Nutricionista materno-infantil explica por que o local das refeições, a rotina da casa, o clima emocional à mesa e os exemplos dos adultos têm papel decisivo na forma como a criança aceita ou rejeita os alimentos
Quando
uma criança começa a recusar alimentos ou passa a selecionar o que comer,
muitos pais acreditam que o problema está no cardápio. Mas, na maior parte das
vezes, a questão não está apenas no prato. O ambiente em que a criança vive e
como acontecem as refeições dentro de casa têm influência direta sobre o
comportamento alimentar infantil.
Segundo
Renata Riciati Nutricionista materno-infantil, especialista em seletividade
alimentar e comportamento alimentar infantil, a alimentação das crianças vai
muito além do que está sendo servido. “A alimentação infantil é muito mais
comportamento do que cardápio. E comportamento é moldado pelo ambiente”,
explica.
De
acordo com a especialista, fatores como o local das refeições, o clima
emocional à mesa, o exemplo dos adultos e até a organização da rotina familiar
podem favorecer ou dificultar a aceitação dos alimentos.
Um
dos pontos mais importantes é onde a criança faz as refeições. Comer à mesa,
com atenção ao alimento, ajuda a criança a perceber melhor os sinais de fome e
saciedade.
“Quando
a criança come assistindo televisão ou mexendo no tablet, ela entra no modo
automático. Isso atrapalha a autorregulação alimentar e dificulta que ela
reconheça quando já está satisfeita”, afirma Renata.
Outro
detalhe importante é a organização do prato. Preparações visualmente agradáveis
e uma apresentação simples, mas organizada, tendem a aumentar a aceitação dos
alimentos. Além disso, permitir que a criança coma andando pela casa, brincando
ou em diferentes lugares todos os dias também prejudica a conexão com o momento
da refeição.
“Crianças
pequenas precisam de previsibilidade. Comer sempre no mesmo local, com rotina
de horários certa, ajuda o cérebro a entender que aquele é o momento da
refeição”, diz.
Outro
fator decisivo é o clima emocional à mesa. Quando a refeição vira um momento de
cobrança ou tensão, a criança pode associar o ato de comer a sentimentos
negativos.
“Se
a refeição vira briga, chantagem ou ameaça, o cérebro associa comida a
estresse. Isso pode aumentar a recusa alimentar, a seletividade e até gerar
ansiedade em relação à comida”, explica a nutricionista.
Por
outro lado, um ambiente leve, com conversa tranquila e sem pressão excessiva
sobre o prato da criança, tende a facilitar a relação com os alimentos. “Quando
os adultos comem junto, conversam e não ficam focados apenas no quanto a
criança comeu, a comida deixa de ser um campo de batalha”, afirma.
A criança aprende mais pelo exemplo do que pela regra
O
comportamento dos adultos também tem um papel central. Crianças observam e
reproduzem o que veem dentro de casa.
“Criança
não faz o que você manda, ela faz o que você faz. Se os adultos não comem
legumes, vivem falando mal do próprio corpo ou demonizam certos alimentos, a
criança absorve tudo isso”, diz Renata.
Por
isso, o exemplo dos pais e cuidadores é considerado uma das ferramentas mais
importantes para a construção de hábitos alimentares saudáveis.
Outro
ponto importante é o ambiente alimentar da casa. O que está disponível com
frequência tende a ser o que a criança consome no dia a dia.
“Se
a casa está cheia de ultraprocessados acessíveis o tempo todo, se os doces
aparecem como recompensa e as frutas quase nunca vão à mesa, não é a força de
vontade da criança que vai resolver”, explica.
A
organização do dia da criança também interfere diretamente na alimentação.
Horários muito irregulares ou o hábito de beliscar o tempo todo podem
atrapalhar a percepção da fome.
“Crianças
precisam de alguma previsibilidade. Ter horários relativamente estáveis e
intervalos entre as refeições ajuda o organismo a reconhecer quando é hora de
comer”, afirma.
Segundo
a nutricionista, pequenas mudanças na rotina familiar podem transformar o
momento das refeições:
-Sempre que possível, fazer as refeições à mesa
-Evitar telas durante o momento de comer
-Manter horários relativamente organizados
-Comer junto com a criança sempre que possível
-Oferecer alimentos saudáveis com frequência dentro de casa
-Evitar transformar a refeição em momento de pressão ou conflito
Renata
reforça que, muitas vezes, mudar o ambiente pode trazer mais resultados do que
mudar completamente o cardápio.
“A criança não come isoladamente. Ela come dentro de um sistema. Antes de pensar que o filho é difícil para comer, vale olhar para o ambiente das refeições. Muitas vezes, ajustar esse cenário já transforma completamente a relação da criança com a comida”, conclui.
Renata Riciati - nutricionista materno-infantil e especialista em saúde da família, com mais de 20 anos de experiência em comportamento alimentar infantil, seletividade alimentar e terapia nutricional para crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) e TDAH. Formada pela Universidade Anhembi Morumbi, possui pós-graduação em Nutrição Clínica pela Universidade São Camilo e ampla atuação em consultório, escolas e projetos voltados à educação alimentar. Ao longo da carreira, acumulou experiências em instituições como o Instituto da Criança – HCFMUSP, GR Serviços de Alimentação e Prefeitura de São Paulo, além de comandar a RR Nutri, onde atende famílias, gestantes, bebês e crianças, oferecendo acompanhamento nutricional, consultoria escolar e consultoria corporativa. Renata também desenvolve projetos como o curso “Só Mais Uma Colherada”, criado em parceria com a jornalista Karina Godoy (TV Globo), e grupos online de orientação alimentar. Sua atuação se destaca pelo olhar integral, acolhedor e individualizado, com foco em transformar a relação das famílias com a comida, promovendo refeições mais leves, nutritivas e prazerosas.
Instagram: renatariciati_nutri
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