Regulamentação do CNJ e casos recentes reacendem debate sobre o uso da imagem de crianças na internet; especialista explica quando a autorização judicial pode ser necessária e quais cuidados ajudam a evitar riscos jurídicos
A
regulamentação nacional dos critérios para autorização judicial da participação
de crianças e adolescentes em conteúdos digitais trouxe uma nova realidade para
influenciadores, criadores de conteúdo, famílias e empresas que atuam com
publicidade nas redes sociais.
A
discussão ganhou ainda mais visibilidade após a suspensão do perfil da
influenciadora Yasmin Castilho, que reúne milhões
de seguidores nas redes sociais. O episódio colocou em evidência uma dúvida
compartilhada por milhares de criadores de conteúdo: em quais situações a
participação de crianças em conteúdos digitais exige autorização judicial?
Segundo
a advogada Dra. Isabela Casagrande, da SV Advogados, não existe uma
resposta única para todos os casos. O que determina a necessidade de
autorização judicial é o contexto da publicação e, principalmente, a existência
de exploração econômica da imagem da criança.
"Nem
toda publicação envolvendo crianças depende de autorização judicial. O que
precisa ser analisado é se aquela participação faz parte de uma atividade
econômica. Quando existe monetização, publicidade ou exploração comercial da
imagem do menor, a avaliação jurídica passa a ser indispensável", explica
Isabela.
A
especialista explica que a regulamentação busca assegurar os direitos de
crianças e adolescentes diante do crescimento da economia dos criadores de
conteúdo, estabelecendo critérios para situações em que a exposição deixa de
representar apenas um registro da vida familiar e passa a integrar uma
atividade profissional.
O caso Yasmin reacendeu uma discussão maior
Para
a advogada, o episódio envolvendo a influenciadora ajudou a tornar público um
tema que já vinha sendo debatido desde a aprovação do chamado ECA Digital e da
regulamentação publicada pelo Conselho Nacional de Justiça. "O caso ganhou
repercussão porque muitas famílias se identificaram com a situação. Mas a
discussão é muito maior do que um influenciador específico. O que está em
debate é a forma como o mercado digital deve conciliar liberdade de produção de
conteúdo com a proteção dos direitos de crianças e adolescentes."
Quando o alvará pode ser necessário?
A autorização judicial costuma ser analisada quando a participação da criança
deixa de ser eventual e passa a integrar a atividade econômica do perfil.
Entre
as situações que merecem maior atenção estão:
- campanhas publicitárias;
- conteúdos patrocinados;
- ações com marcas;
- publiposts;
- monetização recorrente;
- impulsionamento de conteúdos;
- participação frequente da criança;
- utilização da imagem do menor como parte relevante da estratégia
comercial do perfil.
Nessas
hipóteses, a atividade pode ser caracterizada como participação artística ou
publicitária, exigindo análise do Poder Judiciário.
E quando normalmente não há necessidade?
Publicações
ocasionais da rotina familiar, como registros de aniversários, viagens ou
momentos cotidianos, sem finalidade comercial ou exploração econômica da imagem
da criança, normalmente não se enquadram nas hipóteses que exigem autorização
judicial.
Ainda
assim, cada situação deve ser analisada individualmente. "O fator
determinante não é apenas a presença da criança na publicação, mas o papel que
ela desempenha dentro da atividade desenvolvida pelo perfil. A frequência da
exposição, a existência de contratos, remuneração e finalidade comercial são
elementos que fazem diferença nessa avaliação."
Como funciona o pedido de autorização?
Quando houver necessidade de autorização, o pedido deve ser apresentado perante a Vara da Infância e da Juventude do domicílio da criança, por meio de advogado.
O procedimento normalmente reúne informações sobre:
- atividade desenvolvida;
- forma de participação do menor;
- horários e condições das gravações;
- eventual remuneração;
- contratos existentes;
- medidas de proteção adotadas pela família.
O
Ministério Público participa do processo e poderá emitir parecer antes da
decisão judicial.
O impacto vai além dos influenciadores
As
mudanças também exigem atenção de empresas, agências de publicidade e
anunciantes.
Segundo
a especialista, campanhas envolvendo menores de idade passam a exigir uma
análise jurídica prévia para reduzir riscos tanto para o criador quanto para as
marcas envolvidas. "Quem contrata campanhas com influenciadores também
precisa verificar se a atividade está juridicamente adequada. A preocupação
deixa de ser apenas reputacional e passa a integrar as políticas de compliance
das empresas."
Cinco perguntas que todo criador deveria fazer antes de publicar
Antes
de utilizar a imagem de crianças em conteúdos monetizados, vale responder:
- Existe remuneração direta ou indireta?
- A criança aparece de forma recorrente?
- O conteúdo envolve publicidade?
- A imagem do menor é parte importante da estratégia do perfil?
- A atividade já foi analisada juridicamente?
Para
a Dra. Isabela, a regulamentação representa um processo natural de
amadurecimento do mercado de influência digital.
"O
alvará não deve ser visto como uma burocracia. Ele funciona como um instrumento
de proteção para a criança e também oferece segurança jurídica para pais,
influenciadores, empresas e anunciantes. A produção de conteúdo deixou de ser
apenas uma atividade criativa. Para quem atua profissionalmente nas redes
sociais, a gestão jurídica também passa a fazer parte do negócio", conclui
a especialista.
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