal de um mundo em
disputa por mercados e influência econômica. Nesse contexto, países e blocos também aceleram
a busca por novos acordos
comerciais, como é o caso das negociações entre Mercosul e
União Europeia, que ganharam nova tração e podem ser concluídas ainda
este ano.
Entretanto, essas
mudanças produzem efeitos
colaterais importantes. Podem redirecionar fluxos de comércio de maneira
intensa e súbita, gerando severos impactos nas
economias e
nas indústrias locais. No Brasil, um setor emblemático
desse fenômeno é a indústria têxtil e de confecção, uma das maiores do mundo e integrada do campo à moda, que vem sofrendo uma
volumosa invasão de excedentes produtivos
internacionais, especialmente de países asiáticos, com destaque para
a China.
Diante
dessa pressão, nosso país precisa avançar em duas
frentes complementares. A primeira é a agenda
ofensiva: ampliação de competitividade,
inserção em novos mercados, inovação e produtividade. A
segunda, de igual relevância, é a agenda defensiva: uso assertivo
e legítimo dos instrumentos de defesa
comercial, como processos antidumping,
salvaguardas e cotas, para combater concorrência desleal e restabelecer condições
equitativas de competição.
Cabe
enfatizar que o acionamento
de mecanismos de defesa comercial é um direito assegurado
às nações e
aos setores produtivos que comprovem estar sendo prejudicados por práticas desleais ou aumento repentino e
significativo das importações. Uma vez constatado
o dano, o Estado deve agir para
corrigir as assimetrias
e devolver isonomia ao
mercado.
Porém,
há um desafio crucial quanto ao setor têxtil
e de confecção. Por se tratar de uma cadeia
produtiva longa, abrangendo a produção de fibras naturais, sintéticas e artificiais,
fiação, tecelagem, acabamento, confecção e varejo, medidas de defesa comercial
fragmentadas, aplicadas apenas em um elo específico,
podem simplesmente empurrar o problema para frente. Se um estágio
da produção tem aplicação de uma medida, as importações
migram para o elo
seguinte, de maior valor agregado. No
limite, isso pode resultar em um cenário
dramático, com o fechamento de indústrias ao
longo de toda a cadeia e a invasão
definitiva de produtos acabados importados,
com perda de milhares de empregos e investimentos no Brasil.
Por
isso, o momento exige visão sistêmica. A defesa comercial deve ser pensada como política
integrada, com coordenação entre todos os elos, das fibras ao
vestuário, e com forte suporte
governamental. Somente assim será possível
preservar a competitividade do setor como um
todo e evitar
que ações
corretas, porém isoladas, produzam um resultado indesejado no conjunto da
indústria.
O
Brasil tem oportunidade única. Possui uma das poucas cadeias têxteis completas
do planeta, gera inovação, emprego e renda em
centenas de municípios e está preparado para
competir, desde que as regras do jogo sejam equilibradas. A
defesa comercial responsável não é protecionismo, mas sim segurança econômica,
justiça competitiva e
soberania produtiva. Em tempos de incertezas
no mundo, proteger nosso parque industrial é legítimo e
indispensável para garantir um futuro mais
próspero para o Brasil.
Ricardo Steinbruch - presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
Fernando Valente Pimentel - diretor-superintendente e presidente emérito da Abit.
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