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| Obra “Faço o possível… sapato vermelho e régua”, 2024, de Nazareth Pacheco. Bronze e sapato, 20 x 41 x 8 cm. Fotógrafo: Filipe Berndt Divulgação, 2026. |
A mostra reúne produções históricas dos anos 1980 até os dias atuais, incluindo instalações inéditas criadas para a icônica sede do museu; confira os dias e horários de visitação da temporada
O Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE) inaugura, no dia 18 de julho, a exposição “Jogos de Contaminação”, da artista visual Nazareth Pacheco, uma das mais importantes e originais vozes da arte contemporânea brasileira. Com curadoria de Amanda Tavares, a mostra oferece um panorama abrangente e profundo de sua trajetória artística ao longo de quatro décadas de pesquisa e experimentação tridimensional.
Desde o início de sua trajetória, Nazareth Pacheco investiga o corpo feminino como território de disputa, memória e transformação. Sua biografia, que é marcada por sucessivas intervenções cirúrgicas na infância e juventude, atravessa sua pesquisa artística e converte experiências íntimas em reflexões sobre desejo, vulnerabilidade, controle e resistência. Distante de qualquer abordagem confessional ou romântica, sua produção é marcada pelo rigor formal e por imagens que colocam o espectador diante de uma tensão constante entre atração e desconforto.
O percurso da mostra inclui trabalhos históricos e recentes, além de duas instalações inéditas criadas para a área externa do MuBE. A mostra evidencia a consistência de uma pesquisa que articula o feminino, a experiência do corpo, os mecanismos de normatização social e as relações de poder no cotidiano.
Desde as primeiras obras com pinos de borracha, Nazareth constrói uma linguagem própria baseada na serialização, repetição e experimentação de materiais. Um núcleo central se organiza em torno da obra Quarto (com cerca de 4m2) composta por acrílico e lâminas. Em seu entorno, a série Objetos de aprisionamento (1992–1993) divide espaço com fotografias da artista, uma caixa que confina documentos autobiográficos, além de trabalhos que exploram chumbo e radiografias. Nesses trabalhos, memória, arquivo e corpo se entrelaçam, transformando experiências pessoais em reflexões sobre fragilidade, sobrevivência e controle.
Ao longo do tempo, sua pesquisa se ampliou para uma crítica aos procedimentos de correção e idealização do corpo feminino. Surgem, então, obras em que materiais associados ao luxo e à sedução convivem com elementos cortantes e agressivos. A partir do fim dos anos 1990, a artista incorpora metais como aço, cobre, latão e borracha, além de criar joias, vestimentas e objetos escultóricos com cristais, miçangas, acrílico, bisturis, agulhas e anzóis.
Segundo a curadora Amanda Tavares, “na obra de Nazareth Pacheco, binômios como beleza e violência, proteção e aprisionamento são parte da dinâmica do jogo que a artista instaura com os materiais e assuntos que elege como participantes do encontro, do confronto e da aposta que Nazareth promove com o próprio corpo-jogador, convocado às suas obras como tema, instrumento, escala e mediação. Na exposição, propomos evidenciar a agência de Pacheco na construção de sistemas de relação e confronto que desestabilizam percepções sedimentadas sobre o corpo, o feminino, o desejo e as relações de poder. Suas obras evidenciam tensões e colocam o espectador dentro delas, convocando-o a participar de uma dinâmica de sedução, risco e negociação simbólica. O jogo, para Nazareth, torna-se procedimento crítico: uma operação capaz de converter signos culturalmente estabilizados em experiências ambíguas e perturbadoras, revelando as violências sutis inscritas nos dispositivos de normalização e captura do corpo e do desejo”.
Flávia Velloso, presidente do MuBE, resume o espírito do projeto: “O MuBE é um museu que procura refletir sobre a cidade e o espaço urbano, e as cidades, em última instância são feitas por pessoas. Portanto, “Jogos de Contaminação” traz questões importantes sobre o corpo no espaço, a sociedade e suas tensões como aceitação, rejeição, inclusão, exclusão e reconhecimento do outro”.
Em Jogos de Contaminação, o conceito de jogo funciona como metáfora da experiência social. Em movimento contínuo, artista, matéria, espaço e público estabelecem relações instáveis, negociam regras e produzem deslocamentos de sentido. O corpo feminino surge como campo dessas disputas, atravessado por normatização, captura e resistência. Entre desejo e contenção, atração e confronto, a exposição convida o público a experimentar as ambiguidades que atravessam a obra de Nazareth Pacheco e sustentam sua força na arte contemporânea brasileira.
Como ponto alto da ocupação no MuBE, a exposição traz duas instalações inéditas concebidas especialmente para a área externa do museu, dialogando diretamente com a arquitetura brutalista de linhas marcantes do espaço. Em “Jogos de Contaminação”, o público é convidado a encarar obras que funcionam quase como relicários e testemunhas caladas de um corpo em constante resistência, transformando dores íntimas em reflexões coletivas sobre gênero, poder e identidade.
Os
materiais têm papel fundamental nessa construção. Borracha, bronze, latão, cera,
acrílico, sangue, cristais e instrumentos cirúrgicos têm seus usos deslocados e
ressignificados. Superfícies sedutoras convidam à aproximação, mas revelam
estruturas de risco ou impedimento, instaurando um jogo constante entre
fascínio e ameaça.
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| Obra “Faço o possível… colheres e ovos”, 2024, de Nazareth Pacheco. Prata, bronze e chumbo, 29 x 23 x 5 cm. Fotográfo: Filipe Berndt Divulgação, 2026. |
SERVIÇO
Exposição: Jogos de Contaminação – Nazareth Pacheco
Exibição: 18 de julho de 2026 a 31 de outubro de 2026.
Local: Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia (MuBE)
Rua Alemanha, 221 – Jardim Europa, São Paulo/SP (terça a domingo)
Av. Europa, 218 – Jardim Europa, São Paulo/SP (quarta a domingo)
Horário: Terça-feira, das 11h às 17h (última entrada às
16h30); de quarta a domingo, das 11h às 18h (última entrada às 17h30)
Entrada gratuita. Agendamento gratuito em www.mube.art.br
Classificação
indicativa: Não recomendado para menores de 12 anos
Esta
exposição e o MuBE contam com recursos da Lei Rouanet (Pronac 256548), com
Patrocínio Master do Instituto Votorantim, Patrocínio Senior da Biolab,
Patrocínio Itaú, Ageo, Machado Meyer e Instituto Machado Meyer, Apoio
Institucional da Prefeitura de São Paulo e Realização MuBE e Ministério da
Cultura.


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