Reconhecimento facial, leitura de placas, inteligência de vídeo e protocolos contra engenharia social ganham espaço, mas especialista alerta que tecnologia sem processos e treinamento ainda deixa brechas
A segurança dos
condomínios residenciais mudou. Se antes a principal preocupação era reforçar
portões, instalar câmeras e orientar porteiros, hoje os riscos são mais
sofisticados e exigem uma combinação de tecnologia, procedimentos, treinamento
e participação dos moradores.
Em São Paulo, o
alerta permanece elevado. Dados da Secretaria da Segurança Pública citados em
levantamento divulgado em fevereiro de 2026 apontaram 313 roubos a condomínios
residenciais no Estado em 2025, uma média de aproximadamente uma ocorrência a
cada 28 horas.
Ao mesmo tempo, a
tecnologia passou a ocupar um papel mais estratégico. Reconhecimento facial,
leitura automática de placas, controle de acesso em múltiplas etapas, câmeras
com inteligência e integração entre diferentes sistemas já fazem parte da
realidade de muitos empreendimentos. Em São Paulo, inclusive, condomínios
passaram a poder compartilhar voluntariamente imagens de câmeras voltadas para
áreas públicas com o Smart Sampa, ampliando a integração entre segurança
privada e monitoramento urbano.
Para Humberto
Watanabe, sócio-fundador da Ghaw Serviços Gerais, porém, a
tecnologia não elimina o principal desafio da segurança condominial: criar uma
operação capaz de identificar riscos e impedir que pequenas falhas se
transformem em portas de entrada para criminosos.
“Hoje o criminoso
também estuda o condomínio. Ele observa a rotina, identifica horários,
comportamento dos moradores, procedimentos da portaria e possíveis
vulnerabilidades. Por isso, segurança não pode depender de um único
equipamento. É preciso trabalhar com camadas de proteção, processos bem
definidos e pessoas preparadas”, afirma.
Segurança
precisa funcionar em camadas
Uma das principais
mudanças na segurança condominial é justamente a compreensão de que nenhum
recurso, isoladamente, é capaz de impedir uma invasão.
Uma câmera pode
registrar uma ocorrência, mas não necessariamente impedi-la. Um sistema de
reconhecimento facial pode identificar um morador, mas não substitui a atenção
da portaria. Uma clausura pode dificultar o acesso, mas precisa estar integrada
a um procedimento correto de entrada e saída.
“Não existe uma
solução mágica. O condomínio mais protegido é aquele que combina barreiras
físicas, tecnologia, equipe treinada e procedimentos. Se uma camada falhar, as
outras precisam ser capazes de impedir ou dificultar o avanço da ameaça”,
explica Watanabe.
7 medidas
para aumentar a segurança do condomínio
1. Faça uma
análise de risco periódica
Antes de investir
em novos equipamentos, o condomínio precisa entender onde estão suas
vulnerabilidades. A avaliação deve considerar portarias, garagens, acessos de
pedestres, áreas externas, muros, pontos cegos, elevadores, áreas de lazer e
rotinas de funcionários e prestadores.
Também é
importante observar fatores comportamentais, como horários de maior movimento,
entrada de visitantes e entregadores e procedimentos adotados em situações
excepcionais. “Não adianta comprar tecnologia sem saber qual problema ela
precisa resolver. Primeiro é necessário identificar as vulnerabilidades;
depois, definir quais processos e equipamentos podem reduzi-las”, afirma
Watanabe.
2. Trabalhe
com controle de acesso em múltiplas etapas
O acesso ao
condomínio deve ser tratado como um processo, e não como uma simples abertura
de portão. Reconhecimento facial, biometria, cartões, QR codes, leitura de
placas e clausuras podem ser combinados de acordo com as características de
cada empreendimento.
Em garagens, por
exemplo, a leitura da placa pode ser associada à identificação do veículo e a
uma segunda etapa de confirmação antes da abertura completa do acesso. Esse
modelo de camadas vem ganhando espaço justamente porque dificulta que uma única
falha comprometa todo o sistema.
3. Prepare a
equipe para combater engenharia social
Uma das maiores
vulnerabilidades continua sendo o fator humano. Criminosos podem tentar se
passar por visitantes, prestadores, parentes de moradores ou entregadores. Em
alguns casos, o objetivo é convencer o funcionário a flexibilizar uma regra
aparentemente simples.
Por isso, o
treinamento precisa ir além de ensinar a operar equipamentos. “O profissional
precisa saber reconhecer situações fora do padrão e, principalmente, ter
segurança para não quebrar o protocolo diante de uma pressão. O criminoso
muitas vezes não tenta vencer a tecnologia; ele tenta convencer uma pessoa a
ignorá-la”, alerta Watanabe. Casos recentes em São Paulo mostram justamente
criminosos utilizando estratégias de engano para conseguir acesso aos prédios.
4. Reforce a
segurança de entregas e prestadores
Entregas e
serviços terceirizados são pontos sensíveis porque envolvem grande circulação de
pessoas que não fazem parte da rotina do condomínio. Sempre que a estrutura
permitir, o ideal é que entregadores permaneçam em áreas controladas, evitando
a circulação desnecessária pelas áreas internas.
O tema ganhou
inclusive espaço no debate legislativo paulistano. Um projeto apresentado na
Câmara Municipal em 2025 propôs que entregadores não fossem obrigados a entrar
nas áreas internas de condomínios, estabelecendo a portaria ou outro ponto de
acesso como local preferencial para a entrega.
“Quanto menos
pessoas desconhecidas circularem pelas áreas internas, menor é a superfície de
risco. O condomínio precisa encontrar uma solução que preserve a segurança sem
criar dificuldades desnecessárias para moradores e trabalhadores”, avalia
Watanabe.
5. Integre
câmeras, alarmes e sistemas de acesso
Ter vários
equipamentos não significa necessariamente ter um sistema de segurança
eficiente. O ganho está na capacidade de fazer com que as informações conversem
entre si.
Câmeras podem
auxiliar na identificação de movimentações fora do padrão, sistemas de acesso
podem registrar entradas e saídas e alarmes podem gerar alertas para situações
específicas. A inteligência de vídeo também começa a ampliar as possibilidades
de monitoramento, permitindo identificar determinados comportamentos e
ocorrências sem depender exclusivamente da observação humana.
Além disso, a
integração com sistemas externos pode ampliar a capacidade de resposta. Em São
Paulo, o Smart Sampa passou a incorporar voluntariamente imagens de câmeras
externas de condomínios voltadas para vias públicas.
6. Crie
protocolos para situações de emergência
Um condomínio
precisa saber antecipadamente o que fazer diante de uma tentativa de invasão,
de um acesso indevido, de uma abordagem suspeita, de uma falha no sistema
eletrônico ou de uma emergência na portaria. Quem deve ser acionado? Como
bloquear os acessos? Quem comunica os moradores? Como registrar o incidente?
Qual é o procedimento quando o sistema fica fora do ar?
Essas respostas
precisam estar definidas antes de uma ocorrência. “Na hora de uma crise não é o
momento de descobrir quem deve fazer o quê. O protocolo precisa estar
estabelecido, treinado e revisado periodicamente”, afirma o especialista.
7. Transforme
os moradores em parte da segurança
Mesmo o sistema
mais sofisticado pode ser comprometido pelo comportamento dos próprios
moradores. Entrar acompanhado de desconhecidos, compartilhar controles, senhas
ou credenciais, permitir a entrada de terceiros sem confirmação e ignorar
procedimentos da portaria são comportamentos que podem criar vulnerabilidades.
A chamada “carona”
no acesso, por exemplo, pode comprometer sistemas que foram projetados
justamente para individualizar a entrada.
“Segurança não
termina na portaria. O morador também é responsável por respeitar as regras.
Quando cada pessoa entende que uma pequena atitude pode comprometer todo o
condomínio, a cultura de segurança começa a funcionar”, diz Watanabe.
Tecnologia
não substitui pessoas
O avanço
tecnológico não significa necessariamente a eliminação da presença humana. Ao
contrário, quanto mais sistemas são incorporados, maior pode ser a necessidade
de profissionais preparados para interpretar alertas, tomar decisões e atuar em
situações que não podem ser resolvidas automaticamente.
O desafio está em
encontrar o equilíbrio entre automação e supervisão. “Uma portaria automatizada
pode controlar acessos, mas não toma todas as decisões diante de uma situação
inesperada. Segurança exige capacidade de análise e resposta. A tecnologia deve
aumentar a eficiência da equipe, e não criar uma falsa sensação de que o
condomínio está protegido simplesmente porque instalou equipamentos modernos”,
ressalta Watanabe.
Segurança
também é gestão
Para o
especialista, a principal mudança de mentalidade deve acontecer na própria
administração dos condomínios. Segurança não deve ser encarada apenas como uma
despesa operacional ou como uma reação a um crime ocorrido nas proximidades.
Ela precisa fazer parte do planejamento do condomínio, com avaliação de riscos,
orçamento, treinamento, manutenção dos equipamentos e atualização dos
protocolos.
“Esperar acontecer
uma invasão para descobrir onde estavam as falhas é a estratégia mais cara.
Segurança eficiente é construída antes do incidente, com planejamento,
prevenção e revisão constante dos processos”, conclui Watanabe.
Em um cenário no
qual criminosos também utilizam informação, observação e engenharia social para
explorar vulnerabilidades, o condomínio do futuro não será necessariamente
aquele que possui mais equipamentos, mas aquele que conseguir combinar
tecnologia, pessoas, processos e comportamento de forma integrada.
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