Psicóloga Lívia Barreto, da Mental One, analisa os fatores por trás do aumento global dos transtornos mentais e aponta mudanças no estilo de vida contemporâneo como um dos principais gatilhos do cenário atual
Em 1990, cerca de 599 milhões de pessoas
conviviam com transtornos mentais no mundo. Hoje, esse número ultrapassa 1,1
bilhão, um aumento de aproximadamente 96%, segundo estimativas globais.
Por trás desses números, segundo a psicóloga
Lívia Barreto, da Mental One, existe um conjunto de fatores que ajuda a explicar
o crescimento expressivo dos casos nas últimas três décadas — e que vai além de
uma única causa.
Para a especialista, um dos primeiros pontos a
considerar é o avanço no diagnóstico e na própria compreensão da saúde mental
ao longo dos anos.
“Hoje nós temos muito mais ferramentas para
identificar transtornos mentais do que há 30 anos. Aprendemos a diagnosticar
melhor, a reconhecer sinais e a falar mais abertamente sobre isso. Ao mesmo
tempo, ainda existem muitos erros de diagnóstico, o que mostra que estamos em
um processo de evolução constante”, explica.
Mas, segundo Lívia, o aumento dos diagnósticos
não explica sozinho o crescimento dos números. Mudanças profundas no estilo de
vida contemporâneo também exercem um papel importante nesse cenário.
“Vivemos em um ritmo muito mais acelerado, com
múltiplas demandas ao mesmo tempo. As pessoas estão constantemente conectadas,
mas nem sempre presentes. Você está em um lugar fisicamente, mas com a mente em
outro, respondendo mensagens, pensando em tarefas ou consumindo informações o
tempo todo”, afirma.
Esse estado de atenção fragmentada, segundo a
psicóloga, impacta diretamente a qualidade das relações e das experiências
cotidianas.
“Quando estamos sempre em múltiplas conexões
ao mesmo tempo, as interações tendem a se tornar mais rápidas e mais
superficiais. Isso reduz a profundidade dos vínculos e pode gerar uma sensação
de vazio ou desconexão, mesmo quando a pessoa está cercada de gente”, diz.
Lívia observa ainda que, em paralelo a esse
cenário, cresce um movimento de busca por experiências mais analógicas,
presenciais e manuais como forma de compensação.
“Existe um movimento muito claro de retorno ao
manual, ao offline, ao presencial. Atividades como cerâmica, hobbies
artesanais, esportes sem tecnologia ou até o interesse por colecionáveis e
figurinhas mostram essa necessidade de presença. São formas de reconexão com
algo mais concreto e menos acelerado”, explica.
Segundo a psicóloga, essa busca pode ser
interpretada como um sinal importante das demandas emocionais da sociedade
atual.
“Quando as pessoas buscam experiências mais
simples e presenciais, isso também revela o quanto estamos carentes de vínculo,
de pausa e de profundidade nas relações. Essa ausência de conexão mais real
pode, ao longo do tempo, contribuir para o surgimento ou agravamento de
sintomas relacionados à saúde mental”, afirma.
Para Lívia Barreto, o crescimento dos
transtornos mentais não pode ser visto de forma isolada, mas como resultado de
um conjunto de transformações sociais, tecnológicas e comportamentais que
moldam a forma como vivemos hoje.
“A saúde mental está diretamente ligada ao
modo como organizamos a vida. Não se trata apenas de aumentar diagnósticos, mas
de entender como o estilo de vida contemporâneo influencia o nosso bem-estar emocional”,
conclui.
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