Nem todo esquecimento é motivo de preocupação,
mas alterações persistentes na memória merecem avaliação especializada
Esquecer onde deixou as chaves, demorar alguns segundos para
lembrar o nome de uma pessoa ou entrar em um cômodo sem recordar imediatamente
o que iria fazer são situações comuns e, na maioria das vezes, fazem parte do
envelhecimento natural do cérebro. No entanto, quando essas falhas de memória
passam a interferir na rotina, comprometem a autonomia ou vêm acompanhadas de
mudanças no comportamento e na capacidade de raciocínio, podem indicar
condições neurológicas que exigem investigação médica.
O alerta ganha importância diante do envelhecimento acelerado da
população. Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que mais de 55 milhões
de pessoas vivem atualmente com algum tipo de demência em todo o mundo, com
quase 10 milhões de novos casos registrados a cada ano. A expectativa é de que
esse número alcance 78 milhões em 2030 e 139 milhões em 2050. Cerca de 60% a
70% dos casos são causados pela doença de Alzheimer, mas essa não é a única
condição capaz de provocar perda de memória e alterações cognitivas.
No Brasil, estima-se que entre 1,2 e 1,8 milhão de pessoas
convivam com algum tipo de demência, embora muitos casos ainda permaneçam sem
diagnóstico. Paralelamente, o envelhecimento da população brasileira avança
rapidamente. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística,
aproximadamente 16% da população já tem 60 anos ou mais, aumentando a
necessidade de conscientização sobre a saúde cerebral.
Segundo a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, é importante
compreender que nem todo esquecimento representa uma doença. Com o avanço da
idade, o cérebro passa por mudanças naturais que tornam o processamento das
informações mais lento. É esperado, por exemplo, que uma pessoa leve mais tempo
para recordar um nome, esqueça um compromisso ocasionalmente ou precise de
maior repetição para aprender algo novo. Essas alterações, porém, não costumam
comprometer a independência nem impedir a realização das atividades cotidianas.
"O que merece atenção é quando o esquecimento passa a ser
frequente, progressivo e começa a comprometer atividades que antes eram
realizadas normalmente, como administrar as próprias finanças, lembrar
compromissos importantes ou reconhecer caminhos familiares. Nesses casos, a
avaliação médica é fundamental para identificar a causa e iniciar o tratamento
o quanto antes", explica a neurocirurgiã Dra. Vanessa Milanese, diretora
de Comunicação da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia.
Além das doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, existem
outras condições neurológicas capazes de provocar sintomas semelhantes e que,
em alguns casos, podem ser tratadas. Entre elas estão tumores cerebrais,
hematomas subdurais crônicos, algumas alterações vasculares e a hidrocefalia de
pressão normal, doença caracterizada pelo acúmulo de líquido no cérebro,
geralmente acompanhada por dificuldade para caminhar, perda urinária e
comprometimento cognitivo.
"O diagnóstico precoce faz toda a diferença. Nem toda perda
de memória é causada por doenças neurodegenerativas. Existem alterações
estruturais no cérebro e outras condições clínicas que podem apresentar
sintomas semelhantes e, em alguns casos, são tratáveis. Por isso, investigar a
origem desses sinais é essencial para oferecer ao paciente a melhor conduta
possível e preservar sua qualidade de vida", destaca a Dra. Vanessa
Milanese.
A investigação costuma envolver avaliação clínica detalhada, testes cognitivos e exames de imagem, como a ressonância magnética e a tomografia computadorizada, que ajudam a identificar alterações estruturais do cérebro e a descartar causas potencialmente reversíveis dos sintomas. Quanto mais cedo essas alterações forem identificadas, maiores são as possibilidades de tratamento, controle da progressão da doença e preservação da autonomia do paciente.
Outro ponto importante é que parte dos casos de demência pode ser
prevenida ou adiada. A The Lancet Commission estima que até 45% dos casos
estejam relacionados a fatores de risco modificáveis ao longo da vida, como
hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo
excessivo de álcool, perda auditiva não tratada, depressão e isolamento social.
A adoção de hábitos saudáveis, aliada ao acompanhamento médico regular, contribui
para preservar a saúde cerebral durante o envelhecimento.
Para a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, o principal recado é que esquecer ocasionalmente faz parte da vida e do processo natural de envelhecimento. Entretanto, quando a perda de memória se torna frequente, progressiva ou começa a interferir nas atividades diárias, a busca por avaliação médica não deve ser adiada. O diagnóstico precoce permite identificar doenças neurodegenerativas em fases iniciais, além de reconhecer condições tratáveis que podem simular quadros de demência, garantindo melhores perspectivas de tratamento e qualidade de vida para os pacientes e suas famílias.
SBN
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