Especialista
desvenda os mecanismos do inconsciente que nos levam a entrar nos mesmos
empregos abusivos ou escolher parceiros com os mesmos defeitos do passado, e
explica como quebrar esse ciclo em análise.
Trocar de emprego e, meses depois,
perceber que o novo ambiente reproduz os mesmos problemas do anterior. Encerrar
um relacionamento desgastante para, algum tempo depois, envolver-se com alguém
de perfil semelhante. Situações como essas são mais comuns do que parecem e
despertam uma pergunta recorrente: por que algumas pessoas parecem repetir os
mesmos padrões, mesmo quando desejam mudar? Para a psicanálise, esse fenômeno
pode estar relacionado ao conceito de compulsão à repetição, mecanismo
inconsciente que leva o indivíduo a reviver conflitos ainda não elaborados.
Embora o termo seja pouco conhecido
fora dos consultórios, a compulsão à repetição foi descrita por Sigmund Freud
para explicar a tendência humana de reviver experiências emocionalmente
marcantes, mesmo quando elas provocam sofrimento. Em vez de aprender com o
passado e evitá-lo, o inconsciente busca recriar situações semelhantes como uma
tentativa de elaborar conflitos que permaneceram abertos.
Segundo a psicóloga especialista em ansiedade
Eliane Alves, esse processo acontece de forma inconsciente e, por isso, muitas
pessoas acreditam que estão apenas tendo "azar" nas escolhas. "É
comum ouvir alguém dizer que sempre encontra parceiros com o mesmo
comportamento ou chefes igualmente abusivos. Na maioria das vezes, não se trata
de coincidência, mas da repetição de padrões emocionais construídos ao longo da
vida, que continuam influenciando as decisões sem que a pessoa perceba",
explica.
Esses padrões costumam ter origem nas
primeiras experiências afetivas e familiares. A maneira como a criança aprendeu
a lidar com amor, rejeição, reconhecimento, críticas ou abandono pode servir de
modelo para relacionamentos futuros, influenciando a forma como ela escolhe
parceiros, estabelece amizades, se posiciona no trabalho e enfrenta conflitos.
"Aquilo que não foi elaborado
emocionalmente tende a buscar novas formas de aparecer. O inconsciente tenta
resolver antigos conflitos recriando cenários parecidos, mas, sem consciência
desse movimento, a pessoa acaba revivendo o sofrimento em vez de
transformá-lo", afirma Eliane.
A repetição também pode estar presente
em comportamentos que vão além dos relacionamentos amorosos. Pessoas que
assumem responsabilidades excessivas, têm dificuldade em impor limites, aceitam
ambientes profissionais tóxicos ou vivem buscando aprovação constante podem
estar reproduzindo padrões desenvolvidos em outros momentos da vida, sem
perceber a influência dessas experiências sobre suas escolhas atuais.
Romper esse ciclo exige mais do que
força de vontade. Para a especialista, mudanças profundas acontecem quando o
indivíduo consegue compreender os significados emocionais por trás das próprias
escolhas. "Enquanto o padrão permanece inconsciente, ele continua
conduzindo comportamentos. O autoconhecimento permite identificar essas
repetições e criar novas possibilidades de resposta diante das situações da
vida."
Nesse processo, a psicoterapia,
especialmente a abordagem psicanalítica, oferece um espaço para que essas
experiências sejam reconhecidas, compreendidas e ressignificadas. Ao entrar em
contato com conteúdos antes inconscientes, o paciente amplia sua capacidade de
fazer escolhas mais alinhadas às necessidades do presente, em vez de repetir
respostas construídas no passado.
"Todos nós repetimos padrões em alguma medida. A diferença está em conseguir perceber quando essas repetições geram sofrimento e entender que elas podem ser transformadas. Conhecer a própria história não muda o passado, mas amplia a liberdade para construir um futuro diferente", conclui a psicóloga.
Fonte: Eliane Alves - Psicóloga – especialista em ansiedade.
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