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Microscopia de alta resolução mostrando a exsoluçao de rutênio na perovskita LaCrO3. O processo é semelhante ao da exsolução do níquel (imagem: Fabio Coral Fonseca) |
Controle fino do processamento
de material cerâmico do tipo perovskita aumenta a estabilidade do sistema e
reduz custos, dispensando o uso de metais nobres
No contexto da crise climática
e da necessidade urgente de reduzir emissões de gases de efeito estufa, o
hidrogênio vem se consolidando como um dos vetores energéticos mais promissores
da transição para uma economia de baixo carbono. Quando produzido a partir de
fontes renováveis, ele pode funcionar como combustível limpo, insumo industrial
estratégico e meio de armazenamento de energia.
Entre as rotas possíveis, a
produção de hidrogênio a partir do etanol – especialmente quando derivado da
biomassa – ocupa posição de destaque no contexto brasileiro. O país dispõe de
uma infraestrutura consolidada de produção, distribuição e uso desse biocombustível,
o que abre espaço para soluções tecnológicas que agreguem valor ao etanol e
ampliem seu papel na transição energética.
Um estudo, coordenado por Fabio Coral Fonseca, pesquisador sênior do Instituto de
Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), avançou de forma significativa nessa direção ao
mostrar que o controle fino do processamento de um catalisador cerâmico do tipo
perovskita é decisivo para maximizar a conversão do etanol em hidrogênio,
aumentar a estabilidade do sistema e reduzir custos, dispensando o uso de
metais nobres tradicionalmente empregados nesse tipo de reação. Artigo a
respeito foi publicado no International Journal of
Hydrogen Energy.
A conversão é feita por meio da
chamada reforma a vapor do etanol (ESR, na sigla em inglês de ethanol
steam reforming). Em termos simplificados, trata-se da reação do etanol com
vapor d’água em altas temperaturas, produzindo hidrogênio e dióxido de carbono.
A reação global ideal, que maximiza a produção de hidrogênio, pode ser
representada por: C₂H₅OH + 3 H₂O → 2 CO₂ + 6 H₂. Na prática, porém, o processo
envolve várias etapas intermediárias, o que torna o papel do catalisador
central para direcionar a reação, maximizar o rendimento em hidrogênio e evitar
caminhos indesejáveis, como a formação de coque (depósitos de carbono), que
degrada rapidamente o material.
“Catálise é uma propriedade de
superfície. O que se quer são partículas muito pequenas, muito bem distribuídas
e estáveis ao longo do tempo”, afirma Fonseca. “O problema é que, em
temperaturas elevadas, essas partículas tendem a se deslocar, aglutinar e
perder atividade.”
Para responder a esse desafio,
o estudo utilizou um óxido cerâmico do tipo perovskita. Mas, diferentemente dos
catalisadores convencionais, o níquel (Ni), elemento ativo da reação, não é
impregnado posteriormente na superfície da cerâmica, e, sim, incorporado à
estrutura cristalina do material durante a síntese. “Em vez de colocar o metal
por cima do suporte, como nos métodos clássicos de catálise, introduzimos o
níquel na estrutura do cristal. Depois, sob condições controladas, esse níquel
emerge na superfície”, explica o pesquisador.
Tal fenômeno, conhecido como
“exsolução”, faz com que nanopartículas metálicas de níquel (Ni⁰)
surjam na superfície do sólido, fortemente ancoradas ao substrato, o que lhes
confere uma estabilidade muito maior frente à sinterização e à deposição de
carbono. “O metal vem de dentro para fora. Ele não fica se deslocando pela
superfície, como acontece nos catalisadores impregnados. Isso dá uma
estabilidade muito maior ao sistema”, diz Fonseca.
O avanço central do trabalho
foi demonstrar que um parâmetro aparentemente simples – a temperatura de
calcinação do óxido precursor antes da etapa de redução – controla de
forma decisiva todo o desempenho do catalisador. Os pesquisadores sintetizaram
o material por método químico e o calcinaram a três temperaturas distintas: 650
°C, 800 °C e 1.200 °C. Essa etapa, anterior à reação catalítica propriamente
dita, determina a microestrutura do sólido, especialmente o tamanho das
partículas cerâmicas e a área superficial disponível.
“Se aquecemos a perovskita a
temperaturas muito altas, ela cresce demais. E isso prejudica a exsolução do
níquel depois”, pontua Fonseca. Os resultados mostraram que a calcinação a 650
°C preserva maior área superficial, ao passo que temperaturas mais elevadas
promovem a coalescência dos grãos, reduzindo drasticamente essa área.
Partículas cerâmicas menores favorecem a saída do níquel e a formação de
nanopartículas menores e mais ativas. “O grande ponto do estudo foi mostrar que
o tamanho do substrato controla a exsolução. Se as partículas são grandes, o
níquel não sai bem. Se são menores, ele emerge de forma mais eficiente”, resume
o pesquisador.
Nos testes de reforma a vapor
do etanol, o catalisador calcinado a 650 °C apresentou resultados expressivos:
100% de conversão do etanol; rendimento de 4,04 mols de H₂ por mol de etanol; operação
estável por até 85 horas, com baixa formação de coque. Já os materiais
calcinados a 800 °C e 1.200 °C exibiram menor exsolução de níquel, menor
conversão e mudança na seletividade da reação, favorecendo a simples
desidrogenação do etanol em vez da reforma completa para produção de
hidrogênio. “Não basta escolher os elementos certos. A forma de fabricar o
material é decisiva. Um ajuste relativamente simples no processamento muda
completamente o desempenho”, sublinha Fonseca.
O pesquisador contextualiza o
estudo em uma agenda tecnológica mais ampla. Segundo ele, a conversão do etanol
em hidrogênio nem sempre é a melhor solução do ponto de vista energético,
especialmente quando se pensa em mobilidade. “O etanol é uma molécula muito
preciosa. Para chegar a ela, é preciso passar por agricultura, fermentação,
destilação. Simplesmente quebrá-la para produzir hidrogênio e depois
eletricidade pode não ser a melhor escolha”, ressalva. Por isso, o grupo também
investiga células a combustível de etanol direto, capazes de converter o combustível
líquido diretamente em eletricidade. “No fundo, a gente estuda essas
perovskitas porque elas também se encaixam muito bem nessa tecnologia”,
acrescenta Fonseca.
As perovskitas são materiais
definidos menos por sua composição química específica e mais por uma estrutura
cristalina característica, do tipo ABO₃. Essa estrutura – primeiramente observada no mineral natural titanato
de cálcio (CaTiO₃) a
perovskita original – é hoje reproduzida de forma sintética e de
diferentes maneiras em laboratório. Nessa arquitetura, diversos elementos podem
ocupar as posições A e B da rede cristalina, o que confere a tais materiais uma
extraordinária flexibilidade estrutural para ajustar propriedades elétricas,
iônicas, magnéticas e catalíticas.
O trabalho com níquel insere-se
em uma estratégia mais ampla de exploração da exsolução metálica em
perovskitas. Em estudo anterior, realizado em colaboração com grupos dos
Estados Unidos no âmbito de um projeto apoiado pela FAPESP e pela National
Science Foundation (NSF), a equipe do Ipen obteve resultados igualmente
expressivos com rutênio exsolvido a partir de perovskitas à base de cromita de
lantânio (LaCrO₃). Nesse
caso, o rutênio – metal ainda mais ativo para reações de reforma – também é
inicialmente incorporado à rede cristalina e, durante a reação de reforma do
etanol, emerge como nanopartículas metálicas fortemente ancoradas ao suporte. O
estudo, também coordenado por Fonseca, foi publicado no
periódico Catalysis Science & Technology.
Os estudos com pós
policristalinos, como os descritos nos dois artigos, constituem apenas um dos
caminhos do programa de pesquisa dos cientistas do Ipen. A equipe avança para
sistemas ainda mais controlados, baseados em filmes finos epitaxiais,
produzidos por deposição a laser pulsado. O termo “epitaxial” refere-se a
material que cresce de forma ordenada sobre outro, copiando a sua estrutura
cristalina. “Neste caso, o que fazemos é compactar o pó, transformá-lo em uma
pastilha cerâmica e depois sublimar esse material com um laser de alta energia.
O vapor se deposita em um substrato bem ordenado e forma um cristal quase
perfeito”, descreve Fonseca. Essa abordagem permite estudar a exsolução em
nível atômico, utilizando técnicas avançadas de caracterização no Sirius, o
acelerador de luz síncrotron brasileiro.
Ao demonstrar que é possível
obter alto desempenho catalítico com metais abundantes, baixo custo e forte
estabilidade, os estudos apontam um caminho concreto para reduzir a dependência
de metais nobres e tornar mais viáveis rotas sustentáveis de produção de
hidrogênio. No contexto brasileiro, onde o etanol é abundante e a demanda por
soluções energéticas de baixo carbono é crescente, os resultados reforçam o
potencial da rota etanol-hidrogênio. E, mais amplamente, das perovskitas
exsolvidas como recurso estratégico para a transição energética.
O estudo com o níquel recebeu
apoio da FAPESP por meio do Projeto Temático “Dispositivos eletroquímicos avançados de conversão de moléculas e
produção de energia”; dos Auxílios à Pesquisa 17/11937-4, 18/19251-7 e 24/00989-7; e de Bolsa de Doutorado.
O artigo Calcination
temperature of the perovskite parent compound controls active metal exsolution
and catalytic performance for ethanol steam reforming pode ser lido
em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0360319925063293.
José Tadeu Arantes
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/catalisador-aprimorado-melhora-a-conversao-de-etanol-em-hidrogenio/57243