“O Brasil pode se beneficiar da
reconfiguração dos mercados globais de energia e alimentos, consolidando sua
posição como um ator relevante no cenário internacional” 
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O recente conflito deflagrado
entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciado em 28 de fevereiro de
2026, representa um dos mais significativos abalos geopolíticos do século XXI,
com repercussões que transcendem as fronteiras do Oriente Médio e afetam a
economia global de maneira profunda e multifacetada. Este artigo tem como
objetivo analisar os impactos dessa guerra nas exportações brasileiras,
desdobrando a análise em cenários de curto, médio e longo prazo, e avaliando os
desafios e as oportunidades que se apresentam para o Brasil em meio a essa nova
conjuntura internacional.
O
Caldeirão Geopolítico: Uma Breve Visão Geral do Conflito
O conflito teve como estopim
uma série de ataques coordenados por EUA e Israel contra alvos estratégicos no
Irã, culminando na morte do Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, e de outras
importantes figuras do regime. A ação foi justificada como uma tentativa de
neutralizar o programa nuclear iraniano e conter a influência do país na
região. Em retaliação, o Irã fechou o Estreito de Ormuz, uma das mais
importantes rotas de transporte de petróleo do mundo, e lançou ataques contra bases
americanas e aliados na região, escalando a crise para um conflito regional de
grandes proporções.
Atores
Envolvidos no Conflito
O conflito envolve dois
principais blocos de atores. De um lado está o eixo formado por Estados Unidos
e Israel, que contam com o Catar e recebem apoio defensivo de países como
Arábia Saudita, Azerbaijão, Bahrein, Chipre, Kuwait, Emirados Árabes Unidos,
Jordânia e Síria. Do outro lado está o eixo liderado pelo Irã, que atua em
conjunto com grupos aliados e forças associadas, entre eles o Hezbollah, as
Forças de Mobilização Popular do Iraque e os Houthis do Iêmen.
Ondas de
Choque de Curto Prazo (0-3 meses)
Os impactos imediatos do
conflito foram sentidos em escala global, com o fechamento do Estreito de Ormuz
provocando uma disrupção severa no fornecimento de petróleo e gás. Cerca de 20%
do petróleo mundial transita por essa via, e sua interrupção causou um aumento
imediato nos preços do barril de petróleo tipo Brent, que disparou 22,9% em 30
dias. A crise logística se estendeu para outras commodities, com o preço da
ureia, um fertilizante crucial para o agronegócio, subindo 36%.
Para o Brasil, os efeitos foram
imediatos e adversos. O agronegócio, pilar das exportações brasileiras, foi
diretamente atingido. O Irã, um dos cinco maiores destinos das exportações
brasileiras no Oriente Médio e o maior comprador de milho do Brasil em 2025,
com 9 milhões de toneladas, teve suas importações interrompidas. As exportações
de soja, que representaram 19,3% das vendas para o Irã em 2025, também foram
suspensas. O setor de proteína animal, que destina 25% de suas exportações para
o Oriente Médio, enfrenta um aumento nos custos logísticos e a necessidade de
buscar rotas alternativas, como o Cabo da Boa Esperança, que é mais caro e
demorado.
O cenário macroeconômico
brasileiro também se deteriorou. A alta do dólar e a pressão inflacionária,
impulsionada pelo aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos, levaram
a uma revisão das expectativas para a política monetária, com a possibilidade
de limitação dos cortes na taxa de juros. A ameaça do governo americano de
impor tarifas de 25% a países que mantiverem relações comerciais com o Irã
adiciona uma camada de incerteza e risco para o Brasil.
Ajustes de
Médio Prazo (3-12 meses)
Em um cenário de conflito
prolongado, o Brasil pode encontrar oportunidades em meio à crise. Com a
interrupção do fornecimento de petróleo do Oriente Médio, o Brasil, como nono
maior produtor e exportador mundial, pode se posicionar como um fornecedor
alternativo para países da Ásia e da Europa. A Petrobras poderia se beneficiar
do aumento dos preços do petróleo, e o país poderia ver um aumento na demanda
por suas commodities agrícolas, como soja e milho, por parte de nações que
buscam diversificar seus fornecedores.
No entanto, os riscos são
igualmente significativos. A persistência do conflito pode levar a uma recessão
global, o que reduziria a demanda por commodities brasileiras. A inflação pode
se tornar um problema crônico, e a ameaça de tarifas americanas pode se
concretizar, prejudicando o acesso do Brasil ao seu principal mercado. A
competição com outros produtores, como Argentina e Nigéria, também será um
fator a ser considerado.
Repercussões
de Longo Prazo (1-5+ anos)
A longo prazo, a guerra pode
levar a uma reconfiguração profunda da economia e da geopolítica global. A
dependência do petróleo do Oriente Médio pode diminuir, com um impulso para a
diversificação de fontes de energia e um maior investimento em energias
renováveis. O Brasil, com seu vasto potencial em petróleo e energias limpas,
pode se beneficiar dessa transição.
O país pode consolidar sua
posição como um importante fornecedor de alimentos e energia, aumentando sua
relevância no cenário internacional. No entanto, isso exigirá investimentos
significativos em infraestrutura e exploração, como na Margem Equatorial e na
Bacia de Pelotas. A política externa brasileira também será desafiada, com a
necessidade de navegar em um ambiente geopolítico mais complexo e polarizado.
Cenários
Possíveis e Suas Implicações para o Brasil
Os cenários possíveis para o
conflito apresentam diferentes implicações para o Brasil. Em um cenário de
resolução rápida, estimado entre um e três meses, haveria uma normalização
gradual dos mercados internacionais, resultando em impactos moderados e de
curta duração para a economia brasileira. Já em caso de conflito prolongado,
com duração entre seis e doze meses, poderiam ocorrer transformações
estruturais na economia global, abrindo oportunidades para que o Brasil se
consolide como fornecedor alternativo de commodities e produtos estratégicos,
embora também aumentem os riscos de inflação e desaceleração econômica. Um
cenário de escalada regional seria significativamente mais grave, com efeitos
severos sobre a economia mundial e brasileira, além de elevado grau de
imprevisibilidade nos mercados. Por fim, uma eventual mudança de regime no Irã
poderia provocar uma reconfiguração geopolítica profunda no Oriente Médio,
gerando impactos de longo prazo e de difícil previsão para o Brasil.
Conclusão
A guerra entre EUA-Israel e Irã
apresenta um cenário de desafios e oportunidades para o Brasil. No curto prazo,
os impactos são predominantemente negativos, com a interrupção das exportações,
o aumento dos custos e a instabilidade macroeconômica. A médio e longo prazos,
no entanto, o Brasil pode se beneficiar da reconfiguração dos mercados globais
de energia e alimentos, consolidando sua posição como um ator relevante no
cenário internacional. O sucesso do Brasil em navegar por essa crise dependerá de
sua capacidade de adaptação, de seus investimentos em infraestrutura e de uma
política externa pragmática e equilibrada.
**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva
responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário
do Comércio**
Maurício Manfré -Assessor de negócios internacionais da SP Chamber of Commerce e conselheiro do CECIEx
Fonte: https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/guerra-eua-israel-x-ira-impactos-nas-exportacoes-brasileira
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