Há um desconforto persistente quando uma mulher escreve sobre desejo. Ele nasce do deslocamento de papéis estabelecidos historicamente, pois, durante séculos, o desejo feminino foi narrado, interpretado e delimitado por vozes masculinas.
O primeiro ponto de tensão é o direito à
subjetividade. A sociedade aceita posicionar, com relativa facilidade, a mulher
como objeto do desejo, mas ainda reage quando ela se coloca como sujeito
desejante. Existe uma expectativa implícita de que a sexualidade feminina seja
silenciosa, privada e, preferencialmente, mediada pelo olhar masculino. Ocorre
que, ao escrever sobre o próprio prazer, a mulher rompe essa mediação,
determinando autoridade própria para sentir e para narrar o que sente.
Esse movimento costuma gerar dois tipos de reação
reveladores. De um lado, surge o julgamento moral, frequentemente vindo de
outras mulheres socializadas dentro da mesma lógica de contenção, onde a
escrita erótica feminina é confundida com exposição, vulgaridade ou busca por
atenção. Resulta num texto que deixa de ser lido como obra e passa a ser
interpretado como confissão, ou seja, a autora deixa de ser autora e passa a
ser personagem.
Do outro lado, aparece a erotização imediata da
própria escritora. Parte dos homens interpreta a escrita sobre desejo como um
convite pessoal. Nesse contexto, o texto deixa de ser literatura e passa a ser
lido como sinalização de acesso. Esse fenômeno revela uma dificuldade
estrutural onde ainda se confunde a expressão com o expressado.
Há também uma dimensão profissional nesse incômodo.
Mulheres que escrevem sobre desejo relatam tentativas de assédio travestidas de
oportunidades. A abertura de portas por curadores de eventos pode vir
acompanhada de insinuações e expectativas implícitas. A lógica dos antigos
“testes de sofá” apenas mudou de cenário e vocabulário. O campo cultural, que
deveria ser espaço de liberdade, também reproduz hierarquias antigas.
A escrita sensual e erótica é uma ameaça ao
controle narrativo do corpo feminino, pois, quando uma mulher descreve o que é
o prazer, ela estabelece uma nova estética do desejo. Isso desafia os padrões
históricos que limitaram a sexualidade feminina à função reprodutiva,
romântica ou moral. Quando o prazer feminino deixa de ser implícito e passa a
ser nomeado, ele se torna politicamente perturbador.
Escrever sobre desejo, portanto, é também um gesto
de autonomia. O incômodo persiste porque a autonomia feminina ainda é negociada
socialmente. Cada poema, conto ou ensaio que afirma o direito de sentir e de
narrar amplia um território que por muito tempo foi interditado.
Mulheres desejam, pensam, fantasiam, escolhem e
nomeiam. E, quando essa realidade passa a ser escrita, publicada e lida, ela
deixa de ser pensamento e passa a ser voz. O que ainda incomoda é a percepção
de que o incômodo diz menos sobre a mulher que escreve e mais sobre a sociedade
que ainda não aprendeu a lê-la.
Cilene Resende - advogada, empresária e escritora, autora de O mar é uma pista de dança.

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