Especialista em liderança e capital
humano afirma que mercado precisa ir além das ações simbólicas do 8 de março e
rever estruturas de promoção, flexibilidade e avaliação de desempenho
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Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, empresas intensificam
campanhas internas, promovem eventos comemorativos e reforçam mensagens de
valorização feminina. Embora importantes do ponto de vista simbólico, essas
iniciativas não são suficientes para atender às demandas reais das mulheres no
mercado de trabalho atual. É o que defende Thaís
Roque, estrategista de
carreiras, bacharel em Administração e especialista em Liderança e Capital Humano
pela New York University.
Segundo a especialista, as principais reivindicações das mulheres
no ambiente corporativo não são reconhecimentos pontuais por datas
comemorativas, mas mas coerência entre discurso e prática. “As mulheres não
estão pedindo flores. Estão pedindo estruturas que sustentem crescimento real.
Não querem apenas campanhas inspiradoras; querem oportunidades consistentes e
processos justos”, afirma.
Com base na experiência acompanhando executivas, empreendedoras
com negócios em expansão e lideranças em transição de carreira, Thaís
identifica quatro grandes expectativas que sintetizam o que as mulheres
realmente buscam neste novo ciclo profissional.
1. Oportunidades reais de crescimento
De acordo com a especialista, ainda há um descompasso entre o
discurso corporativo sobre diversidade e a prática cotidiana. “Muitas empresas
defendem a equidade, mas mantêm estruturas pouco transparentes de promoção e
sucessão. O teto de vidro se tornou mais sofisticado”, diz.
Ela destaca a importância de metas claras, critérios objetivos de
avaliação e patrocínio executivo genuíno. “Crescimento não pode depender apenas
da autoconfiança individual. Precisa ser sustentado por sistemas justos e
previsíveis.”
2. Flexibilidade como estratégia de negócio
A consolidação do modelo híbrido transformou a flexibilidade em um
fator decisivo de permanência e atração de talentos. Para muitas mulheres,
afirma Thaís, essa é uma condição estrutural.
“Flexibilidade não pode ser vista como concessão nem gerar penalizações
invisíveis. Empresas que associam presença física a comprometimento criam novas
barreiras para o avanço feminino”, pontua. Para ela, organizações que tratam a
autonomia como estratégia de retenção e produtividade tendem a colher melhores
resultados.
3. Segurança psicológica e ambientes inclusivos
Outro ponto central é a criação de ambientes seguros, nos quais
mulheres possam se posicionar com autenticidade. “Muitas ainda relatam a
necessidade de moderar o tom de voz, suavizar opiniões ou controlar emoções
para evitar rótulos. Esse esforço constante reduz potência e inovação”,
explica.
Segundo Thaís, segurança psicológica envolve canais efetivos para
denúncias, respeito em reuniões e critérios de avaliação baseados em
desempenho. “Em 2026, sucesso não pode ser incompatível com saúde mental.”
4. Fim das penalizações por maternidade, idade ou escolhas
pessoais
A penalização silenciosa por decisões de vida também segue como
desafio. “A maternidade ainda é tratada, em muitos contextos, como risco
corporativo. E mulheres acima dos 40 enfrentam preconceitos relacionados à
atualização ou energia”, afirma.
Para a especialista, políticas estruturadas de licença parental
para todos os gêneros, programas de retorno ao trabalho e iniciativas de
inclusão etária são medidas concretas que impactam diretamente a equidade.
Compromisso contínuo, não apenas simbólico
Thaís reforça que o Dia Internacional da Mulher deve ser
acompanhado de metas mensuráveis. “Sem indicadores claros de promoção,
diferença salarial e participação feminina em cargos de liderança, tudo vira
narrativa. Mulheres querem transparência, metas públicas e planos de ação.”
Ela destaca ainda que a transformação exige tanto revisão
estrutural das organizações quanto postura estratégica das próprias profissionais.
“Carreira hoje também é posicionamento. É comunicar resultados, buscar
visibilidade e construir redes de influência. Mas resiliência individual não
resolve desigualdade sistêmica. A responsabilidade precisa ser compartilhada.”
Para a especialista, a pauta vai além da justiça social e impacta
diretamente a competitividade das empresas. “Organizações que não conseguirem
atrair, desenvolver e reter talentos femininos perderão relevância. A nova
geração observa coerência entre discurso e prática.”
Neste 8 de março, Thaís propõe uma mudança de foco. “Mais do que
homenagens, o mercado precisa de decisões estruturais. A questão central para
2026 é se as empresas estão preparadas para oferecer o que o futuro exige:
lideranças mais inclusivas, processos mais transparentes e ambientes onde
talento pese mais do que estereótipos”, conclui.
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