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sábado, 18 de julho de 2026

O paradoxo do desapego: aprendemos a nos despir, mas esquecemos como ser vulneráveis

Unindo neurociência e psicanálise, psicóloga explica como a busca pelo prazer imediato virou uma blindagem contra a vulnerabilidade

 

Hoje, ao contrário do que muitos pensam, a verdadeira intimidade não vem do sexo ou do estar pelados juntos. Isso se tornou uma certa rotina e até algo banal. O sexo que, um dia, foi expressão de vínculo e mistério, tornou-se também uma forma de validação. A promessa de liberdade sexual, que parecia libertar o corpo, acabou criando uma forma de coerção: é preciso estar sempre disponível, desejante e performático. O corpo passou a ser uma vitrine; o prazer tornou-se um produto passível de ser consumido, medido em intensidade e novidade; e, muitas vezes, o outro é apenas um meio para que possamos satisfazer nossos próprios desejos.  

No cenário do amor moderno, o contato físico se tornou muito fácil justamente porque permite proximidade sem exigir vulnerabilidade, mas o encontro emocional tem sido cada vez mais raro. O imperativo contemporâneo é desfrutar e não se relacionar, e apesar de o sexo casual poder ser uma experiência legítima de prazer, liberdade e descoberta, a neurociência nos mostra que o sexo não mobiliza apenas o circuito imediato do prazer.  

Durante o desejo, a excitação e o orgasmo, diferentes sistemas relacionados à motivação, à recompensa, à analgesia, à memória e à conexão social entram em funcionamento. A dopamina nos conduz em direção à experiência e à conquista, os opioides endógenos participam da intensidade do prazer e do relaxamento, a ocitocina e a vasopressina aumentam a confiança, reduzem o medo, criam a sensação do estabelecimento de vínculo. Isso não significa que todo sexo produza amor ou que um orgasmo seja capaz de criar um vínculo sozinho, mas nos dá pistas de que o corpo não obedece perfeitamente aos contratos de desapego que fazemos com nós mesmos e com o outro.  

O sexo casual não é necessariamente emocionalmente casual. Recorremos a ele como uma maneira de experimentar proximidade sem assumir os riscos da intimidade, mas fazemos isso usando uma experiência que mobiliza alguns dos sistemas mais profundos de prazer, memória e conexão humana.  

O desapego atual, portanto, não necessariamente representa a ausência de desejo, mas uma defesa contra as consequências do desejo. E as consequências aqui são: aceitar que o outro nos afeta mais do que gostaríamos, que não temos tanto controle sobre nossas emoções e pensamentos, que precisaremos entrar em contato com nossa própria vulnerabilidade, medos, inseguranças e anseios. 

Tememos nos revelar por inteiro, mostrar essa outra parte vulnerável, pois isso seria perder o outro ou o controle imaginário que temos sobre nós mesmos e nosso Ideal de Eu, como afirmou Winnicott: “é uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado”. E parece que vivemos nesta dinâmica: por um lado, esconder-se por trás da performance sexual traz autonomia e liberdade, e, por outro lado, não ser achado é um desastre, na medida em que estamos cada vez mais solitários e desconectados afetivamente.  



Danielle Vieira - psicóloga e psicanalista, pesquisadora dos afetos e das relações contemporâneas, mestre pela UMinho (PT), fundadora do IIPB e autora do livro “Amor moderno: o nosso mundo evitativo” (Editora Labrador).


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