A NRF 2026 deixou um recado simples e incômodo: o varejo entrou na era em que tecnologia não “melhora” a operação, ela expõe quem tem e quem não tem governança. E quando não há governança, a margem vira sorte. E sorte não escala.
O tema “The Next Now” apareceu como pano de fundo
do evento: não é mais sobre tendências bonitas para 2030. É sobre decisões
executáveis agora. A seguir, as principais novidades (e o que elas significam,
na prática, para quem quer governança de margem).
1) IA deixou de ser “projeto” e virou infraestrutura
A NRF 2026 foi, novamente, dominada por
inteligência artificial (IA), mas com um tom diferente: menos “show de
tecnologia” e mais “IA como camada operacional”. O que mudou:
- A conversa saiu do “vamos testar IA” e foi para
onde ela roda a decisão: atendimento, precificação, sortimento, supply,
prevenção de perdas e produtividade.
- Cresceu a tese de agentes inteligentes (AI agents) e automação mais autônoma na operação (inclusive supply chain).
Minha leitura de governança: IA não cria margem
sozinha, mas amplifica o que já existe. Se o seu processo é fraco, a IA só vai
automatizar o erro mais rápido.
2) “Retail Media” saiu do digital e invadiu a loja física
In-store retail media (telas, sinais digitais,
ativação com dados) aparece como uma das apostas fortes: monetização +
personalização + influência direta no carrinho. Tradução para o Brasil,
sem ilusão:
- Isso só vira dinheiro se existir governança de
execução na loja (planograma, ruptura, precificação, disciplina de exposição).
Senão, vira poluição visual e custo.
Governança de margem aqui é: garantir que mídia não
esconda ruptura, erro de etiqueta e exposição fraca. Porque isso parece
marketing, mas é DRE.
3) Unified Commerce: o varejo
cansou de “omnichannel bonito” e quer integração de verdade
A NRF bateu forte na ideia de “bricks and clicks” como um único sistema operacional do varejo — loja, app, picking, last mile, devolução, fidelidade, tudo conectado. E as big techs estão empurrando protocolos e camadas para facilitar compra “em qualquer lugar”.
Minha provocação: no Brasil, muita empresa ainda
está brigando para fazer o básico (cadastro, estoque confiável e preço coerente
entre canais). Unified commerce exige controle do dado mestre e disciplina
operacional. Sem isso, você escala inconsistência.
4) Computer vision e loss prevention: a perda virou “problema de informação”
Uma das coisas mais relevantes (e próximas do seu histórico) é a maturidade do papo de computer vision aplicada a perda, segurança e operação.
A lógica que apareceu: “produto sai por vários motivos, mas o varejo não enxerga” e a visão computacional entra como um sistema para transformar câmera em dado acionável.
Tradução de governança de margem:
- Prevenção
de perdas sem evidência é “crença”.
- Evidência
vira prioridade.
- Prioridade
vira execução.
- Execução vira resultado no DRE.
Esse é o arco. E aqui entra o ponto mais
importante: loss prevention virou governança. Não é mais “pegar ladrão”. É
reduzir variância operacional e financeira com informação em tempo real.
5) O consumidor de 2026 quer valor, mas cobra confiança
Vários recaps apontaram um equilíbrio delicado: o varejo corre para IA e automação, mas o consumidor (especialmente públicos mais jovens) continua exigindo qualidade, autenticidade, transparência e confiança.
Governança de margem aqui é: não existe margem sustentável em cima de desconfiança. Quando a confiança cai, o custo de aquisição sobe, a conversão cai, o churn sobe e a margem morre silenciosamente.
O que eu faria se fosse CEO de rede no Brasil. Sem
hype, sem transformação de PowerPoint.
Um plano de 30 dias executável:
- Escolha
3 vazamentos de margem para caçar
- Ruptura
(perde venda e confiança)
- Precificação/etiqueta/execução
(perde margem e credibilidade)
- Perda
operacional (perecíveis + frente de caixa)
- Defina
5 indicadores não-negociáveis
- Perda
por departamento crítico
- Ruptura
por categoria-chave
- Margem
por departamento e variação
- Divergência
de caixa/estornos/erros
- Acuracidade
de estoque (por amostragem, sem fantasia)
- Crie
1 ritual executivo mensal
- “Mesa
de margem”: operação + finanças + comercial + prevenção/auditoria
- Sem
desculpas. Só evidência, ação e responsável.
- Escolha
1 piloto de IA com critério
- Não
é “IA porque NRF falou”.
- É IA para reduzir tempo, erro e variância em um processo que já tem dono.
A NRF 2026 não está dizendo “use IA”. Ela está dizendo: pare de operar no escuro. O varejo do “Next Now” não vai ser vencido por quem tem mais tecnologia. Vai ser vencido por quem tem governança para transformar tecnologia em disciplina e disciplina em margem.
Anderson Ozawa - CEO da AOzawa Consultoria, atua há mais de duas décadas no varejo e na logística, com foco em Governança de Margem e estruturação de programas de prevenção de perdas, além de autor do livro Pentágono de Perdas: Transformando Perdas em Lucros.
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