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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Mostra inédita de Sarah Maldoror, no Centro Cultural Banco do Brasil, celebra o legado anticolonial e a estética revolucionária da cineasta franco-guadalupense

Crédito: BJ Nikolaisen


31 títulos destacam seu papel pioneiro na história dos cinemas negros e de mulheres

 

Uma mostra inédita dedicada à Sarah Maldoror, considerada uma das primeiras cineastas negras a filmar na África, acontece no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP), de 21 de fevereiro a 22 de março.  Com entrada gratuita, a retrospectiva traz curtas e longas-metragens, que destacam o papel da cineasta franco-guadalupense na história dos cinemas negros e de mulheres.

Nascida na França, filha de pai guadalupense, Sarah Maldoror (1929-2020) foi uma figura central do cinema anticolonial. A cineasta construiu uma filmografia de mais de quarenta títulos que documentam e ficcionalizam as frentes de libertação em Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, além de tratarem de temas como a imigração, o engajamento político e o pensamento decolonial. Sua estética diferencia-se por fundir o rigor político à sensibilidade poética, deslocando o olhar para a subjetividade humana e, fundamentalmente, para o protagonismo feminino nas insurgências africanas. 

Com curadoria conjunta de Lúcia Monteiro, Izabel de Fátima Cruz Melo e Letícia Santinon, a retrospectiva "O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror" no CCBB SP pode ser considerada uma das mais completas já realizadas sobre a cineasta no país. Sua programação conta com 34 obras, sendo 19 dirigidas por Sarah Maldoror e outras 15 assinadas por diferentes realizadores. 

"Faz dez anos que planejamos uma retrospectiva da obra de Sarah Maldoror em São Paulo. Os filmes dela falam da luta contra o colonialismo, o racismo, o preconceito. Ela se interessou pelos imigrantes na França e por intelectuais precursores do pensamento decolonial, como Aimé Césaire e Léopold Senghor. São discussões extremamente necessárias em nosso contexto atual", diz Lúcia Monteiro, uma das curadoras. 

"Esta mostra faz parte de uma movimentação mais ampla, que nos últimos anos tem reposicionado a figura e a produção de Sarah Maldoror na história do cinema. Por isso, acreditamos que iniciativas como essa colaboram tanto para o conhecimento do público em geral, quanto para o aprofundamento e reflexão dos críticos e pesquisadores", assinala Izabel de Fátima Cruz Melo, também curadora. 

O evento abre no dia 21/02, sábado, às 17h30, com a exibição da versão restaurada de "Sambizanga" (1972), premiado no Festival de Berlim e considerado o título mais conhecido de Sarah Maldoror. Baseada em uma novela de Luandino Vieira, a história acompanha um homem que é preso injustamente e torturado, suspeito de pertencer a um grupo revolucionário. Após a sessão, a economista e socióloga, Henda Ducados, filha caçula de Maldoror e autora de ensaios para o jornal feminista Another Gaze, participa de um bate-papo com o público.  A primogênita da cineasta e fundadora da associação "The Friends of Sarah Maldoror and Mario de Andrade", Annouchka de Andrade, também estará presente na Mostra, participando de uma conferência sobre Sambizanga, no sábado, 26/02.  

A programação ainda traz filmes em que Maldoror trabalhou como assistente, como o célebre "A Batalha de Argel" (1966), de Gillo Pontecorvo, e o documentário "Elas", do argelino Ahmed Lallem, que ganha sua primeira exibição na cidade. Haverá também exibições de documentários de Chris Marker, como "Sem sol" (1982) e o episódio 7 da série "A herança da coruja" (1989), que contêm imagens filmadas por Maldoror. 

A retrospectiva "O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror" propõe alguns paralelos entre o cinema de Maldoror e a obra de cineastas negras da América Latina. Nesse sentido, a cineasta baiana Safira Moreira dirigirá a leitura dramática do roteiro de "As garotinhas e a morte", um dos mais de quarenta projetos inacabados de Sarah Maldoror. De Safira Moreira, a mostra exibirá seu primeiro longa-metragem, "Cais", que estreou na última edição da Mostra Internacional de Cinema, e quatro de seus curtas-metragens. Para completar, o evento também promove os cursos "Memória e ancestralidade" com a cineasta, roteirista, poeta e produtora, Lilian Santiago, e com a crítica, curadora e professora Lúcia Monteiro; e "Restaurar arquivos em vídeo da televisão" com Nathanaël Arnould, que conduziu a restauração da obra televisiva de Maldoror no Instituto Nacional do Audiovisual da França, e os professores Eduardo Morettin (USP) e Daniela Siqueira (UFMS).  

Com patrocínio do Banco do Brasil, "O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror" é uma produção da Vasto Mundo, com a idealização de Lúcia Monteiro, coordenação geral e produção executiva de Leticia Santinon. A programação está disponível em bb.com.br/cultura. A mostra acontece também no CCBB Rio de Janeiro, de 19/02 a 16/03, e em Salvador, de 5 a 24 de março. 

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA POR DIA:

 

21/02/2026 (sábado)

17h30 – Sessão de Abertura| Sambizanga (comentada por Henda Ducados).

 

22/02/2026 (domingo)

15h - Monangambééé + Alma no olho (com participação de Henda Ducados)

17h – Debate Resiliência e resistência: o percurso de uma militante (com participação de Henda Ducados e mediado por Marcia Vaz)

18h - Carnaval (Fogo, uma ilha em chamas + Carnaval no Sahel + Em Bissau, o carnaval)

 

23/02/2026 (segunda-feira)

17h30 - Prefácio a Fuzis para Banta (comentada por Lúcia Monteiro  e Henda Ducados)

19h - Poesia em movimento (Louis Aragon, uma máscara em Paris + René Depestre, poeta haitiano + Léon G. Damas)

 

25/02/2026 (quarta-feira)

18h - Aimé Césaire, um homem, uma terra (Rita Chaves comenta)

 

26/02/2026 (quinta-feira)

18h30 – Cais (com apresentação de Safira Moreira)

 

27/02/2026 (sexta-feira)

17h - E os cães se calavam + Aimé Césaire, a máscara das palavras  (sessão comentada por Annouchka de Andrade)

19h - Leitura dramática de roteiro inédito da Sarah Maldoror por Safira Moreira

 

28/02/2026 (sábado)

15h30 - O hospital de Leningrado + "Sarah Maldoror roteirista", parte 1 (com Annouchka de Andrade).

17h30 – Sambizanga (apresentado por Annouchka de Andrade)

 

01/03/2026 (domingo)

15h - Sem Sol

17h15 - Sarah assistente (Elas + O legado da coruja, episódio 7)

18h30 - A amizade de Chris Marker e Sarah Maldoror. Debate de Annouchka de Andrade e Mateus Araújo (USP)

 

02/03/2026 (segunda-feira)

15h – Ôrí (comentada por Raquel Gerber)

17h30 - Sessão de curtas "Retratos de mulheres, retratos da negritude" (seguida de debate com Raquel Gerber e Annouchka de Andrade)

 

04/03/2026 (quarta-feira)

19h - Monangambée + Alma no olho, de Zózimo Bulbul

 

05/03/2026 (quinta-feira)

16h - A trilogia do Carnaval (três curtas de Sarah Maldoror)

18h - A batalha de Argel

 

06/03/2026 (sexta-feira)

16h - Retratos de mulheres, retratos da negritude

18h - Curtas de Sara Gómez

 

07/03/2026 (sábado)

16h - Pensamento em movimento (três curtas de Sarah Maldoror)

18h - Aimé Césaire, um homem, uma terra

 

08/03/2026 (domingo)

16h - Sambizanga

18h - Sarah assistente (Elas + O legado da coruja, episódio 7)

 

09/03/2026 (segunda-feira)

18h30 - Prefácio a Fuzis para Banta

 

11/03/2026 (quarta-feira)

18h - Ôrí

 

12/03/2026 (quinta-feira)

18h - Retratos de Mulheres, Retratos da Negritude

 

13/03/2026 (sexta-feira)

16h - O hospital de Leningrado

17h - Restaurar arquivos em vídeo da televisão. Curso com Nathanaël Arnould (INA-França), Eduardo Morettin (USP) e Daniela Siqueira (UFMS)

 

14/03/2026 (sábado)

17h - E os cães se calavam + Aimé Césaire, a máscara das palavras, com comentários de Nathanaël Arnould (INA-França)

 

15/03/2026 (domingo)

16h - Curtas de Sara Gomez (sessão comentada por Nayla Guerra)

18h30 - Monangambééé + Alma no olho

 

16/03/2026 (segunda-feira)

19h - Sem sol

 

18/03/2026 (quarta-feira)

17h30 - Batalha de Argel 

 

19/03/2026 (quinta-feira)

18h - E os cães se calavam + Aimé Césaire, a máscara das palavras

 

20/03/2026 (sexta-feira)

18h30 - Uma sobremesa para Constance

 

21/03/2026 (sábado)

16h - Cais

17h15 - Exibição de Prefácio a Fuzis para Banta, seguido de Curso Memória e ancestralidade Lilian Santiago 

 

22/03/2026 (domingo)

15h30 - Curso Sarah Maldoror Roteirista

18h - Uma sobremesa para Constance

 

  

FILMES E SINOPSES:

 

FILMES DE SARAH MALDOROR

 

Abertura do teatro negro em Paris 

L'ouverture du théâtre noir à Paris, Sarah Maldoror, 1980, 6 min., França

Reportagem de Sarah Maldoror sobre um novo centro cultural de Paris, dedicado ao teatro negro.

 

Ana Mercedes Hoyos 

Ana Mercedes Hoyos, Sarah Maldoror, 2009, 13 min., França/Colômbia

Documentário dedicado à pintora e escultora colombiana Ana Mercedes Hoyos. Atenta à multiculturalidade colombiana e em especial à presença negra e à história da escravidão na Colômbia, a artista desenvolveu uma relação especial com a população do Palenque de São Basílio, quilombo próximo de Cartagena, considerado o primeiro povo livre das Américas.

 

Assia Djebar

Assia Djebar, Sarah Maldoror, 1987, 7 minutos, França

Reportagem televisiva sobre a escritora argelina Assia Djebar, por ocasião do lançamento de seu livro "Sombra sultana". A autora reflete em voz alta sobre as mulheres no mundo árabe, sobre sua relação com o medo, o cerceamento no espaço doméstico e a esperança de ganhar a luz do exterior.

 

Aimé Césaire, a máscara das palavras
Aimé Césaire, the mask of words, Sarah Maldoror, 1987, 47 minutos, Estados Unidos, Martinica. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Dez anos após realizar seu primeiro filme em torno do poeta surrealista, dramaturgo, ativista e político martinicano Aimé Césaire, Sarah Maldoror volta a esta figura na ocasião em que recebe uma importante homenagem nos EUA. Ideólogo do conceito de "negritude", na entrevista que concede a Maldoror, Césaire fala de sua trajetória, reflete sobre história, colonialismo, preconceitos e sobre o papel da poesia.

 

Aimé Césaire - um homem, uma terra
Aimé Césaire - un homme une terre, Sarah Maldoror, 1976, 52 minutos, França, Martinica. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Aimé Césaire foi surrealista, ensaísta, ativista e um dos fundadores do movimento da Negritude, uma corrente artística e política progressista que defendia a cultura negra, fortemente ligada a ideais marxistas e anticoloniais.

 

Carnaval no Sahel

Un carnaval dans le Sahel, Sarah Maldoror, 1979, 23 minutos, Cabo Verde. Classificação: 14 anos.

Sinopse: O Carnaval é um evento e uma festividade em que os limites podem ser transgredidos em um contexto repleto de música, sensações e texturas. Neste filme, ele é também o ponto de partida para uma abordagem sobre a história da cultura negra e do colonialismo, com conceitos de identidade e negritude ocupando o centro da cena.

 

Christiane Diop

Christiane Diop, Sarah Maldoror, 1985, 6 minutos, França

Reportagem dedicada a Christiane Diop, que comanda a livraria e editora Présence Africaine desde a morte de seu companheiro, Alioune Diop, em 1980. Fundada em 1947 como revista, a Présence Africaine logo expande suas atividades e se torna ponto de convergência de intelectuais negros vindos da África e das Antilhas.



E os cães se calavam
Et les chiens se taisaient, Sarah Maldoror, 1976, 13 minutos, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Peça teatral cuja narrativa foca na rebelião de um homem contra a escravização de seu povo, filmada no interior do Musée de l'Homme, em Paris. Com atuações de Gabriel Glissant e Sarah Maldoror.

 

Em Bissau, o carnaval
Carnival en Guinée-Bissau, Sarah Maldoror, 1980, 13 minutos, Guiné-Bissau. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Um curta-metragem documental que aborda como os habitantes da Guiné-Bissau enxergam sua identidade e cultura negra, tendo como pano de fundo a celebração anual do Carnaval.

 

Fogo, uma ilha em chamas

Fogo, l'île de feu, Sarah Maldoror, 1979, 23 minutos, Cabo Verde, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: A Ilha do Fogo, em Cabo Verde, é o cenário deste documentário dos anos 70 produzido pelo governo revolucionário do novo país, no qual a diretora optou por uma abordagem antropológica. O filme lança um olhar belíssimo sobre uma nação no início de sua independência.

Léon G. Damas
Léon G. Damas, Sarah Maldoror, 1995, 24 minutos, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Um curta sobre o cofundador da revista L'Étudiant Noir, que promoveu a conscientização cultural negra, colaborador da Présence Africaine, poeta, deputado guianense, representante da UNESCO e combatente da resistência francesa.

 

Louis Aragon, uma máscara em Paris
Un Masque à Paris: Louis Aragon, Sarah Maldoror, 1978, 13 minutos, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Sarah Maldoror entrevista, neste documentário, Louis Aragon, poeta e figura fundamental do surrealismo francês. Ao mesmo tempo, questiona a forma como o movimento surrealista – nos períodos entre e pós-guerra – encarou a questão racial, do "outro" e da afirmação de outras identidades.

 

Monangambééé
Monangambeee, Sarah Maldoror, 1968, 16 minutos, Angola. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Os abusos dos traficantes de escravos portugueses em sua colônia de Angola são retratados por meio da tortura de um prisioneiro, fundamentada na ignorância e na incompreensão.

 

O hospital de Leningrado
L'hôpital de Leningrad, Sarah Maldoror, 1983, 58 minutos, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Uma história de prisão política ambientada em um hospital psiquiátrico, onde a polícia estatal de Stalin colocava seus opositores. A narrativa é fiel ao texto original, um conto do escritor russo Victor Serge.

 

Primeiro encontro internacional das mulheres negras

Première rencontre internationale des femmes noires, Sarah Maldoror, 1986, 6 minutos, França

Reportagem sobre o encontro ocorrido em novembro de 1986, em Paris.

 

René Depestre, poeta haitiano
René Depestre, poète haïtien, Sarah Maldoror, 1981, 5 minutos, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Pequeno documentário sobre René Depestre, poeta e antigo ativista comunista, umas das mais importantes figuras da literatura do Haiti.

 

Retrato de uma mulher africana 

Portrait d'une femme africaine, Sarah Maldoror, 1985, 3 minutos, França. Classificação: Livre.

Reportagem televisia a respeito da imigração de senegaleses para a França. A cineasta acompanha uma jovem cozinheira senegalesa, que trabalha em um centro de acolhimento para trabalhadores estrangeiros.

 

Sambizanga
Sambizanga, Sarah Maldoror, 1972, 97 minutos, Angola, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Domingos é membro de um movimento de libertação africano, preso pela polícia secreta portuguesa, após eventos sangrentos em Angola. Ele não trai seus companheiros, mas é espancado até a morte na prisão, e sem saber que ele morreu, sua esposa percorre diversas prisões, tentando em vão descobrir o seu paradeiro.

 

Uma sobremesa para Constance
Un dessert pour Constance, Sarah Maldoror, 1981, 63 minutos, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Nos anos 70, Bokolo e Mamadou, varredores na cidade de Paris, buscam uma maneira de custear o retorno para casa de um de seus companheiros doentes.

 

FILMES DE OUTROS CINEASTAS

 

CONSTELAÇÃO SARAH MALDOROR

Filmes em que Sarah Maldoror trabalhou como assistente ou que contêm imagens filmadas por ela

A batalha de Argel
La battaglia di Algeri, Gillo Pontecorvo, 1966, 121 minutos, Argélia e Itália. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Nos anos 1950, o medo e a violência aumentam à medida que o povo da Argélia luta pela independência do governo francês. Sarah Maldoror foi assistente de Pontecorvo nas filmagens.

 

Elas
Elles, Ahmed Lallem, 1966, 22 minutos, Argélia. Classificação: 14 anos.
Sinopse: No período pós-independência, estudantes argelinas do ensino médio falam sobre suas vidas e comentam como vislumbram o futuro, a democracia e o seu lugar na sociedade. Sarah Maldoror foi assistente de Lallem nas filmagens.

 

Sem Sol
Sans soleil, Chris Marker, 1983, 104 minutos, França. Classificação: 14 minutos.
Sinopse: Uma mulher narra os escritos contemplativos de um viajante do mundo experiente, com foco no Japão contemporâneo.

 

O legado da coruja - Episódio 7
L'héritage de la chouette - "Logomachie ou Les mots de la tribu", Chris Marker, 1990, 27 minutos, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Cineastas ensaístas como Marker e Godard adoram jogos de palavras. Aqui, conforme as imagens mostram como vocábulos de origem grega permeiam a nossa mídia, as placas de rua e até mesmo os grafites, mergulhamos, sob uma perspectiva semiótica, nas bases da própria fala.

 

Prefácio a Fuzis para Banta
Préface à Des fusils pour Banta, Mathieu Kleyebe Abonnenc, 2011, 28 minutos, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Uma elegia ao filme perdido de Sarah Maldoror, "Fuzis para Banta", filmado em 1970 na Guiné-Bissau, durante a guerra de independência e confiscado durante a montagem, na Argélia. Abonnenc estrutura seu filme em torno das fotografias de cena, das anotações do roteiro e de conversas com Sarah Maldoror. 

 

GENEALOGIA IMAGINATIVA

Filmes que apresentam proximidade estética e política com a obra de Sarah Maldoror

 

Alma no olho
Alma no olho, Zózimo Bulbul, 1973, 11 minutos, Brasil. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Metáfora sobre a escravidão e a busca pela liberdade por meio da transformação interna do ser, em um jogo de imagens de inspiração concretista.

 

Ôrí
Ôrí, Raquel Gerber, 1989, 100 minutos, Brasil. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Um olhar sobre o movimento negro brasileiro entre 1977 e 1988, a partir da relação entre o Brasil e a África.

 

Cais
Cais, Safira Moreira, 2025, 70 minutos, Brasil. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Dois meses após o falecimento de sua mãe Angélica, Safira viaja em busca de encontrá-la em outras paisagens. Num curso fluvial, o filme percorre cidades banhadas pelo Rio Paraguaçu, na Bahia, e pelo Rio Alegre, no Maranhão, para imergir em novas perspectivas sobre memória, tempo, nascimento, vida e morte.

 

Curtas de Safira Moreira

 

Travessia

Travessia, Safira Moreira, 2017, 5 minutos, Brasil. Classificação: 14 anos

Articulando poesia, arquivos fotográficos e encenação, Safira Moreira problematiza de forma poética a ausência ou dificuldade de permanência das imagens das pessoas negras.

 

Nascente

Nascente, Safira Moreira, 2020, 6 minutos, Brasil

Quatro mulheres e uma criança, reunidas em numa casa em Salvador, em agosto de 2020. Apesar das restrições pandêmicas, tudo ali flui como um rio correndo nas matas, em uma energia etérea e misteriosa.

 

Alágbedé 

Alágbedé, Safira Moreira, 2021, 12 minutos, Brasil

Ogum, orixá yiorubá. Quando se manifesta sob o epíteto de Alágbedé, estão ressaltam-se suas habilidades com a forja, o fogo e os metais. Senhor das técnicas e das tecnologias – desceu à Terra para ensinar aos seres humanos a metalurgia. 

 

Da pele prata 

Da pele prata, Safira Moreira, 2025, 27 minutos

Neste filme dedicado aos seus pais, Angélica Moreira, pedagoga e idealizadora do Ajeum da Diáspora, e Chico da Prata, ourives especializado em joias com temática relacionada ao candomblé, Safira Moreira retoma, sob uma perspectiva diversa de Travessia (2017), a construção de um percurso breve, mas profundo, sobre a história da sua família. 

 

Curtas de Sara Gómez


Ilha do tesouro
Isla del tesoro, Sara Gómez, 1969, 9 minutos, Cuba. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Uma curta evocação poética de Sara Gómez sobre a Ilha de Pinos, a ilha onde Fidel Castro foi preso por Batista e onde a revolução constrói uma nova sociedade. O filme apresenta uma justaposição da prisão Presídio Modelo com a produção de cítricos.


Uma ilha para Miguel
Una isla para Miguel, Sara Gómez, 1968, 22 minutos, Cuba. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Miguel, um de 12 filhos oriundos de um bairro pobre de Havana, é enviado pela família para a "Isla de Pinos", para se tornar um novo homem. Gómez aponta a sua câmara para este território, para onde os marginalizados (jovens, negros, pobres, homossexuais, religiosos, hippies) eram enviados para trabalho e reeducação forçados.


Na outra ilha
En la otra isla, Sara Gómez, 1968, 41 minutos, Cuba. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Sara Gómez entrevista habitantes da Ilha da Juventude, em Cuba (então conhecida como Ilha de Pinos), capturando suas perspectivas sobre diversas questões sociais.

 

 

SERVIÇO

 

Retrospectiva: "O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror"

Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo

Período: 21 de fevereiro a 22 de março

Entrada Gratuita: Ingressos disponíveis 1 hora antes de cada sessão na bilheteria do CCBB e em bb.com.br/cultura

Classificação indicativa: Consultar a classificação indicativa de cada sessão no site do CCBB SP

Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico – SP  

Funcionamento: aberto todos os dias, das 9h às 20h, exceto às terças-feiras

Informações: (11) 4297-0600

Estacionamento: O CCBB possui estacionamento conveniado na Rua da Consolação, 228 (R$ 14 pelo período de 6 horas – necessário validar o ticket na bilheteria do CCBB). O traslado é gratuito para o trajeto de ida e volta ao estacionamento e funciona das 12h às 21h.

Transporte público: O CCBB fica a 5 minutos da estação São Bento do Metrô. Pesquise linhas de ônibus com embarque e desembarque nas Ruas Líbero Badaró e Boa Vista. 

Táxi ou Aplicativo: Desembarque na Praça do Patriarca e siga a pé pela Rua da Quitanda até o CCBB (200 m).

Van: Ida e volta gratuita, saindo da Rua da Consolação, 228. No trajeto de volta, há também uma parada no metrô República.  Das 12h às 21h.

 

bb.com.br/cultura

instagram.com/ccbbsp 

 facebook.com/ccbbsp

E-mail: ccbbsp@bb.com.br

 


Walking Tours culturais movimentam o Centro de São Paulo com edição especial de Carnaval

Shopping Light promove caminhadas guiadas que unem história, cultura e tradição carnavalesca no coração da cidade

O Shopping Light dá continuidade à sua programação cultural no Centro de São Paulo com duas edições do Walking Tour ao longo do mês de fevereiro, reforçando a região como espaço de lazer, convivência e valorização do patrimônio histórico. As caminhadas acontecem nos dias 8 e 22 de fevereiro, com propostas que dialogam com a identidade cultural da cidade e com o calendário paulistano.

No dia 8 de fevereiro, o público poderá participar de uma edição especial de Carnaval antecipado, que explora a relação do Centro de São Paulo com a festa popular mais tradicional do país. O roteiro percorre pontos emblemáticos da cidade resgatando histórias, personagens e transformações urbanas ligadas ao Carnaval, além de destacar como a celebração se manifesta e se reinventa no espaço urbano ao longo do tempo. Como parte da experiência, os participantes receberão um brinde temático de Carnaval, reforçando o clima festivo do passeio. 

Já no dia 22 de fevereiro, o Shopping Light realiza o Walking Tour convencional, voltado a quem deseja conhecer ou revisitar o Centro Histórico sob uma perspectiva cultural e arquitetônica, explorando marcos importantes da cidade e incentivando a ocupação positiva do espaço urbano, valorizando sua memória e relevância histórica. 

“O Walking Tour é uma forma de aproximar as pessoas da história e da cultura do Centro de São Paulo de maneira acessível e afetiva. Em fevereiro, ao conectar o passeio urbano com o clima do Carnaval, reforçamos a ideia de um Centro vivo, em constante transformação, que preserva suas memórias ao mesmo tempo em que segue criando novas experiências” , destaca Débora Neves, gerente de marketing do Shopping Light. 

Ao alinhar os Walking Tours à agenda cultural da cidade, o Shopping Light propõe uma forma diferente de vivenciar o Centro de São Paulo, unindo passeio urbano, conteúdo histórico e celebrações que fazem parte da identidade paulistana. Em fevereiro, a programação dialoga diretamente com o clima de Carnaval, mostrando como o Centro se transforma ao longo do ano e reforçando seu papel como palco das manifestações culturais que marcam o calendário da capital.

 

SERVIÇO

Walking Tour

Data: 8 e 22 de fevereiro

Horário: Das 9h45 às 13h15

Concentração: Praça de Eventos – Térreo do Shopping Light (em frente à Sodiê Doces, Kopenhagen e Casa Bauducco) – Entrada pela Rua Formosa, 157

Inscrições gratuitas via Sympla

 

Consumo excessivo de álcool no Carnaval pode afetar humor e saúde mental



Estudos apontam que abuso de bebidas alcoólicas no período festivo pode intensificar sintomas emocionais e dificultar a regulação do humor

 

O uso intenso de bebidas alcoólicas durante o Carnaval, prática comum em blocos de rua e festas prolongadas, pode trazer consequências negativas para a saúde mental, incluindo alterações de humor, ansiedade e crises emocionais. Estudos clínicos mostram que o consumo excessivo de álcool está associado à piora dos sintomas de ansiedade e depressão mesmo após curtos períodos de uso, especialmente quando combinado à privação de sono e ao desgaste físico típico do período. 

De acordo com a revisão “Alcohol and Anxiety Disorders: A Systematic Review and Meta-Analysis”, publicada no Journal of Affective Disorders, consumidores de alto volume de álcool apresentam probabilidade significativamente maior de relatar sintomas de ansiedade e depressão quando comparados a consumidores leves ou moderados. A pesquisa reforça que o impacto do álcool sobre a saúde mental não se limita a quadros crônicos, podendo ocorrer mesmo em contextos pontuais de consumo intenso. 

O fenômeno popularmente conhecido como “hangxiety” — sensação de ansiedade intensificada no dia seguinte ao consumo excessivo de álcool — tem base científica em estudos que analisam a relação entre álcool, neurotransmissores e humor. As evidências indicam que a ressaca envolve desequilíbrios neuroquímicos que afetam diretamente o estado emocional, contribuindo para sentimentos de irritabilidade, inquietação e angústia após a fase inicial de euforia. 

“A ingestão de álcool altera a regulação normal dos neurotransmissores que modulam o humor, como a serotonina e o GABA, e influencia o eixo do estresse, o que pode resultar em piora do humor e maior vulnerabilidade emocional”, explica a psicóloga Dra. Andrea Beltran

Dados da National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA) indicam ainda que transtornos por uso de álcool apresentam alta taxa de ocorrência com transtornos de ansiedade e depressão. Segundo a instituição, indivíduos com esses diagnósticos enfrentam maior dificuldade em regular emoções sob influência do álcool, o que aumenta o risco de crises emocionais e comportamentos impulsivos. 

Mesmo entre pessoas sem diagnóstico de transtorno psíquico, o uso excessivo de bebidas alcoólicas pode funcionar como uma forma disfuncional de lidar com emoções negativas. Nesse contexto, o alívio temporário proporcionado pelo álcool durante a festa tende a ser seguido por instabilidade emocional, arrependimento e aumento da ansiedade nos dias posteriores. 

“Durante o Carnaval, é comum que as pessoas bebam mais, durmam menos e se alimentem mal, sem perceber o impacto disso na saúde emocional. Quando o álcool passa a ser usado como principal forma de relaxar ou socializar, ele pode intensificar ansiedade, tristeza e instabilidade emocional nos dias seguintes. Por isso, observar limites e sinais do próprio corpo é fundamental”, orienta a psicóloga Dra. Andrea Beltran. 

Especialistas recomendam moderação no consumo de bebidas alcoólicas, intervalos com ingestão de água, alimentação adequada e atenção aos sinais emocionais próprios. Caso sintomas de ansiedade, tristeza persistente ou instabilidade emocional se mantenham após o período carnavalesco, a busca por apoio profissional é indicada.


Entre a euforia e o cansaço: os diferentes impactos do Carnaval na saúde mental

No Brasil o Carnaval é tradicionalmente associado à alegria, à liberdade e à celebração coletiva. Para muitas pessoas, o período representa uma pausa necessária na rotina, funcionando como uma verdadeira válvula de escape emocional. Cidades como São Paulo, atraem milhões de pessoas para aproveitar a festividade. Em 2025, por exemplo, um levantamento da Secretaria de Turismo e Viagens mostrou que cerca de 4,5 milhões de pessoas participaram do carnaval na cidade, distribuídas pelos mais de 700 blocos de rua.

A professora de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, Mariana Ramos, afirma que o Carnaval pode ter um efeito ambíguo sobre a saúde mental, já que não é vivenciado da mesma forma por todos. “Enquanto para algumas pessoas a festa desperta alegria, energia e senso de pertencimento, para outras pode provocar ansiedade, desconforto emocional, sensação de inadequação e sobrecarga social”, explica. 


Para muitas pessoas, no entanto, o Carnaval funciona como um espaço legítimo de expressão, ao permitir liberar emoções reprimidas, brincar com identidades e se conectar coletivamente, o que pode ser libertador e terapêutico. A psicóloga esclarece que o momento favorece a diminuição das inibições sociais, seja pelo clima de descontração, seja pelo afastamento temporário das obrigações profissionais e pessoais. 


“O cérebro tende a interpretar o Carnaval como um período fora da rotina, uma espécie de exceção às regras. O aumento dos estímulos prazerosos, do contato social intenso e da sensação de liberdade favorece a liberação de neurotransmissores ligados ao bem-estar, como a dopamina, o que pode gerar euforia, motivação e prazer, mas também levar à exaustão física e emocional quando não há respeito aos próprios limites”, afirma Mariana.


Por outro lado, esse mesmo cenário pode ser fonte de sofrimento emocional para quem não se identifica com a festa. “Existe uma expectativa coletiva de felicidade que nem sempre corresponde ao que a pessoa está sentindo. Quando ela não consegue ou não deseja participar, pode surgir culpa, comparação e até isolamento emocional”, alerta a professora.


Ambientes com excesso de estímulos, como multidões, barulho intenso e mudanças bruscas na rotina de sono, também contribuem para o desgaste psicológico. Nesse sentido, a profissional explica que pessoas mais sensíveis, introvertidas ou que já convivem com ansiedade podem se sentir sobrecarregadas, porque o corpo entra em estado de alerta constante, o que favorece irritabilidade, cansaço mental e crises de ansiedade.


Por isso, a especialista enfatiza a importância de respeitar os próprios limites para preservar a saúde mental durante o período. “É preciso entender que não existe uma forma certa de viver o Carnaval. Curtir a festa ou optar por descansar, viajar ou ficar em casa são escolhas igualmente válidas. Autocuidado também é saber dizer não”, conclui.



Iniciativas exemplares


No Brasil, algumas experiências já mostram como o Carnaval pode ser também um espaço de cuidado, pertencimento e inclusão para pessoas em sofrimento psíquico. No Rio de Janeiro, por exemplo, blocos como o Loucura Suburbana” e o Zona Mental” se tornaram referências ao promoverem a participação ativa de usuários, familiares e profissionais da rede de saúde mental em uma folia planejada, acolhedora e segura. Mais do que apenas festas de rua, essas iniciativas funcionam como ferramentas de cidadania e combate ao estigma, criando ambientes onde a alegria do Carnaval se une ao respeito, à escuta e à proteção emocional. Com estrutura organizada, acompanhamento e proposta inclusiva, os blocos mostram que é possível celebrar sem negligenciar vulnerabilidades, transformando a festa em um momento de convivência comunitária, fortalecimento de vínculos e valorização da saúde mental como parte essencial do bem-estar coletivo. 



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