Pesquisar no Blog

sábado, 7 de março de 2026

“Os primeiros anos de vida não se repetem”, afirma educadora sobre a importância da Educação Infantil

Especialista destaca o papel da escola nos primeiros anos de vida e explica por que essa etapa é decisiva para o futuro do aluno



Durante muito tempo, a Educação Infantil foi associada apenas ao cuidado ou a práticas de brincar sem intencionalidade pedagógica. No entanto, avanços da neurociência e das ciências da educação mostram que os primeiros anos de vida são determinantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança. É nesse período que o cérebro apresenta maior plasticidade e que experiências bem estruturadas constroem as bases para a aprendizagem ao longo de toda a vida.

Na entrevista a seguir, a coordenadora pedagógica da Escola Internacional de Alphaville, Jacqueline Cappellano aborda os principais questionamentos das famílias sobre a escolarização na primeira infância — desde a idade ideal para iniciar a vida escolar até o papel do brincar, da alfabetização e do ensino bilíngue.

Ao longo da conversa, ela explica como a escola atua como parceira da família, por que a intencionalidade pedagógica faz diferença desde os primeiros anos e de que forma uma formação consistente impacta a trajetória acadêmica e o futuro do aluno.


1. Por que é importante que a criança frequente a escola desde a primeiríssima infância?

Porque esse é o período de maior plasticidade cerebral. Nos primeiros anos de vida, o cérebro está especialmente preparado para formar conexões neurais a partir das experiências vividas. A escola, nesse contexto, não é apenas um espaço de cuidado, mas também um ambiente de estímulos cuidadosamente organizados.

Atividades que desenvolvem a linguagem, a coordenação motora, a autonomia e a socialização têm impacto direto no desenvolvimento integral da criança. Quanto mais cedo esse processo começa, sempre respeitando o tempo e a segurança da família, mais sólidas tendem a ser essas bases.


2. Existe uma “idade ideal” para matricular a criança na escola?

Do ponto de vista legal, a obrigatoriedade começa aos quatro anos, mas, do ponto de vista do desenvolvimento infantil, a resposta é mais ampla. A idade ideal é aquela em que a família se sente segura para iniciar essa transição.

Na prática da vivência em sala de aula, observamos que crianças que ingressam na escola ainda na primeiríssima infância – que compreende até os três anos de idade - desenvolvem autonomia, linguagem e consciência fonológica de forma mais consistente. Essas habilidades são fundamentais para etapas posteriores, como a alfabetização.

O aprendizado começa muito antes da leitura e da escrita formais, por meio de jogos de linguagem, músicas, rimas e interações significativas. Para uma criança que passou quatro anos em um ambiente familiar exclusivo, a transição para um ambiente com regras coletivas e horários rígidos pode ser um choque maior. Ela precisa trocar a atenção individualizada que tinha em casa com os pais, pela independência exigida em salas de aula com muitos alunos.


3. Alguns pais ainda demonstram receio em matricular filhos muito pequenos na escola. Quais são os principais medos das famílias nessa fase?

Esse receio é bastante comum e, em muitos casos, está relacionado ao medo da separação ou à ideia de que a escola seja um ambiente excessivamente rígido para crianças tão pequenas. Na Educação Infantil, porém, o acolhimento é o ponto de partida.

A escola não substitui a família, mas atua como uma extensão desse cuidado, funcionando como um espaço de apoio emocional e desenvolvimento gradual da autonomia. Quando há confiança e diálogo entre família e escola, a criança se sente segura, e a adaptação ocorre de forma natural, respeitando o ritmo e as necessidades de cada fase.

Algumas famílias temem que as crianças não serão tão bem cuidadas na escola como são em casa e isto pode gerar insegurança. Entretanto, este receio pode ser facilmente solucionado com uma conversa transparente entre a família e a coordenação pedagógica. É importante que a família acolha os sentimentos das famílias e as tranquilize com relação aos cuidados da escola.


4. Muitos pais acreditam que, antes dos 4 anos, a escola é “só para brincar”. O que a neurociência diz sobre isso?

Essa é uma visão bastante comum, mas que precisa ser ampliada. Na primeira infância, brincar é a principal forma de aprendizagem, desde que esse brincar tenha intencionalidade pedagógica.

Na escola, cada brincadeira é planejada com objetivos claros: desenvolver habilidades motoras, estimular a comunicação, fortalecer a autonomia e promover a interação social. A neurociência mostra que experiências bem estruturadas nessa fase têm impacto profundo e duradouro no desenvolvimento cerebral. Cada mês conta nessa construção de conhecimento, e as oportunidades de aprendizagem desse período não se repetem da mesma forma mais tarde.

O brincar no ambiente escolar favorece, de forma singular, o desenvolvimento cognitivo. Ao participar de uma brincadeira com blocos de montar ou de jogos de tabuleiro, por exemplo, a criança exercita o raciocínio lógico, a resolução de problemas, a tomada de decisões e muitos outros aspectos da aprendizagem. Exercitam ainda importantes habilidades socioemocionais ao participar de brincadeiras em grupo que ensinam a negociar, respeitar regras e lidar com frustrações, além de estimular a autonomia e a autorregulação.

Ao brincar no ambiente escolar com brincadeiras pensadas pelos educadores, trabalham-se as habilidades psicomotoras essenciais para o crescimento saudável, tais como correr, pular e manipular objetos pequenos, que refinam a coordenação motora grossa e fina, fundamentais para a futura escrita.


5. Qual é a diferença entre o que a criança aprende em casa e o que aprende na escola? Esses conhecimentos se complementam?

Sem dúvida, eles se complementam. A educação da criança acontece em duas esferas igualmente importantes, mas com funções diferentes. No ambiente familiar, a criança constrói suas primeiras referências emocionais e morais. É ali que aprende valores como respeito, empatia, responsabilidade e convivência, principalmente pelo exemplo dos adultos.

Já a escola amplia esse repertório ao inserir a criança em um ambiente coletivo, planejado e intencional. Na Educação Infantil, cada proposta pedagógica é pensada para estimular o desenvolvimento global, considerando os aspectos cognitivo, emocional, social e motor. A escola oferece vivências que o ambiente doméstico, por mais rico que seja, não consegue reproduzir com a mesma intencionalidade, como a mediação de conflitos, o trabalho em grupo e a construção do senso de pertencimento.


6. A alfabetização é um marco importante. Quais práticas são mais adequadas para essa fase?

Diferente de andar ou falar, a leitura e a escrita não são aquisições naturais, tratam-se de invenções culturais e exigem instrução explícita. Por isso, a alfabetização precisa ser construída de forma planejada e gradual. Antes da alfabetização formal, é essencial investir nas chamadas habilidades preditoras: oralidade, ampliação de vocabulário, leitura em voz alta e consciência fonológica.

Trabalhar rimas, sons e a relação entre letras e fonemas prepara o cérebro para a decodificação, que nada mais é que a capacidade de traduzir os sinais gráficos (letras e grafemas) em sons da fala (fonemas). É o processo de "decifrar o código" da escrita. Quando essa decodificação se torna automática, a criança consegue focar no que realmente importa: a compreensão do texto.

O modelo da “Corda da Leitura”, desenvolvida pela psicóloga Hollis Scarborough, explica que a leitura fluente é resultado do entrelaçamento de dois grandes eixos: o reconhecimento automático das palavras e a compreensão da linguagem. Na prática, isso significa que não basta ensinar a criança a “juntar letras”. É preciso desenvolver, de forma sistemática, tanto as habilidades de decodificação quanto o repertório linguístico e de compreensão. Quando esses fios se entrelaçam, a leitura acontece com fluidez e sentido; e é isso que buscamos desde a Educação Infantil.


7. O ensino bilíngue tem crescido no Brasil, mas ainda gera dúvidas. Aprender uma segunda língua muito cedo pode confundir a criança?

Esse é um mito bastante comum, que precisa ser desconstruído. A ciência já demonstrou que a infância é a melhor fase para a aprendizagem de múltiplos idiomas. O cérebro infantil tem uma capacidade extraordinária de absorver sons, estruturas gramaticais e diferentes códigos linguísticos.

O bilinguismo, longe de causar confusão, fortalece funções cognitivas como atenção, memória, flexibilidade mental e raciocínio lógico. Além disso, amplia a consciência fonológica, o que beneficia inclusive o desenvolvimento da língua materna.

Nas escolas bilíngues, o segundo idioma, geralmente o inglês, não é tratado como uma disciplina isolada, mas como parte do cotidiano da criança. O idioma é vivenciado de forma orgânica, em atividades lúdicas, interações naturais e contextos significativos.

Essa exposição precoce torna o aprendizado mais natural e eficaz. A criança aprende o idioma da mesma forma que aprende o português: pela vivência. Além do aspecto linguístico, o bilinguismo também amplia a visão de mundo, promove empatia cultural e prepara o aluno para um contexto global.

No período que abrange a primeira infância, as crianças estão no que chamamos “janela de oportunidade”. Nesta fase conseguem distinguir fonemas de qualquer língua, uma habilidade que começa a diminuir após os sete anos. De acordo com Patrícia Kuhl, codiretora do Institute for Learning & Brain Sciences da Universidade de Washington, essa "janela crítica" permite que a criança aprenda a pronúncia da segunda língua com maior precisão na articulação dos fonemas e maior fluência na comunicação.


8. Como o acesso à escola desde cedo impacta a trajetória acadêmica e futura do aluno?

O impacto é profundo e estrutural. Crianças que frequentam uma escola com currículo consistente desde a primeira infância desenvolvem competências essenciais para o futuro, como pensamento crítico, autonomia, resiliência e inteligência emocional.

Em um contexto bilíngue e com currículo internacional, essas habilidades se somam à capacidade de transitar entre culturas e idiomas. Esse aluno chega às etapas finais da educação básica e à vida adulta não apenas com conhecimento, mas também com a habilidade de aprender continuamente e de se posicionar como cidadão global.


9. Para finalizar, por que a parceria entre família e escola é tão decisiva na Educação Infantil?

Porque é essa parceria que sustenta todo o processo educativo. A família constrói a base de valores e a escola amplia esses aprendizados por meio da convivência, do conhecimento e das experiências coletivas.

Quando há transparência e confiança, a criança se desenvolve de forma integral. Educar é um trabalho conjunto e é assim que conseguimos potencializar o desenvolvimento de cada aluno desde os primeiros anos.

É essencial haver alinhamento entre os valores da escola e da família. Ao estabelecerem uma sólida parceria com a escola, os pais reduzem a própria ansiedade e aumentam a autoconfiança de seus filhos.

 


Jacqueline Cappellano - pedagoga, pós-graduada em Bilinguismo e Psicopedagogia coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville. É uma grande entusiasta da Educação Bilíngue e fascinada pelo universo da educação infantil. Enxerga no intercâmbio entre ideias e culturas, um caminho para a paz entre os povos.

International Schools Partnership (ISP)
Para mais informações, acesse o site.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados