No recesso escolar, cresce a necessidade de ampliar experiências e atividades
Com a mudança de rotina nas férias
escolares, o tempo diante das telas tende a crescer dentro de casa. Estudo
publicado no JAMA Pediatrics, em junho de 2026, mostra que 77,6% dos pais e
68,7% das crianças de 4 a 10 anos já usam dispositivos eletrônicos durante a
refeição em família, nos Estados Unidos. Para a pedagoga Mariana Buratto,
coordenadora pedagógica da Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino
Fundamental na Escola Gracinha, em São Paulo, com base nesse cenário, o
período exige equilíbrio entre o uso de tecnologia e experiências presenciais.
“As férias são uma oportunidade
importante para que as famílias vivam momentos de desconexão, que elas possam
compartilhar de experiências presenciais, de convívio, de contato”, afirma. Em
vez de proibir o uso de dispositivos, a orientação é ampliar as possibilidades
no cotidiano e criar boas oportunidades de escolha. “Quando a criança tem
oportunidade de explorar a casa, de encontrar pessoas, ou descer para brincar
com o amigo do prédio, cozinhar com a família, desenhar, passear, enfim, a
necessidade de ela recorrer à televisão, ao videogame, ao tablet, isso tende a
diminuir”, completa.
A organização da rotina contribui para
reduzir conflitos. Estabelecer previamente horários e limites evita negociações
constantes e ajuda a criança a compreender o uso adequado. “Se a gente tem
acordos prévios e claros quanto ao uso, o tempo de uso para as telas, isso
facilita nesses momentos”, explica. Ao mesmo tempo, o comportamento dos adultos
é determinante. “Os adultos também precisam atuar como modelos nesse momento”,
ressalta.
No campo da leitura, o período pede
menos cobrança e mais estímulo. “Acho que a nossa grande missão é despertar,
mesmo, o prazer pela leitura, ao invés de ficarmos exigindo que todos os dias a
criança leia um capítulo”, diz. Para isso, o ideal é tornar os livros e outros
portadores de texto acessíveis e permitir que a criança escolha o que deseja
ler. “Seja história em quadrinhos, seja uma revista, seja um livro de
curiosidades”, exemplifica. A leitura compartilhada também segue como
estratégia relevante. “Elas aprendem a ser leitores vendo exemplos de
leitores”, pontua.
Importância do tempo livre
Mais do que preencher a agenda, as
férias devem garantir tempo livre e experiências diversificadas. “As férias são
um tempo privilegiado para que as crianças possam brincar livremente, para elas
estarem ao ar livre, explorarem a natureza, encontrarem os amigos”, afirma.
Nesse contexto, o ócio ganha um papel central. “Elas terem tempo para inventar
brincadeiras, viverem situações não planejadas. Então, isso é muito potente
para o desenvolvimento das crianças como um todo”, comenta.
Cursos de férias podem ser uma
alternativa para famílias com rotina intensa de trabalho, desde que não
reproduzam o ambiente escolar. “O maior valor de um curso de férias é isso: ter
tempo para brincar, para explorar mesmo outros espaços, outras atividades,
vivências que muitas vezes não cabem ali na rotina da escola”, enfatiza. A
recomendação é priorizar propostas com oficinas de arte, culinária, música, esporte,
jogos e atividades ao ar livre, com espaço para a criatividade.
No fim, o recesso escolar se destaca
como uma oportunidade de fortalecer vínculos e construir memórias afetivas. “O
tempo compartilhado é um dos grandes presentes que as férias podem oferecer
para a criança”, resume a pedagoga.
A seguir, quatro dicas para as férias
escolares:
- Evitar agendas totalmente
estruturadas: garantir tempo para “brincar livremente” e também para “situações
não planejadas”, valorizando o ócio.
- Favorecer experiências ao ar livre e
de exploração: incluir natureza, encontros com amigos e liberdade para circular
e brincar.
- Estimular o brincar com diferentes
possibilidades no cotidiano: cozinhar, desenhar, passear e explorar a casa como
alternativas às telas.
- Fortalecer vínculos e convivência
familiar: incluir momentos de contato, diálogo, conflitos, organização da
rotina e tempo compartilhado.
Mariana Buratto - Pedagoga pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Coordenadora pedagógica da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental na Escola Gracinha, em São Paulo. Possui pós-graduação em Educação Inclusiva e Psicopedagogia Escolar pelo Instituto Singularidades e em Relações Interpessoais na Escola: das competências socioemocionais à personalidade ética pelo Instituto Superior de Educação Vera Cruz.

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