Com o Brasil entre
os maiores mercados de estética do mundo e o crescimento dos procedimentos
minimamente invasivos, biomédicos observam uma mudança no perfil das pacientes:
em vez de transformações radicais, cresce a procura por tratamentos que
devolvam viço, qualidade da pele e aparência descansada.
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Durante muitos anos, a procura por procedimentos
estéticos esteve associada à ideia de transformação. Lábios mais volumosos,
contornos faciais marcados e mudanças evidentes dominaram consultórios, redes
sociais e campanhas publicitárias. Agora, uma nova tendência começa a ganhar
espaço: mulheres querem continuar parecendo elas mesmas — apenas com uma
aparência mais saudável e descansada.
Essa mudança acompanha a evolução do próprio
mercado. O levantamento mais recente da International Society of Aesthetic Plastic Surgery
(ISAPS) mostra que, somente em 2024, foram realizados 37,9
milhões de procedimentos estéticos no mundo, entre cirúrgicos e
não cirúrgicos. O Brasil manteve sua posição entre os maiores mercados globais,
com aproximadamente 3,1 milhões de procedimentos,
liderando o ranking mundial em cirurgias estéticas, com cerca de 2,3 milhões
de intervenções.
Os procedimentos não cirúrgicos continuam puxando
esse crescimento. Apenas a aplicação de toxina botulínica somou 7,8 milhões
de procedimentos em 2024 em todo o mundo, enquanto os
preenchimentos com ácido hialurônico ultrapassaram 6,3 milhões,
reforçando a preferência por tratamentos de recuperação rápida e resultados
mais sutis.
Além do aumento da procura, muda também o motivo
pelo qual as pacientes chegam ao consultório.
"Há alguns anos, muitas pessoas levavam a foto
de uma celebridade ou de um filtro das redes sociais como referência. Hoje, o
pedido mais frequente é outro: 'Quero continuar com a minha cara, só quero
parecer menos cansada'", afirma a biomédica especialista em Harmonização
Orofacial Ana Martin.
Segundo ela, o consultório passou a refletir um
comportamento social mais amplo.
"A mulher continua preocupada com a aparência,
mas percebeu que juventude não significa excesso de preenchimento. O que ela
procura hoje é uma pele com mais qualidade, um rosto mais iluminado e uma
aparência saudável."
Essa percepção encontra respaldo na literatura científica.
Pesquisas publicadas na revista Clinical,
Cosmetic and Investigational Dermatology demonstram que níveis
elevados de cortisol — hormônio liberado em situações de estresse — estão
associados à redução da produção de colágeno, aumento de processos
inflamatórios e perda da elasticidade da pele, acelerando sinais de fadiga
facial e envelhecimento precoce.
Outro estudo realizado pelo University
Hospitals Case Medical Center, nos Estados Unidos, mostrou que
pessoas com má qualidade de sono apresentam recuperação da barreira cutânea
mais lenta, maior perda de hidratação da pele e envelhecimento visível mais
acentuado quando comparadas àquelas que dormem adequadamente.
Na prática, isso significa que a rotina da mulher
moderna — marcada por excesso de trabalho, maternidade, poucas horas de
descanso, alimentação irregular e altos níveis de estresse — acaba deixando
marcas que vão muito além das rugas.
Dados do IBGE mostram que as mulheres
brasileiras ainda dedicam quase o dobro do tempo dos homens aos afazeres
domésticos e ao cuidado de outras pessoas, acumulando jornadas que impactam
diretamente o bem-estar físico e emocional.
Segundo Ana Carolina Martin, esse contexto explica
por que a harmonização orofacial também está passando por uma transformação.
"Hoje falamos muito mais sobre regeneração do
que sobre transformação. A paciente quer melhorar a qualidade da pele,
estimular colágeno, recuperar viço e manter sua identidade. Não existe mais
espaço para um padrão único de beleza."
Essa mudança também movimenta o mercado. Um estudo
da Grand View Research estima que o segmento global de
tratamentos estéticos não invasivos movimentou US$ 36 bilhões em 2025
e deve alcançar US$ 64,1 bilhões até 2033, com
crescimento médio anual de 7,5%. Os tratamentos injetáveis representam
79% desse mercado, impulsionados justamente pela procura
por procedimentos de baixo risco e recuperação rápida.
Para a biomédica, esse crescimento exige uma
atuação cada vez mais responsável.
"A harmonização orofacial deixou de ser apenas
um conjunto de técnicas. Hoje ela exige planejamento facial, conhecimento
anatômico e um olhar individualizado. Um resultado bonito não é aquele que
chama atenção. É aquele que faz a paciente parecer saudável, sem perder sua
identidade."
Ela observa que procedimentos como bioestimuladores
de colágeno, skinboosters e protocolos de regeneração ganharam protagonismo
justamente por atuarem na qualidade da pele e no envelhecimento saudável, sem
alterar os traços naturais.
"O melhor elogio que uma paciente pode receber
não é 'como você mudou'. É ouvir que está com uma aparência leve, descansada e
bem. Quando isso acontece, sabemos que respeitamos aquilo que ela tem de mais
importante: quem ela é."
Para Ana Martin, a nova fase da estética não é
marcada pela busca da perfeição, mas pelo equilíbrio.
"Naturalidade não significa fazer menos.
Significa fazer melhor, com critério, ciência e respeito à individualidade de
cada paciente."
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