Unindo neurociência e psicanálise, psicóloga explica como a busca pelo prazer imediato virou uma blindagem contra a vulnerabilidade
Hoje, ao contrário do que muitos pensam, a
verdadeira intimidade não vem do sexo ou do estar pelados juntos. Isso se
tornou uma certa rotina e até algo banal. O sexo que, um dia, foi expressão de
vínculo e mistério, tornou-se também uma forma de validação. A promessa de
liberdade sexual, que parecia libertar o corpo, acabou criando uma forma de
coerção: é preciso estar sempre disponível, desejante e performático. O corpo
passou a ser uma vitrine; o prazer tornou-se um produto passível de ser
consumido, medido em intensidade e novidade; e, muitas vezes, o outro é apenas
um meio para que possamos satisfazer nossos próprios desejos.
No cenário do amor moderno, o contato físico se
tornou muito fácil justamente porque permite proximidade sem exigir
vulnerabilidade, mas o encontro emocional tem sido cada vez mais raro. O
imperativo contemporâneo é desfrutar e não se relacionar, e apesar de o sexo
casual poder ser uma experiência legítima de prazer, liberdade e descoberta, a
neurociência nos mostra que o sexo não mobiliza apenas o circuito imediato do
prazer.
Durante o desejo, a excitação e o orgasmo,
diferentes sistemas relacionados à motivação, à recompensa, à analgesia, à
memória e à conexão social entram em funcionamento. A dopamina nos conduz em
direção à experiência e à conquista, os opioides endógenos participam da
intensidade do prazer e do relaxamento, a ocitocina e a vasopressina aumentam a
confiança, reduzem o medo, criam a sensação do estabelecimento de vínculo. Isso
não significa que todo sexo produza amor ou que um orgasmo seja capaz de criar
um vínculo sozinho, mas nos dá pistas de que o corpo não obedece perfeitamente
aos contratos de desapego que fazemos com nós mesmos e com o outro.
O sexo casual não é necessariamente emocionalmente
casual. Recorremos a ele como uma maneira de experimentar proximidade sem
assumir os riscos da intimidade, mas fazemos isso usando uma experiência que
mobiliza alguns dos sistemas mais profundos de prazer, memória e conexão
humana.
O desapego atual, portanto, não necessariamente
representa a ausência de desejo, mas uma defesa contra as consequências do
desejo. E as consequências aqui são: aceitar que o outro nos afeta mais do que
gostaríamos, que não temos tanto controle sobre nossas emoções e pensamentos,
que precisaremos entrar em contato com nossa própria vulnerabilidade, medos,
inseguranças e anseios.
Tememos nos revelar por inteiro, mostrar essa outra
parte vulnerável, pois isso seria perder o outro ou o controle imaginário que
temos sobre nós mesmos e nosso Ideal de Eu, como afirmou Winnicott: “é uma
alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado”. E parece que
vivemos nesta dinâmica: por um lado, esconder-se por trás da performance sexual
traz autonomia e liberdade, e, por outro lado, não ser achado é um desastre, na
medida em que estamos cada vez mais solitários e desconectados
afetivamente.
Danielle Vieira - psicóloga e psicanalista, pesquisadora dos afetos e das relações contemporâneas, mestre pela UMinho (PT), fundadora do IIPB e autora do livro “Amor moderno: o nosso mundo evitativo” (Editora Labrador).

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