Alta performance no trabalho deixou de ser um ideal aspiracional. Tornou-se uma questão de sobrevivência profissional. Não se trata de trabalhar mais ou tentar sustentar a imagem de um “superprofissional”, mas de permanecer relevante, valioso e competitivo em ambientes cada vez mais exigentes.
Organizações não promovem esforço — promovem impacto. Avançam
aqueles que resolvem problemas complexos, entregam resultados consistentes,
operam sob pressão e geram valor mensurável. Alta performance tornou-se a
principal moeda de troca no mercado: sem ela, o profissional é percebido como
custo; com ela, como ativo estratégico.
O ambiente corporativo tornou-se estruturalmente mais duro: mais
velocidade, mais incerteza, mais ambiguidade e menos margem para erro. Ao mesmo
tempo, o estresse permanece elevado. A Gallup reporta que 41% dos
empregados dizem sentir “muito estresse” e estima que a baixa produtividade associada
ao baixo engajamento custa US$ 8,9 trilhões — cerca de 9% do PIB global.
A APA aponta que 77% dos trabalhadores relatam estresse relacionado
ao trabalho, frequentemente acompanhado de impactos negativos na saúde.
Alta performance deixou de ser diferencial. Tornou-se
requisito. Mas existe um erro de lógica que está destruindo gente boa: a
crença de que performance é função direta de intensidade e volume.
No esporte, isso tem nome: overtraining.
E o resultado é previsível: queda de performance, maior risco de lesão e
colapso. Alta performance não é intensidade.
É sustentabilidade operacional. Nenhum atleta opera em esforço máximo
todos os dias. Ele trabalha em ciclos: carga, recuperação e adaptação.
No corporativo, aconteceu o oposto: o cansaço foi romantizado.
Estar sempre ocupado virou status. Exaustão virou “prova” de ambição. Só que
isso não é alta performance — é um plano de desgaste. O risco não está em
trabalhar 14 horas. Está em transformar exceção em rotina.
A ciência econômica e organizacional reforça esse limite.
Pesquisas sobre produtividade e horas trabalhadas mostram retornos decrescentes
quando a jornada se alonga: mais horas não significam mais produção —
frequentemente significam mais erro, mais queda de qualidade e pior saúde.
Alta performance sustentável depende de quatro pilares que o
corporativo frequentemente classificados como “soft”, mas que são
estruturalmente “hard”: energia, clareza mental, estabilidade emocional e
propósito.
É nesse contexto que emerge o conceito de Atleta Corporativo.
O atleta corporativo não é simplesmente alguém que pratica esportes. É o
profissional que compreende que carreira é um jogo de longo prazo. Não uma
corrida de curta distância, mas uma maratona — ou, em ambientes de alta
exigência, um verdadeiro Ultraman. Ele entende que desempenho sustentável
exige gestão de energia, consistência, estabilidade emocional e capacidade de
adaptação.
E aqui entra um ponto-chave:
burnout. A OMS classifica burnout como um fenômeno ocupacional
decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi bem administrado. Ou
seja: não é “fraqueza individual”; é falha estrutural de gestão de carga,
recuperação e controle de estressores.
Por isso, a frase que pouca gente quer admitir permanece
verdadeira: estresse não é o vilão — o vilão é o desgaste crônico sem ciclos.
Burnout raramente é apenas excesso de volume, mas sim a ausência sistemática de
recuperação estruturada.
Mentalidade de crescimento é o motor da evolução. No esporte,
evitar desconforto significa estagnação: sem sobrecarga progressiva não há
adaptação, e sem erro não existe refinamento. Na carreira, a lógica é
idêntica. Profissionais com mentalidade de crescimento não evitam desafios
— usam desafios como expansão. Não interpretam falhas como incapacidade, mas
como dados. O esporte, nesse sentido, é um laboratório brutalmente honesto: o
que você evita no treino geralmente denuncia o que você evita na carreira.
A parte que quase ninguém discute: performance bem executada gera
liberdade. Alta performance sustentável não é apenas cobrança — é alavanca de
autonomia. Profissionais que entregam impacto consistente conquistam poder de
negociação, independência decisória, mobilidade e acesso a oportunidades
melhores. Baixa performance restringe escolhas; alta performance amplia possibilidades.
O novo modelo de sucesso, portanto, não é ser “o mais ocupado”. É ser sustentável. Não é apenas alcançar resultados. É sustentá-los com energia, clareza, equilíbrio e longevidade. Porque, no fim, o objetivo não é apenas performar bem. É performar bem sem se quebrar no processo.
Cesar Cotait Kara José - Head Global da unidade de negócios de Financial Services da Exadel, empresa global de consultoria e desenvolvimento de software. É autor dos livros “Atleta Corporativo” e “Pilares do Sucesso”, obras dedicadas à liderança, desenvolvimento profissional e alta performance.
Nenhum comentário:
Postar um comentário