Metabolismo mais lento, perda de massa muscular e oscilações hormonais começam anos antes da menopausa, mas a maioria das mulheres só percebe quando o corpo já não responde como antes
Ela
continua comendo praticamente as mesmas coisas. Mantém a rotina de exercícios,
tenta dormir melhor, corta açúcar, faz tudo o que sempre funcionou. Mesmo
assim, o peso sobe, o cansaço aparece, o inchaço não vai embora e o espelho
começa a mostrar um corpo que parece outro.
Para muitas
mulheres, essa mudança silenciosa começa por volta dos 35 anos e quase ninguém
explica por quê.
O discurso
mais comum é simples e reducionista: “é a idade”, “é o metabolismo”, “é
normal”. Mas a ciência mostra que o que acontece nesse período é uma combinação
complexa de alterações hormonais, perda progressiva de massa magra, mudanças na
microbiota intestinal e maior impacto do estresse crônico sobre o organismo feminino.
Segundo o
Dr. Arthur Victor de Carvalho, médico especialista em saúde hormonal da mulher,
o problema não é a idade em si, é a falta de entendimento sobre o que o corpo
começa a exigir a partir dessa fase.
“A mulher
não começa a mudar de um dia para o outro. O que acontece é um processo
gradual, que começa anos antes da menopausa. O metabolismo desacelera, a massa
muscular diminui e os hormônios passam a oscilar. Mas como isso não é
explicado, muitas mulheres acham que o problema é falta de disciplina quando,
na verdade, é fisiologia.”
A perda muscular começa antes do que se imagina
Um dos
fatores mais ignorados nesse processo é a perda de massa magra. Estudos mostram
que, a partir dos 30 anos, o corpo inicia um processo gradual de redução
muscular, conhecido como sarcopenia precoce. Essa perda tende a se acelerar a
cada década, especialmente em mulheres.
Uma
pesquisa publicada no Journal
of Cachexia, Sarcopenia and Muscle indica que a perda de massa
muscular pode começar ainda na terceira década de vida, impactando diretamente
a taxa metabólica basal e a capacidade do corpo de queimar gordura.
Isso
significa que, mesmo sem mudar a alimentação, o corpo passa a gastar menos
energia ao longo do dia. O resultado é previsível: aumento de gordura corporal,
principalmente na região abdominal, e maior dificuldade para emagrecer.
“O músculo
é o principal motor do metabolismo. Quando a mulher perde massa magra, ela
perde a capacidade de gastar energia. O corpo entra em modo de economia, e a
gordura passa a ser acumulada com muito mais facilidade”, explica o médico.
Hormônios em transição: o início da perimenopausa silenciosa
Outro ponto-chave é a mudança hormonal. Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, a menopausa não começa apenas quando a menstruação cessa. O processo pode se iniciar anos antes, em uma fase chamada perimenopausa.
Nessa
etapa, os níveis de estrogênio e progesterona começam a oscilar, o que pode
gerar sintomas como:
- cansaço frequente;
- irritabilidade;
- alterações no sono;
- dificuldade de concentração;
- aumento de gordura abdominal;
- queda de libido.
Um estudo
publicado na revista Endocrine
Reviews mostra que essas flutuações hormonais podem impactar
diretamente o metabolismo energético, favorecendo o acúmulo de gordura visceral
e a resistência à insulina.
“Muitas
mulheres chegam ao consultório dizendo que estão fazendo tudo certo, mas o
corpo não responde. O que elas não sabem é que já estão vivendo alterações
hormonais típicas da perimenopausa, mesmo ainda menstruando”, afirma o Dr.
Arthur.
O intestino também muda e isso afeta o peso
Outro fator
pouco discutido é a microbiota intestinal. Pesquisas recentes mostram que a
composição das bactérias intestinais muda ao longo da vida, influenciada por
hormônios, estresse, alimentação e qualidade do sono.
Um estudo
publicado na revista Nature
Reviews Endocrinology aponta que alterações na microbiota podem
influenciar a inflamação sistêmica, a sensibilidade à insulina e a regulação do
apetite, todos fatores diretamente ligados ao ganho de peso.
Quando a
microbiota perde diversidade, o organismo tende a operar em um estado
inflamatório de baixo grau, dificultando o emagrecimento e favorecendo o
acúmulo de gordura.
O intestino
é um órgão metabólico e hormonal. Quando a microbiota está desregulada, ela
altera a forma como o corpo processa alimentos, controla o apetite e armazena
gordura. E isso se torna ainda mais evidente após os 35.
O impacto silencioso do estresse e do cortisol
Além das
mudanças hormonais e metabólicas, o estilo de vida moderno exerce um papel
decisivo nesse processo. A partir dos 30 e poucos anos, muitas mulheres
enfrentam sobrecarga profissional, maternidade, pressão estética e falta de
tempo para autocuidado.
Esse
cenário mantém o organismo em estado constante de estresse, elevando os níveis
de cortisol, o hormônio associado à resposta de alerta.
Níveis elevados e crônicos de cortisol estão associados a:
- maior acúmulo de gordura
abdominal;
- perda de massa muscular;
- aumento do apetite por
alimentos calóricos;
- piora da qualidade do sono;
- resistência à insulina.
“O corpo
feminino é extremamente sensível ao estresse. O cortisol alto funciona como um
sinal de sobrevivência, e o organismo passa a armazenar gordura como forma de
proteção. Isso muda completamente a forma como a mulher responde à dieta e ao
treino”, afirma o médico.
Por que o que funcionava antes deixa de funcionar
Somando perda de massa muscular, oscilações hormonais, alterações intestinais e estresse crônico, o corpo feminino passa a operar de forma diferente. Estratégias que funcionavam aos 25 anos podem deixar de surtir efeito aos 35.
Dietas
muito restritivas, excesso de cardio e falta de sono, por exemplo, podem
acelerar a perda muscular e elevar o cortisol, piorando o quadro metabólico.
“A mulher
não precisa treinar mais, nem comer menos. Ela precisa treinar melhor,
preservar músculo, ajustar hormônios e cuidar do intestino. Quando o organismo
volta ao equilíbrio, o metabolismo responde”, diz o Dr. Arthur.
O novo paradigma: saúde metabólica antes da menopausa
A medicina moderna tem caminhado para uma abordagem mais preventiva, especialmente na saúde feminina. Em vez de esperar a menopausa para tratar sintomas, especialistas defendem intervenções precoces, focadas em:
- manutenção da massa muscular;
- ajuste hormonal
individualizado;
- alimentação anti-inflamatória;
- equilíbrio da microbiota
intestinal;
- controle do estresse e do sono.
Estudos
mostram que mulheres com maior massa muscular e melhor equilíbrio metabólico
têm menor risco de doenças cardiovasculares, osteoporose, diabetes e declínio
cognitivo ao longo da vida.
O corpo da
mulher não “trai” depois dos 35. Ele apenas passa a exigir estratégias
diferentes. O metabolismo deixa de ser guiado apenas por calorias e passa a
responder a fatores hormonais, musculares e inflamatórios.
“Não é que
a mulher engorde porque ficou desleixada. É porque o corpo mudou, e ninguém
explicou isso para ela. Quando ela entende o que está acontecendo, a transformação
deixa de ser uma luta contra o corpo e passa a ser um trabalho a favor dele”,
conclui o especialista, Dr. Arthur Victor de Carvalho.
Dr. Arthur Victor de Carvalho - médico especialista em
menopausa, lipedema e modulação hormonal. Atua com foco na saúde da mulher
moderna, unindo ciência, escuta e individualização para devolver às pacientes o
que a medicina tradicional muitas vezes ignorou: vitalidade, bem-estar e
liberdade para envelhecer com potência.


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