quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Crescimento dos carros eletrificados amplia debate sobre pontos de recarga em condomínios

Avanço da mobilidade elétrica no Brasil faz infraestrutura de recarga ganhar espaço no planejamento de novos empreendimentos e nas assembleias condominiais

 

A rápida expansão dos veículos eletrificados no Brasil começa a provocar mudanças também no mercado imobiliário. Com mais carros elétricos e híbridos circulando nas ruas, condomínios residenciais passam a discutir uma nova demanda nas garagens: a instalação de pontos de recarga capazes de atender aos moradores sem comprometer a segurança da rede elétrica ou gerar conflitos sobre custos.

 

O movimento ganhou força em 2026. Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), 215.023 veículos leves eletrificados foram emplacados no Brasil entre janeiro e junho, número 125% superior às 95.493 unidades registradas no mesmo período de 2025. Com o resultado, os eletrificados passaram a representar 16% das vendas de veículos leves no primeiro semestre. Em junho, a participação chegou a 18,3%, com 47.579 unidades comercializadas, recorde mensal do segmento.

 

O crescimento também vem acompanhado de uma maior variedade de modelos disponíveis no mercado brasileiro. A oferta passou de 294 opções de veículos eletrificados no primeiro semestre de 2025 para 350 modelos no mesmo período de 2026, ampliando as alternativas para consumidores e acelerando a presença da tecnologia no cotidiano.

 

Para Karol Freitas, CEO da Gestart Condomínios, esse avanço começa a transformar a infraestrutura das garagens em uma questão cada vez mais presente na rotina de síndicos e moradores.

 

“À medida que os veículos eletrificados se tornam mais acessíveis e ganham espaço no mercado, essa demanda inevitavelmente chega aos condomínios. O que antes era uma necessidade pontual de poucos moradores tende a se tornar uma questão de infraestrutura e planejamento para os edifícios”, afirma.

 

Nos condomínios novos, a tendência é que a infraestrutura seja considerada ainda na fase de projeto. A preparação pode envolver a previsão de pontos de recarga nas garagens, dimensionamento adequado da instalação elétrica e sistemas capazes de individualizar o consumo de cada unidade.

“Quando a infraestrutura é pensada desde o início, o condomínio consegue estabelecer regras mais claras e evitar adaptações feitas às pressas no futuro. É importante que a questão esteja prevista no planejamento do empreendimento e que os moradores saibam como será feita a utilização dos equipamentos”, explica Karol.

 

Já nos edifícios existentes, a instalação de carregadores exige uma avaliação técnica e uma discussão entre os moradores. A capacidade da rede elétrica, a necessidade de adequações, o local de instalação e a forma de cobrança pelo consumo são alguns dos pontos que precisam ser analisados antes da implantação.

 

“Não basta simplesmente colocar uma tomada na garagem. O condomínio precisa avaliar a estrutura disponível e definir, de forma transparente, quem poderá utilizar o equipamento, como será feita a medição do consumo e quem ficará responsável pelos custos. É uma decisão que precisa ser planejada e formalizada”, destaca.

 

Outro ponto de discussão é a definição de quem deve arcar com os custos. Quando a instalação atende exclusivamente a um morador, é importante estabelecer uma solução que permita individualizar tanto o consumo quanto, quando aplicável, os custos relacionados à instalação. Já equipamentos de uso coletivo podem envolver despesas compartilhadas, conforme as regras e deliberações do condomínio.

 

Para Karol, a questão tende a aparecer com mais frequência nas assembleias condominiais à medida que a frota eletrificada aumenta.


“É natural que alguns moradores questionem um investimento que inicialmente beneficia poucas pessoas. Por isso, o diálogo e a transparência são fundamentais. O condomínio precisa encontrar uma solução que atenda à demanda de quem possui um veículo eletrificado sem transferir indevidamente custos para quem não utiliza o serviço”, avalia.

 

O avanço das vendas reforça essa perspectiva. Em 2025, o mercado brasileiro encerrou o ano com 223.912 veículos leves eletrificados vendidos, crescimento de 26% em relação a 2024. O resultado representou um novo recorde histórico para o segmento.


Além dos impactos na infraestrutura, a preparação para veículos eletrificados pode se tornar um atributo valorizado nos novos empreendimentos. Para incorporadoras, oferecer uma garagem preparada para a instalação de carregadores pode representar uma vantagem diante de consumidores que já consideram a mobilidade elétrica na decisão de compra de um imóvel.


“Os condomínios estão acompanhando mudanças no comportamento dos consumidores. Assim como outras tecnologias passaram a fazer parte da estrutura esperada em novos empreendimentos, a possibilidade de recarga de veículos tende a ganhar importância. Quem se antecipa consegue planejar melhor e evitar conflitos quando a demanda aumentar”, afirma Karol.

 

A recomendação para quem já possui ou pretende comprar um veículo eletrificado e mora em condomínio é verificar previamente se existe estrutura disponível para recarga. Caso não exista, o ideal é apresentar a demanda à administração e discutir o tema formalmente, com avaliação técnica e definição das responsabilidades.


“Antes de comprar um veículo eletrificado, o morador deve saber como funciona a recarga dentro do condomínio. Se não houver estrutura, é importante levar o assunto à administração e à assembleia. Quanto mais organizado for esse processo, menores serão as chances de problemas futuros”, conclui Karol.



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