Houve um tempo em que o movimento feminino foi decisivo para conquistas estruturantes na vida das brasileiras. Em 1932, com a conquista do direito ao voto, a mulher passou a ser reconhecida formalmente como sujeito político no Brasil. Foi um marco para a representatividade política das mulheres no Brasil.
Mas quase um século depois, permanece a pergunta:
presença formal significa poder real?
Comemoramos mais um mês de março, multiplicam-se
homenagens e discursos. Contudo, é preciso ir além do simbolismo. Estamos, de
fato, produzindo políticas públicas que garantam equidade entre homens e
mulheres?
Equidade significa compreender os desiguais em suas
desigualdades, reconhecer que as condições de partida não são as mesmas e que
justiça não é tratar todos de forma idêntica, mas oferecer instrumentos
adequados às realidades distintas. Sem essa compreensão, a igualdade permanece
retórica.
Hoje, embora as mulheres representem mais de 50% da
população brasileira e também do eleitorado, sua presença nos espaços de poder
ainda é proporcionalmente inferior. No Congresso Nacional, nas assembleias
legislativas e nas câmaras municipais, a participação feminina segue distante
da paridade. Essa sub-representação política revela que o acesso ao voto não
garantiu, automaticamente, acesso equilibrado à decisão.
O mesmo fenômeno se repete na administração pública
direta e indireta e nas estruturas técnicas. As mulheres são maioria em
diversas áreas do serviço público, na educação, na saúde, na assistência social
e no corpo técnico de muitos órgãos. Entretanto, quando se observa os cargos de
direção, assessoramento estratégico e chefia institucional, os números diminuem
sensivelmente.
Esse fenômeno tem nome: teto de vidro.
O teto de vidro não é uma proibição formal. Não está
escrito em lei. É uma barreira invisível, estrutural e cultural, que dificulta
ou retarda a ascensão das mulheres aos níveis mais altos de liderança. Elas
entram, produzem, executam, organizam, mas raramente ocupam a cadeira final da
decisão, são poucos os lugares à mesa as decisões para as mulheres.
A desigualdade se aprofunda quando observamos a
sobrecarga materna e a centralidade da chamada economia do cuidado. O cuidado,
de filhos, idosos, enfermos e da organização doméstica, sustenta
silenciosamente a economia formal, e a própria sociedade. No entanto, esse
trabalho permanece majoritariamente concentrado nas mulheres, e as que conseguem
conciliar a vida materna e profissional necessitam de rede de apoio que implica
necessariamente a terceirização do cuidado a outras mulheres.
Dados do IBGE indicam que as mulheres brasileiras dedicam
quase o dobro do tempo dos homens às atividades domésticas e de cuidado não
remunerado. Esse fator impacta diretamente suas trajetórias profissionais, sua
disponibilidade para funções de liderança e sua permanência na política.
Ignorar a economia do cuidado é ignorar um dos pilares da
sub-representação feminina.
Não há equidade enquanto o cuidado for tratado como
responsabilidade privada feminina e não como corresponsabilidade social. Não há
justiça quando políticas públicas desconsideram creches, licença maternidade e
paternidade equilibrada, redes de apoio e mecanismos que promovam uma divisão
efetiva das tarefas entre homens e mulheres.
Esse debate também dialoga com a realidade religiosa do
país.
Mais de 80% das mulheres brasileiras se declaram cristãs.
No segmento evangélico, as mulheres são maioria nas igrejas e desempenham papel
central na mobilização comunitária, na assistência social, na organização de
eventos e na formação de redes de apoio.
Ou seja, a mulher cristã já exerce liderança social
concreta, ainda que muitas vezes informal.
A feminilidade, longe de ser obstáculo, tem sido
historicamente um mecanismo de mobilização social. Sensibilidade social,
organização comunitária, capacidade de cuidado e articulação familiar não são
fragilidades; são competências sociais relevantes.
Entretanto, há um paradoxo evidente: mulheres são maioria
na mobilização social e minoria na representação institucional. É força na base
e ausência efetiva e proporcional no topo.
Não se trata de afirmar que a política brasileira falha
por causa do sexo de quem governa. Boa gestão depende de caráter, preparo e
compromisso público. Mas reconhecer isso não elimina a necessidade de enfrentar
as barreiras estruturais que mantêm a sub-representação feminina.
Entre o voto conquistado em 1932 e o teto de vidro que
ainda persiste em 2026, existe um desafio inacabado: transformar presença
social em poder institucional legítimo.
O Brasil já conta com mulheres mobilizadas. Já conta com
mulheres organizadas. Já conta com mulheres comprometidas com suas famílias e
comunidades.
O que ainda falta é romper as barreiras invisíveis que
limitam sua ascensão e enfrentar, com maturidade, os fatores estruturais que
produzem a sub-representação.
O futuro do Brasil não exige menos mulheres na política.
Exige mulheres plenamente reconhecidas e que possam desenvolver suas
potencialidades de forma integral, inclusive naquilo que sustenta
silenciosamente a sociedade: o cuidado, a organização comunitária e a
mobilização social.
E exige políticas públicas que compreendam, de fato, os
desiguais em suas desigualdades.
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