Molnupiravir,
manipulado pela DrogaVET, amplia o acesso terapêutico a uma das doenças mais
letais da medicina felina 
O molnupiravir, antiviral para o tratamento da peritonite
infecciosa felina (PIF), pode ser manipulado de acordo com o
peso do animal e em formas farmacêuticas flavorizadas
Foto: Gustavo Araújo
Uma das doenças mais devastadoras da clínica de
felinos acaba de ganhar uma nova perspectiva no Brasil. O molnupiravir,
antiviral internacionalmente estudado para o tratamento da peritonite
infecciosa felina (PIF), já pode ser manipulado no país, ampliando o acesso a
uma terapia com taxas de resposta entre 80% e 90% em estudos clínicos
publicados, principalmente em casos não neurológicos. O percentual é semelhante
ao observado com o uso do GS-441524, medicamento importado que, até então, era
a principal referência terapêutica, mas cujo acesso é mais difícil, oneroso e
burocrático.
“A PIF sempre foi uma das doenças mais temidas da
medicina felina e tínhamos poucas alternativas terapêuticas realmente eficazes.
Hoje, falar em uma taxa de remissão tão alta muda completamente o cenário para
médicos-veterinários e responsáveis”, afirma a médica-veterinária e consultora
técnica da DrogaVET, Farah de Andrade.
Um estudo clínico publicado no Journal of
Veterinary Internal Medicine* (2023) mostrou que 14 de 18 gatos tratados
com molnupiravir alcançaram remissão estável, com melhora da febre e do apetite
já nos primeiros dias de terapia. Embora se trate de um estudo com número
limitado de casos, o dado representa um marco para a medicina veterinária:
“Quando observamos a recuperação de parâmetros clínicos nas primeiras semanas,
é sinal de que estamos diante de uma ferramenta terapêutica consistente”.
O que é a PIF e por que ela é
tão grave
A peritonite infecciosa felina é causada por uma
mutação interna do coronavírus felino entérico (FCoV), vírus relativamente
comum em ambientes com múltiplos gatos, como gatis e abrigos. A transmissão
ocorre principalmente pela via fecal-oral, por meio do contato com fezes
contaminadas, caixas de areia compartilhadas ou superfícies com alta carga
viral.
A maioria dos gatos infectados pelo coronavírus
entérico desenvolve quadros leves ou até assintomáticos. No entanto, em uma
parcela estimada entre 5% e 12% dos casos, ocorre uma mutação viral que permite
a replicação dentro de macrófagos, desencadeando uma resposta inflamatória
sistêmica intensa, momento em que surge a PIF.
A doença possui duas apresentações clássicas: a
forma efusiva (ou “úmida”) e a forma não efusiva (ou “seca”). A versão efusiva
é marcada pelo acúmulo de líquido na cavidade abdominal ou torácica, provocando
distensão abdominal, dificuldade respiratória e prostração. Já a forma seca
pode acometer diversos órgãos, como fígado, rins, olhos e sistema nervoso
central, resultando em sinais clínicos variados, como alterações neurológicas,
uveíte, perda de peso progressiva e febre persistente que não responde à
antibioticoterapia.
Gatos jovens, especialmente com menos de três anos,
idosos, imunossuprimidos, positivos para FIV/FeLV e de raças como Abissínio,
Bengal, Birmanês, Himalaio, Ragdoll e Rex tendem a apresentar maior predisposição.
O diagnóstico da PIF ainda é considerado
desafiador, pois não existe um exame único e definitivo para todos os casos. A
confirmação envolve a associação entre histórico clínico, exames laboratoriais,
exames de imagem e, quando presente, análise do líquido cavitário. A detecção
de RNA viral por RT-PCR em efusões ou tecidos associada à imunocitoquímica
aumenta a especificidade diagnóstica.
“A suspeita clínica bem fundamentada é determinante
para o início precoce do tratamento. Quanto antes iniciamos a terapia
antiviral, maiores são as chances de uma resposta favorável”, explica a
veterinária.
Molnupiravir personalizado:
adesão como fator determinante
O molnupiravir é um pró-fármaco de uso controlado
que induz erros no material genético do vírus, dificultando sua multiplicação e
reduzindo a carga viral no organismo do gato. Ao bloquear a replicação, permite
que o sistema imunológico recupere o controle da infecção e interrompa a
progressão inflamatória sistêmica.
O protocolo terapêutico deve ser definido exclusivamente
pelo médico-veterinário, considerando peso, forma clínica da doença e resposta
individual do paciente, e requer acompanhamento clínico e laboratorial
rigorosos. O tratamento é prolongado, geralmente tem duração de aproximadamente
84 dias, podendo variar conforme resposta clínica e envolvimento
neurológico/ocular. Embora normalmente bem tolerado, o uso do molnupiravir
requer monitoramento periódico devido a relatos de alterações hematológicas reversíveis.
Um dos grandes diferenciais da chegada do
molnupiravir ao Brasil é a possibilidade de manipulação veterinária. Na
DrogaVET, o medicamento pode ser preparado em diferentes formas farmacêuticas,
como biscoitos, pasta oral e suspensão oleosa em dosagens personalizadas e
flavorizadas, que facilitam a administração, fator determinante, considerando
que felinos são notoriamente sensíveis ao manejo medicamentoso. “A
personalização da dose ao peso exato do gato e a possibilidade de escolher a
forma farmacêutica mais bem aceita fazem diferença concreta no sucesso de um
tratamento de quase três meses que exige constância”, destaca Farah.
Além da PIF, o molnupiravir também vem sendo
estudado para a gengivoestomatite crônica felina (GECF) associada ao calicivírus
felino (FCV), com resultados preliminares promissores em estudos piloto.
Um novo capítulo na medicina
felina
A chegada do molnupiravir manipulado ao Brasil não
elimina a gravidade da PIF, mas altera profundamente sua perspectiva
terapêutica. “Não se trata apenas de um novo medicamento, mas de uma nova possibilidade
para gatos diagnosticados com uma doença de alta letalidade. Para os
responsáveis, isso significa esperança real. Para os veterinários, significa
autonomia e segurança terapêutica”, conclui Farah.
DrogaVET
www.drogavet.com.br
Referências:
* SASE, O. Molnupiravir treatment of 18 cats with feline infectious peritonitis: a case series. Journal of Veterinary Internal Medicine, [S.L.], v. 37, n. 5, p. 1876-1880, 8 ago. 2023
Nenhum comentário:
Postar um comentário