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| A pesquisadora Eliane Chim, do MAE-USP (de costas), analisa um esqueleto humano encontrado em um abrigo rochoso no município de Iuiu, na Bahia (foto: Adriano Espinola Filho) |
Pesquisa revela, pela primeira vez, as estratégias de subsistência alimentar dessas comunidades, com práticas sofisticadas de uso da terra, envolvendo diversas espécies. Até então acreditava-se que essas populações teriam sido caçadoras-coletoras ou agricultoras de monocultura
O cultivo de milho foi fundamental para o sustento
e o desenvolvimento de grandes aldeias que povoaram o Cerrado brasileiro no
período pré-colonial, entre os séculos 9 e 17, segundo um estudo publicado nesta
quarta-feira (dia 15) na revista Science Advances. Liderada por
arqueólogos da Universidade de São Paulo e apoiada pela FAPESP, a pesquisa
revela, pela primeira vez, como eram as estratégias de subsistência dessas
comunidades de alta densidade populacional, com práticas sofisticadas de uso da
terra, envolvendo o cultivo de diversas espécies (policultura), e uma ênfase
especial no milho. Até agora, a ciência trabalhava com a possibilidade de que
elas teriam sido caçadoras-coletoras, predominantemente móveis, ou agricultoras
de monocultura.
Além de contribuir para a compreensão da história
da influência humana em uma das savanas tropicais mais biodiversas do planeta,
o trabalho ajuda a entender a produção de alimentos e as estratégias de uso da
terra que moldaram as paisagens do Cerrado como o conhecemos hoje.
Também destaca a importância do bioma na
compreensão de inovações biotecnológicas usadas pelas sociedades indígenas
pré-coloniais do Brasil – neste caso, a adaptação do milho às condições
ambientais da savana brasileira; bem diferentes do local de origem da
planta. Pesquisas anteriores já haviam tratado da
caracterização e dispersão do milho na América Latina, mostrando que ele chegou
ao país pelo sudoeste da floresta amazônica, há pelo menos 6 mil anos, a partir
do México, onde se originou 9 mil anos atrás, sendo, depois, levado a outras
regiões.
As conclusões do estudo são baseadas na análise de
pequenas variações químicas preservadas em ossos e dentes humanos, que
permitiram identificar quais tipos de plantas e outros alimentos eram
consumidos, em uma espécie de “registro” da alimentação ao longo da vida.
“Costumo dizer que o ser humano é o que come,
mantendo um registro na composição química de ossos e dentes. Por meio disso,
conseguimos identificar o consumo de milho comparável ao de populações maias ou
andinas, algo completamente inesperado nesse contexto. Também detectamos uma
variabilidade entre duas sociedades distintas, ou seja, tradições arqueológicas
com dietas marcadamente diferentes, corroborando uma diversidade social e
cultural”, diz à Agência FAPESP Eliane Chim, pesquisadora do Museu de Arqueologia e
Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) e primeira autora do artigo,
que é parte de sua tese de doutorado.
“Há mais de um século a arqueologia brasileira
debate o papel do milho nas sociedades pré-coloniais, especialmente as que
tinham grandes densidades demográficas e produziam cerâmicas mais elaboradas. É
a primeira vez que se consegue demonstrar no Brasil o papel central dele na
subsistência dessas populações. Assim como nos Andes e na Mesoamérica, o
cultivo aqui está associado àquelas sociedades com demografia mais expressiva e
marcas na paisagem mais evidentes”, destaca o arqueólogo André Strauss, coordenador do projeto e orientador de
Chim. Ele é professor do MAE-USP e um dos autores correspondentes do artigo,
juntamente com Patrick Roberts, do Instituto Max Planck (Alemanha).
O estudo é considerado pelos pesquisadores um marco
na arqueologia nacional, pelo fato de estar publicado em uma revista de alto
impacto, com primeiro e último autores brasileiros. A pesquisa foi financiada
pela FAPESP por meio do programa Jovem Pesquisador concedido a Strauss, de bolsas para
Chim e outros integrantes do grupo (20/04402-0, 23/06749-5, 22/05420-7, 20/06729-6) e de dois projetos, incluindo um deles que
subsidiou a publicação na revista (19/15914-4 e 26/12048-8).
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| Dente coletado em um sítio arqueológico na Lapa Pintada, em Montes Claros (MG), ]com 570 a 680 anos de idade, segundo análises realizadas pelo grupo de pesquisa (foto: Eliane Chim) |
O ‘valor’ dos ossos
Os cientistas analisaram isótopos estáveis de
carbono, nitrogênio e oxigênio em dentes e ossos de mais de cem indivíduos de
37 sítios arqueológicos do Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Em média, as
amostras datam de um período entre 1.100 e 400 anos atrás e foram obtidas de
escavações feitas pelo grupo de pesquisa e de coleções arqueológicas montadas
desde os anos 1970.
Os isótopos são variantes naturais de cada um dos
elementos químicos, que diferem no número de nêutrons. No caso do carbono,
indicam quais tipos de plantas predominavam na dieta, distinguindo, por
exemplo, o milho de outros frutos e plantas típicas do Cerrado. O nitrogênio
ajuda a estimar a quantidade de proteína animal consumida e a posição dos
indivíduos na cadeia alimentar. Já o oxigênio fornece dados relacionados à água
consumida e às condições ambientais.
Como diferentes alimentos têm assinaturas
isotópicas distintas, essas marcas ficam “registradas” nos tecidos do corpo e
podem ser usadas para reconstruir a alimentação de populações antigas,
permitindo identificar se a dieta era baseada principalmente em milho ou em
outros alimentos, e se havia consumo de proteína animal.
Além disso, os cientistas realizaram datações por
radiocarbono (uma técnica que permite determinar a idade de vestígios
orgânicos) no colágeno de cerca de 40% dos ossos que ainda preservavam a
proteína e usaram registros paleoecológicos para reconstruir as dietas. Esses
registros são vestígios preservados na natureza, como sementes, sedimentos e
restos de plantas e animais, que permitem entender como eram a vegetação, o
clima e o ambiente em diferentes períodos.
As amostras são provenientes de aldeias das
tradições Aratu, que viviam a céu aberto, e Una, um dos primeiros horticultores
ceramistas do Cerrado, que frequentavam abrigos rochosos, normalmente próximos
a leitos de rios ou lagoas.
Nas populações Aratu, o colágeno ósseo e o esmalte
dentário dos indivíduos mais antigos indicaram o consumo de milho. Além disso,
outros estudos registraram marcas de desgaste em vasilhames de cerâmica
compatíveis com a fermentação de bebidas alcoólicas, apontando, assim, um papel
mais amplo das plantas cultivadas no cotidiano das aldeias. Sinaliza que o
milho poderia ser usado na base da dieta e, possivelmente, em práticas
comunitárias ou rituais.
“Não se fala tanto deles, mas esses grupos Aratu
tinham presença única no Cerrado”, destaca Strauss. Segundo ele, as aldeias
Aratu chegavam a ter 2 mil habitantes, população semelhante à de maior parte
das cidades europeias da mesma época.
Por outro lado, as populações de abrigos rochosos, da cultura Una, ingeriam alimentos mais diversificados, com menor consumo de milho. De acordo com os cientistas, como esses grupos ocupavam ambientes semelhantes aos de aldeias Aratu, as diferenças não são explicadas apenas pela ecologia – em vez disso, indicam que havia uma coexistência de tradições culturais e estratégias econômicas distintas dentro do bioma. Ambas praticavam a policultura, mas no caso das comunidades Aratu, mais populosas, o milho era uma fonte primordial de subsistência.
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| Localização da área de estudo, dos biomas e dos sítios. Elaborado para este estudo utilizando o QGIS 3.32.0 e o Natural Earth, adaptado do artigo (Chim et al., 2026) |
Construção coletiva
Ao todo, o projeto vem sendo desenvolvido há mais
de dez anos. Reuniu 31 pesquisadores de dez universidades brasileiras, em
colaboração com o Max Planck e instituições de Portugal, Polônia e Estados
Unidos.
“A arqueologia tem uma outra temporalidade. Em seis
meses não se consegue fazer quase nada. É preciso ir a campo, escavar, voltar
para o laboratório, fazer a curadoria para, só então, ter início a fase
propriamente analítica do trabalho. Usamos isso também como um mecanismo de
treinamento de recursos humanos e a Eliane [Chim] é um exemplo disso”, afirma
Strauss.
Para Chim, um dos desafios de realizar esse tipo de
estudo é a preservação do material arqueológico, especialmente quando ela
precisou analisar o colágeno. Foram avaliadas mais de 270 peças para conseguir
obter a amostra utilizada no trabalho.
“Pretendemos retomar a pesquisa de campo nesses sítios arqueológicos e tentar encontrar onde eram as roças, onde as pessoas estavam cultivando. Conhecemos os cemitérios, os campos de urna, sabemos o tamanho de algumas aldeias, mas precisamos encontrar os outros espaços ocupados por essas pessoas”, completa Chim, apontando o futuro do trabalho.
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| Urna funerária Aratu, escavada no sítio Vale Verde, na Bahia (foto: Mario Spock Fernandez) |
O artigo Maize-based polyculture, not monoculture, sustained precolonial societies in the Brazilian Cerrado pode ser lido em: science.org/doi/10.1126/sciadv.aef7066.
Luciana Constantino
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/agricultura-do-milho-sustentou-grandes-aldeias-pre-coloniais-do-cerrado/58692




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