Menos ansiedade, mais propósito e maior bem-estar psicológico estão entre os benefícios. Familiares e cuidadores têm papel fundamental no auxílio
Envelhecer com qualidade de vida
envolve muito mais do que praticar exercícios, se alimentar bem, manter
consultas médicas e tomar medicamentos corretamente. Cada vez mais, a ciência
confirma que aspectos emocionais e espirituais exercem papel importante no
bem-estar das pessoas idosas. A espiritualidade, entendida como a busca por
sentido, propósito e conexão com algo maior, tem sido apontada como um fator de
proteção para a saúde mental e emocional na terceira idade.
Uma metanálise internacional publicada
em 2022 e classificada como nível 1 de evidência (o mais alto da hierarquia
científica), mostrou que idosos que mantêm práticas espirituais ou religiosas
apresentam menos sintomas de ansiedade e depressão, maior satisfação com a
vida, mais propósito e melhor bem-estar psicológico. Outro levantamento, que
reuniu 39 estudos publicados entre 2016 e 2023, chegou à mesma conclusão:
quanto maior o nível de espiritualidade, melhores são os indicadores de saúde
mental, independentemente da idade, gênero ou condição socioeconômica.
No Brasil, as pesquisas seguem a mesma
direção. Estudos desenvolvidos pela Universidade de São Paulo (USP) e por
pesquisadores de Pernambuco encontraram associação entre espiritualidade, melhor
qualidade de vida e saúde mental, inclusive entre idosos que vivem em
instituições de longa permanência.
Para a geriatra e autora do livro “Ciências
da Saúde & Espiritualidade: Um Diálogo essencial para o cuidado”, Dra.
Anelise Fonseca, esse resultado faz sentido porque o ser humano não se
restringe apenas ao corpo. “Quando falamos em saúde da pessoa idosa, precisamos
olhar para além das doenças. A espiritualidade oferece conforto, fortalece a
esperança, ajuda a enfrentar perdas, limitações e mudanças próprias do
envelhecimento. Independentemente da religião, ela favorece o sentimento de
pertencimento, amplia a capacidade de lidar com momentos difíceis e contribui
para preservar a saúde mental e a qualidade de vida.”
O reconhecimento da importância da
espiritualidade não é recente. Desde 1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS)
considera essa dimensão um dos componentes do cuidado integral, especialmente
em pacientes que convivem com doenças crônicas e em cuidados paliativos.
Hospitais de referência no Brasil e em diversos países já contam com serviços
estruturados de assistência espiritual. Além disso, o Manual MSD, uma das
principais referências médicas do mundo, destaca que a espiritualidade favorece
uma atitude mais positiva diante da vida e da doença, refletindo em melhores
resultados para a saúde.
Como familiares e cuidadores podem
ajudar
Vale salientar que especialistas
defendem que respeitar a espiritualidade da pessoa idosa não significa
estimular uma religião específica, mas reconhecer aquilo que traz paz,
esperança e significado para sua vida.
Segundo a Dra. Anelise Fonseca,
pequenas atitudes no dia a dia podem fazer diferença. “O cuidado espiritual
começa com a escuta. Perguntar o que conforta aquela pessoa, respeitar suas crenças,
facilitar o acesso às práticas que lhe fazem bem e criar momentos de
acolhimento são atitudes simples que fortalecem vínculos familiares, diminuem o
sofrimento emocional e contribuem para uma velhice mais saudável e digna.”
Outras ações que familiares e
cuidadores podem adotar são: reservar momentos para conversar sobre lembranças,
valores e o que dá sentido à vida do idoso; respeitar suas crenças e escolhas,
sem julgamentos ou tentativas de convencimento; facilitar a participação em
celebrações religiosas ou espirituais, quando esse for o desejo da pessoa;
incentivar o convívio com familiares, amigos e grupos comunitários,
fortalecendo o sentimento de pertencimento; e, por fim, incluir perguntas sobre
bem-estar emocional e espiritual na rotina de cuidados, dando à saúde mental a
mesma importância dedicada aos cuidados físicos.
"Envelhecer com qualidade não
significa apenas viver mais, mas viver melhor. Quando acolhemos a
espiritualidade como parte do cuidado, passamos a ter um olhar mais humano,
fortalecendo aspectos importantes na vida da pessoa idosa como a saúde mental,
vínculos familiares e a dignidade em todas as fases do envelhecimento, conclui
a Dra. Anelise Fonseca.
Dra. Anelise Fonseca - Geriatra, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia Regional Rio de Janeiro de julho 2022 até 2025. Atual coordenadora do Grupo de Interesse de Espiritualidade da pessoa idosa pela SBGG Nacional e do Grupo de Estudos sobre Espiritualidade da cidade do Rio de Janeiro (GES_RJ). Autora dos livros: “Ciências da Saúde & Espiritualidade: Um Diálogo essencial para o cuidado” e “E aí Doutora. É demência? As Principais Dúvidas dos familiares sobre a jornada da perda de memória”.

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