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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

NRF 2026: o varejo não perdeu margem, mas governança


A NRF 2026 deixou um recado simples e incômodo: o varejo entrou na era em que tecnologia não “melhora” a operação, ela expõe quem tem e quem não tem governança. E quando não há governança, a margem vira sorte. E sorte não escala. 

O tema “The Next Now” apareceu como pano de fundo do evento: não é mais sobre tendências bonitas para 2030. É sobre decisões executáveis agora. A seguir, as principais novidades (e o que elas significam, na prática, para quem quer governança de margem).

 

1) IA deixou de ser “projeto” e virou infraestrutura 

A NRF 2026 foi, novamente, dominada por inteligência artificial (IA), mas com um tom diferente: menos “show de tecnologia” e mais “IA como camada operacional”.  O que mudou:

- A conversa saiu do “vamos testar IA” e foi para onde ela roda a decisão: atendimento, precificação, sortimento, supply, prevenção de perdas e produtividade.

- Cresceu a tese de agentes inteligentes (AI agents) e automação mais autônoma na operação (inclusive supply chain).  

Minha leitura de governança: IA não cria margem sozinha, mas amplifica o que já existe. Se o seu processo é fraco, a IA só vai automatizar o erro mais rápido.

 

2) “Retail Media” saiu do digital e invadiu a loja física

In-store retail media (telas, sinais digitais, ativação com dados) aparece como uma das apostas fortes: monetização + personalização + influência direta no carrinho.  Tradução para o Brasil, sem ilusão:

- Isso só vira dinheiro se existir governança de execução na loja (planograma, ruptura, precificação, disciplina de exposição). Senão, vira poluição visual e custo.

 

Governança de margem aqui é: garantir que mídia não esconda ruptura, erro de etiqueta e exposição fraca. Porque isso parece marketing, mas é DRE.

 

3) Unified Commerce: o varejo cansou de “omnichannel bonito” e quer integração de verdade

 

A NRF bateu forte na ideia de “bricks and clicks” como um único sistema operacional do varejo — loja, app, picking, last mile, devolução, fidelidade, tudo conectado. E as big techs estão empurrando protocolos e camadas para facilitar compra “em qualquer lugar”.  

Minha provocação: no Brasil, muita empresa ainda está brigando para fazer o básico (cadastro, estoque confiável e preço coerente entre canais). Unified commerce exige controle do dado mestre e disciplina operacional. Sem isso, você escala inconsistência.

 

4) Computer vision e loss prevention: a perda virou “problema de informação” 

Uma das coisas mais relevantes (e próximas do seu histórico) é a maturidade do papo de computer vision aplicada a perda, segurança e operação. 

A lógica que apareceu: “produto sai por vários motivos, mas o varejo não enxerga” e a visão computacional entra como um sistema para transformar câmera em dado acionável.  


Tradução de governança de margem:

  • Prevenção de perdas sem evidência é “crença”.
  • Evidência vira prioridade.
  • Prioridade vira execução.
  • Execução vira resultado no DRE. 

Esse é o arco. E aqui entra o ponto mais importante: loss prevention virou governança. Não é mais “pegar ladrão”. É reduzir variância operacional e financeira com informação em tempo real.

 

5) O consumidor de 2026 quer valor, mas cobra confiança 

Vários recaps apontaram um equilíbrio delicado: o varejo corre para IA e automação, mas o consumidor (especialmente públicos mais jovens) continua exigindo qualidade, autenticidade, transparência e confiança.  

Governança de margem aqui é: não existe margem sustentável em cima de desconfiança. Quando a confiança cai, o custo de aquisição sobe, a conversão cai, o churn sobe e a margem morre silenciosamente. 

O que eu faria se fosse CEO de rede no Brasil. Sem hype, sem transformação de PowerPoint.

 

Um plano de 30 dias executável:

  1. Escolha 3 vazamentos de margem para caçar
  • Ruptura (perde venda e confiança)
  • Precificação/etiqueta/execução (perde margem e credibilidade)
  • Perda operacional (perecíveis + frente de caixa)

 

  1. Defina 5 indicadores não-negociáveis
  • Perda por departamento crítico
  • Ruptura por categoria-chave
  • Margem por departamento e variação
  • Divergência de caixa/estornos/erros
  • Acuracidade de estoque (por amostragem, sem fantasia)

 

  1. Crie 1 ritual executivo mensal
  • “Mesa de margem”: operação + finanças + comercial + prevenção/auditoria
  • Sem desculpas. Só evidência, ação e responsável.

 

  1. Escolha 1 piloto de IA com critério
  • Não é “IA porque NRF falou”.
  • É IA para reduzir tempo, erro e variância em um processo que já tem dono. 

A NRF 2026 não está dizendo “use IA”. Ela está dizendo: pare de operar no escuro. O varejo do “Next Now” não vai ser vencido por quem tem mais tecnologia. Vai ser vencido por quem tem governança para transformar tecnologia em disciplina e disciplina em margem.  



Anderson Ozawa - CEO da AOzawa Consultoria, atua há mais de duas décadas no varejo e na logística, com foco em Governança de Margem e estruturação de programas de prevenção de perdas, além de autor do livro Pentágono de Perdas: Transformando Perdas em Lucros.


AOZAWA CONSULTORIA
www.aozawaconsultoria.com.br



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