Opinião
“[…] Embora toda dor seja um mal, nem toda dor deve
ser sempre evitada. […] Pois em certos momentos o bem é para nós um mal e,
inversamente, o mal é um bem”. Nesse trecho que encontro na Carta a Meneceu,
vejo um Epicuro necessário para o século XXI. Nascido seis anos após a morte de
Platão, esse grego viveu até os 71 anos, numa Atenas decadente e confusa depois
da invasão das tropas macedônicas, e buscou responder à pergunta fundamental
que nos ocorre diante de alterações bruscas na vida que exigem uma reinvenção: O que
fazer?
Para ele, era preciso manter a mente tranquila e,
principalmente, viver sem que a dor tenha de ser uma companheira necessária. E
a forma de evitá-la é tornar-se um observador sério de si mesmo: O limite da
amplitude dos prazeres é a remoção de tudo o que provoca dor. Onde quer que o
prazer esteja presente, e enquanto ali permanecer, não haverá dor física, nem
sofrimento espiritual, nem ambos em conjunto.
As experiências agradáveis são fundamentais não
somente para o momento em que as vivemos, mas como uma espécie de depósito de
memórias para os tempos desafortunados. A dor não dura continuamente na carne,
diz o pensador. E, se continua, a memória dos prazeres vividos é o seu
antídoto.
Epicuro conhecia a dor: acometido de uma grave
doença nos rins, sofria dores excruciantes, mas isso não o impedia de falar
sobre as curas para a alma a todos os que o procuravam no grande jardim de sua
casa, nos arredores de Atenas, onde se dirigia para mulheres, escravos, estrangeiros,
crentes e céticos, crianças e idosos, todos em busca de um alento para
apaziguar seus tormentos. O que sustentava seu fardo eram as lembranças
felizes, a memória irrigada pelas experiências com os amigos, os amores, a
família, as paisagens, a boa comida e bebida, as viagens.
Epicuro resumiu sua filosofia em quatro máximas que
ficaram conhecidas como Tetrafármaco. Trata-se de um conjunto de conselhos para
a alma. O primeiro deles dizia: não tema os deuses. Isso não quer dizer
que Epicuro fosse um ateu ou desprezasse o sentimento religioso das pessoas.
Pelo contrário: por serem deuses perfeitos, certamente eles tinham mais com o
que se preocupar do que a nossa mera vida mortal. Logo, temê-los ou adorá-los
seria uma perda de energia que poderia ser canalizada para uma vida mais
prazerosa.
O segundo fármaco diz: não se preocupe com a morte.
E por quê? Ora, porque, enquanto existimos, a morte não está presente; quando a
morte está presente, nós já não existimos mais. O terceiro conselho é o mais
importante e desafiador: o que é bom, é fácil de obter. Ou seja,
as necessidades naturais e fundamentais são simples de satisfazer. A ansiedade
vem de desejar o que é desnecessário ou ilimitado. E, por fim, completa o
filósofo: o que é terrível, é fácil de suportar. Talvez porque dure
pouco ou, se durar muito, a razão e a lembrança dos momentos felizes são as
armas para combatê-la.
Penso nos jovens da geração Z e na importância de ensinar as lições de Epicuro. Vivam, acumulem experiências alegres, prestem atenção em tudo, aceitem cada sabor da vida, guardem suas lembranças com carinho. E não temam nem imaginem que a vida é diferente do que simplesmente preencher o tempo do qual dispomos da maneira mais agradável e responsável possível.
Daniel Medeiros - doutor em Educação Histórica e professor de Humanidades no Curso e Colégio Positivo. @profdanielmedeiros
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