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sábado, 18 de julho de 2026

Férias escolares ampliam tempo de tela e expõem crianças a riscos para a saúde e a segurança digital

 

Levantamentos nacionais e internacionais mostram que o uso excessivo de telas nos primeiros anos de vida pode comprometer o desenvolvimento infantil e aumentar a exposição de crianças e adolescentes à violência e à exploração no ambiente digital
 

Com o início das férias escolares de julho para cerca de 47 milhões de estudantes da Educação Básica, cresce também a preocupação com o aumento do tempo que crianças e adolescentes passam diante de celulares, vídeo games, tablets, computadores e televisões. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças de até cinco anos não permaneçam mais de uma hora por dia em atividades sedentárias diante das telas, já que a exposição prolongada pode comprometer o desenvolvimento infantil. 

Os dados mostram que a realidade está distante dessa recomendação. A pesquisa Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida (2025), da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, aponta que crianças de até dois anos passam, em média, duas horas diárias usando telas. Entre as crianças de 0 a 3 anos, 78% são expostas diariamente a dispositivos eletrônicos, percentual que sobe para 94% entre aquelas de 4 a 6 anos. Estudos científicos também associam o excesso de tempo de tela a prejuízos na atenção, aprendizagem, memória, criatividade, regulação emocional, qualidade do sono e saúde física, além de apontarem maior risco de problemas como obesidade, ansiedade, déficit de atenção e depressão. 

“Esses números demonstram que o que acontece hoje no Brasil não é algo isolado, mas sintoma de um processo que vem ocorrendo no mundo todo. O uso excessivo de telas por crianças reflete tanto o avanço acelerado das tecnologias e a rapidez com que são implementadas, quanto o modelo econômico em que vivemos. Modelo esse, no qual empresas voltadas à maximização do lucro buscam criar plataformas, ferramentas e aplicativos cada vez mais psicologicamente atraentes, especialmente para crianças e adolescentes, enquanto, do outro lado, mães e pais cada vez mais cansados buscam uma forma rápida de distração e ocupação para seus filhos, seja por otimização de tempo, seja por falta de rede de apoio, seja por cansaço ou qualquer outra necessidade, e essa realidade ganha ainda mais força durante o período de férias escolar. Diante desse cenário, o Governo assume papel central. O posicionamento estatal diante do avanço, da implementação e da usabilidade dessas plataformas pode ser o que diferencia uma infância mais segura e saudável de uma infância sintomática, marcada por danos e consequências de longo prazo que nós ainda não compreendemos por completo. Essa realidade não pode recair apenas sobre os responsáveis legais: cabe ao Governo regular essas plataformas, ferramentas e aplicativos, e não somente assistir passivamente enquanto as empresas lucram diretamente com o adoecimento e a vitimização das nossas crianças, “ afirma Beatriz Knippel, Advogada e coordenadora do Grupo de Trabalho de Privacidade do Aqualtune Lab, entidade integrante da Coalizão Direitos na Rede. 

O aumento da presença de crianças e adolescentes no ambiente digital também amplia a exposição a violências online. Levantamento realizado pelo governo brasileiro em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) mostra que 23% das crianças e adolescentes entrevistados sofreram algum tipo de violência sexual na internet entre 2022 e 2023. Pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Interpol estima que uma em cada cinco crianças ou adolescentes no Brasil já foi vítima de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia. Casos de aliciamento, cyberbullying, exposição a conteúdos inadequados, disseminação de imagens íntimas e deepfakes envolvendo menores reforçam a necessidade de fortalecer mecanismos de proteção no ambiente digital. 

É nesse contexto que a Coalizão Direitos na Rede tem acompanhado e contribuído para o debate sobre políticas públicas voltadas à proteção de crianças e adolescentes na internet. A organização participa das discussões sobre o ECA Digital e outras iniciativas legislativas que buscam estabelecer deveres para plataformas digitais, ampliar a responsabilização pela proteção de usuários em situação de vulnerabilidade e garantir que crianças, adolescentes e mulheres tenham seus direitos preservados no ambiente online. Para a Coalizão, o período de férias reforça a importância de combinar educação digital, supervisão familiar e regulação das plataformas para reduzir os riscos associados ao aumento do tempo de tela.



Coalizão Direitos na Rede - CDR
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