Especialista destaca o papel da escola nos primeiros anos de vida e explica por que essa etapa é decisiva para o futuro do aluno
Durante muito tempo, a Educação Infantil foi associada apenas ao cuidado ou a
práticas de brincar sem intencionalidade pedagógica. No entanto, avanços da
neurociência e das ciências da educação mostram que os primeiros anos de vida
são determinantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social da
criança. É nesse período que o cérebro apresenta maior plasticidade e que
experiências bem estruturadas constroem as bases para a aprendizagem ao longo
de toda a vida.
Na
entrevista a seguir, a coordenadora pedagógica da Escola Internacional de Alphaville, Jacqueline Cappellano aborda os principais
questionamentos das famílias sobre a escolarização na primeira infância — desde
a idade ideal para iniciar a vida escolar até o papel do brincar, da
alfabetização e do ensino bilíngue.
Ao
longo da conversa, ela explica como a escola atua como parceira da família, por
que a intencionalidade pedagógica faz diferença desde os primeiros anos e de
que forma uma formação consistente impacta a trajetória acadêmica e o futuro do
aluno.
1. Por que é importante que a criança frequente a escola desde a
primeiríssima infância?
Porque
esse é o período de maior plasticidade cerebral. Nos primeiros anos de vida, o
cérebro está especialmente preparado para formar conexões neurais a partir das
experiências vividas. A escola, nesse contexto, não é apenas um espaço de
cuidado, mas também um ambiente de estímulos cuidadosamente organizados.
Atividades
que desenvolvem a linguagem, a coordenação motora, a autonomia e a socialização
têm impacto direto no desenvolvimento integral da criança. Quanto mais cedo
esse processo começa, sempre respeitando o tempo e a segurança da família, mais
sólidas tendem a ser essas bases.
2. Existe uma “idade ideal” para matricular a criança na escola?
Do
ponto de vista legal, a obrigatoriedade começa aos quatro anos, mas, do ponto
de vista do desenvolvimento infantil, a resposta é mais ampla. A idade ideal é
aquela em que a família se sente segura para iniciar essa transição.
Na
prática da vivência em sala de aula, observamos que crianças que ingressam na
escola ainda na primeiríssima infância – que compreende até os três anos de
idade - desenvolvem autonomia, linguagem e consciência fonológica de forma mais
consistente. Essas habilidades são fundamentais para etapas posteriores, como a
alfabetização.
O aprendizado começa muito antes da leitura e da escrita formais, por meio de
jogos de linguagem, músicas, rimas e interações significativas. Para uma
criança que passou quatro anos em um ambiente familiar exclusivo, a transição
para um ambiente com regras coletivas e horários rígidos pode ser um choque
maior. Ela precisa trocar a atenção individualizada que tinha em casa com os
pais, pela independência exigida em salas de aula com muitos alunos.
3. Alguns pais ainda demonstram receio em matricular filhos muito
pequenos na escola. Quais são os principais medos das famílias nessa fase?
Esse
receio é bastante comum e, em muitos casos, está relacionado ao medo da
separação ou à ideia de que a escola seja um ambiente excessivamente rígido
para crianças tão pequenas. Na Educação Infantil, porém, o acolhimento é o
ponto de partida.
A
escola não substitui a família, mas atua como uma extensão desse cuidado,
funcionando como um espaço de apoio emocional e desenvolvimento gradual da autonomia.
Quando há confiança e diálogo entre família e escola, a criança se sente
segura, e a adaptação ocorre de forma natural, respeitando o ritmo e as
necessidades de cada fase.
Algumas
famílias temem que as crianças não serão tão bem cuidadas na escola como são em
casa e isto pode gerar insegurança. Entretanto, este receio pode ser facilmente
solucionado com uma conversa transparente entre a família e a coordenação
pedagógica. É importante que a família acolha os sentimentos das famílias e as
tranquilize com relação aos cuidados da escola.
4. Muitos pais acreditam que, antes dos 4 anos, a escola é “só para
brincar”. O que a neurociência diz sobre isso?
Essa
é uma visão bastante comum, mas que precisa ser ampliada. Na primeira infância,
brincar é a principal forma de aprendizagem, desde que esse brincar tenha
intencionalidade pedagógica.
Na
escola, cada brincadeira é planejada com objetivos claros: desenvolver
habilidades motoras, estimular a comunicação, fortalecer a autonomia e promover
a interação social. A neurociência mostra que experiências bem estruturadas
nessa fase têm impacto profundo e duradouro no desenvolvimento cerebral. Cada
mês conta nessa construção de conhecimento, e as oportunidades de aprendizagem
desse período não se repetem da mesma forma mais tarde.
O
brincar no ambiente escolar favorece, de forma singular, o desenvolvimento
cognitivo. Ao participar de uma brincadeira com blocos de montar ou de jogos de
tabuleiro, por exemplo, a criança exercita o raciocínio lógico, a resolução de
problemas, a tomada de decisões e muitos outros aspectos da aprendizagem.
Exercitam ainda importantes habilidades socioemocionais ao participar de
brincadeiras em grupo que ensinam a negociar, respeitar regras e lidar com frustrações,
além de estimular a autonomia e a autorregulação.
Ao
brincar no ambiente escolar com brincadeiras pensadas pelos educadores,
trabalham-se as habilidades psicomotoras essenciais para o crescimento
saudável, tais como correr, pular e manipular objetos pequenos, que refinam a
coordenação motora grossa e fina, fundamentais para a futura escrita.
5. Qual é a diferença entre o que a criança aprende em casa e o que
aprende na escola? Esses conhecimentos se complementam?
Sem
dúvida, eles se complementam. A educação da criança acontece em duas esferas
igualmente importantes, mas com funções diferentes. No ambiente familiar, a
criança constrói suas primeiras referências emocionais e morais. É ali que
aprende valores como respeito, empatia, responsabilidade e convivência,
principalmente pelo exemplo dos adultos.
Já
a escola amplia esse repertório ao inserir a criança em um ambiente coletivo,
planejado e intencional. Na Educação Infantil, cada proposta pedagógica é
pensada para estimular o desenvolvimento global, considerando os aspectos
cognitivo, emocional, social e motor. A escola oferece vivências que o ambiente
doméstico, por mais rico que seja, não consegue reproduzir com a mesma
intencionalidade, como a mediação de conflitos, o trabalho em grupo e a
construção do senso de pertencimento.
6. A alfabetização é um marco importante. Quais práticas são mais
adequadas para essa fase?
Diferente
de andar ou falar, a leitura e a escrita não são aquisições naturais, tratam-se
de invenções culturais e exigem instrução explícita. Por isso, a alfabetização
precisa ser construída de forma planejada e gradual. Antes da alfabetização
formal, é essencial investir nas chamadas habilidades preditoras: oralidade,
ampliação de vocabulário, leitura em voz alta e consciência fonológica.
Trabalhar
rimas, sons e a relação entre letras e fonemas prepara o cérebro para a
decodificação, que nada mais é que a capacidade de traduzir os sinais gráficos
(letras e grafemas) em sons da fala (fonemas). É o processo de "decifrar o
código" da escrita. Quando essa decodificação se torna automática, a
criança consegue focar no que realmente importa: a compreensão do texto.
O
modelo da “Corda da Leitura”, desenvolvida pela psicóloga Hollis Scarborough,
explica que a leitura fluente é resultado do entrelaçamento de dois grandes
eixos: o reconhecimento automático das palavras e a compreensão da linguagem.
Na prática, isso significa que não basta ensinar a criança a “juntar letras”. É
preciso desenvolver, de forma sistemática, tanto as habilidades de
decodificação quanto o repertório linguístico e de compreensão. Quando esses
fios se entrelaçam, a leitura acontece com fluidez e sentido; e é isso que
buscamos desde a Educação Infantil.
7. O ensino bilíngue tem crescido no Brasil, mas ainda gera dúvidas.
Aprender uma segunda língua muito cedo pode confundir a criança?
Esse
é um mito bastante comum, que precisa ser desconstruído. A ciência já
demonstrou que a infância é a melhor fase para a aprendizagem de múltiplos
idiomas. O cérebro infantil tem uma capacidade extraordinária de absorver sons,
estruturas gramaticais e diferentes códigos linguísticos.
O
bilinguismo, longe de causar confusão, fortalece funções cognitivas como
atenção, memória, flexibilidade mental e raciocínio lógico. Além disso, amplia
a consciência fonológica, o que beneficia inclusive o desenvolvimento da língua
materna.
Nas
escolas bilíngues, o segundo idioma, geralmente o inglês, não é tratado como
uma disciplina isolada, mas como parte do cotidiano da criança. O idioma é vivenciado
de forma orgânica, em atividades lúdicas, interações naturais e contextos
significativos.
Essa
exposição precoce torna o aprendizado mais natural e eficaz. A criança aprende
o idioma da mesma forma que aprende o português: pela vivência. Além do aspecto
linguístico, o bilinguismo também amplia a visão de mundo, promove empatia
cultural e prepara o aluno para um contexto global.
No
período que abrange a primeira infância, as crianças estão no que chamamos
“janela de oportunidade”. Nesta fase conseguem distinguir fonemas de qualquer
língua, uma habilidade que começa a diminuir após os sete anos. De acordo com
Patrícia Kuhl, codiretora do Institute for Learning & Brain Sciences da
Universidade de Washington, essa "janela crítica" permite que a
criança aprenda a pronúncia da segunda língua com maior precisão na articulação
dos fonemas e maior fluência na comunicação.
8. Como o acesso à escola desde cedo impacta a trajetória acadêmica e
futura do aluno?
O
impacto é profundo e estrutural. Crianças que frequentam uma escola com
currículo consistente desde a primeira infância desenvolvem competências
essenciais para o futuro, como pensamento crítico, autonomia, resiliência e
inteligência emocional.
Em
um contexto bilíngue e com currículo internacional, essas habilidades se somam
à capacidade de transitar entre culturas e idiomas. Esse aluno chega às etapas
finais da educação básica e à vida adulta não apenas com conhecimento, mas
também com a habilidade de aprender continuamente e de se posicionar como
cidadão global.
9. Para finalizar, por que a parceria entre família e escola é tão
decisiva na Educação Infantil?
Porque
é essa parceria que sustenta todo o processo educativo. A família constrói a
base de valores e a escola amplia esses aprendizados por meio da convivência,
do conhecimento e das experiências coletivas.
Quando
há transparência e confiança, a criança se desenvolve de forma integral. Educar
é um trabalho conjunto e é assim que conseguimos potencializar o
desenvolvimento de cada aluno desde os primeiros anos.
É essencial haver alinhamento entre os valores da escola e da família. Ao estabelecerem uma sólida parceria com a escola, os pais reduzem a própria ansiedade e aumentam a autoconfiança de seus filhos.
Jacqueline Cappellano - pedagoga, pós-graduada em Bilinguismo e Psicopedagogia coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville. É uma grande entusiasta da Educação Bilíngue e fascinada pelo universo da educação infantil. Enxerga no intercâmbio entre ideias e culturas, um caminho para a paz entre os povos.
International Schools Partnership (ISP)
Para mais informações, acesse o site.

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