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Mesmo por curtos períodos, a privação de sono afeta
áreas do cérebro ligadas ao controle emocional e pode elevar em até 10 vezes o
risco de depressão e em 17 vezes o de ansiedade
Dormir
pouco ou mal vai muito além de acordar cansado no dia seguinte. Uma análise
conduzida por pesquisadores da Universidade Stanford1, nos EUA,
reforça que sono e saúde mental estão profundamente conectados e se influenciam
de forma bidirecional, ou seja, noites mal dormidas aumentam o risco de
alterações emocionais e transtornos mentais, enquanto problemas como ansiedade
e depressão, por sua vez, prejudicam a qualidade do sono.
Os
resultados mostram que o sono exerce papel central na regulação das emoções, na
consolidação da memória e no equilíbrio dos sistemas cerebrais responsáveis
pelo humor e pelo comportamento. A privação de sono, mesmo por períodos curtos,
já é capaz de afetar áreas do cérebro ligadas ao controle emocional, tornando
as pessoas mais irritáveis, impulsivas e vulneráveis ao estresse, aumentando em
até 10 vezes a probabilidade de sofrer de depressão e 17 vezes a probabilidade
de sofrer de ansiedade do que a população em geral.
De
acordo com a Sociedade Mundial do Sono2, cerca de 45% da população
mundial sofre com distúrbios do sono, incluindo insônia, apneia e outras
condições que prejudicam o descanso. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde3,
31,7% dos adultos que vivem em capitais brasileiras apresentam pelo menos um
sintoma de insônia e um em cada cinco brasileiros dorme menos de seis horas por
noite. Importante ressaltar que a recomendação para adultos é de no mínimo sete
horas de sono.
“Desde
os anos 1970 e 1980, existe a ideia de que dormir é desperdício de tempo. Hoje,
tanto os estudos científicos quanto a prática clínica mostram que o sono é
essencial para a saúde física e mental”, afirma Marcia Pradella Hallinan,
neurologista do Núcleo de Medicina do Sono do Hospital Sírio-Libanês.
De
acordo com recomendações internacionais do Centro de Controle e Prevenção de
Doenças (CDC, na sigla em inglês), agência de saúde dos Estados Unidos, adultos
entre 18 e 60 anos devem dormir de sete a nove horas por noite, já que durante
o sono, o organismo mantém intensa atividade biológica, desempenhando funções
essenciais para o equilíbrio do corpo e do cérebro. “O sono é um processo
fisiológico ativo. Durante esse período há recuperação de órgãos e tecidos,
liberação de hormônios importantes para o metabolismo e o desenvolvimento,
restituição do sistema de defesa e processamento das emoções”, explica o
neurologista do Núcleo de Medicina do Sono do Hospital Sírio-Libanês Lucio Huebra.
“Sem um sono adequado, mesmo a alimentação saudável e a atividade física
regular não atingem seu pleno efeito para a saúde global.”
As
consequências de uma noite mal dormida costumam aparecer já no dia seguinte, com
sintomas como fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração, dor de
cabeça e maior propensão a erros e acidentes. Quando a privação de sono se
prolonga, os impactos se tornam mais amplos e graves. “A longo prazo, o sono
insuficiente está associado a maior risco de obesidade, diabetes, alterações do
colesterol, hipertensão, infarto e AVC. Também há uma relação clara com
transtornos mentais, especialmente ansiedade e depressão, além de aumento do
risco de declínio cognitivo”, destaca Huebra.
Segundo
ele, pessoas que dormem habitualmente menos do que sua necessidade apresentam
aumento da mortalidade por todas as causas. Do ponto de vista cerebral, até
mesmo uma noite mal dormida já provoca alterações semelhantes às observadas nos
estágios iniciais de doenças neurodegenerativas, efeito que pode se acumular ao
longo dos anos.
A
necessidade de dormir varia de pessoa para pessoa, é parcialmente determinada
geneticamente e muda ao longo da vida. “Falamos em médias populacionais, mas
cada indivíduo é único. Tem gente que funciona muito bem dormindo seis horas,
enquanto outras pessoas precisam de nove, dez ou até mais. Isso não é anormal”,
explica Marcia. “O mais importante é observar como a pessoa funciona durante o
dia, se consegue aprender, trabalhar, manter o humor e a atenção após noites
mal dormidas.”
Em
crianças e adolescentes, o sono desempenha papel central no crescimento, no
desenvolvimento neurológico e no aprendizado. Já nos adultos e idosos, noites
mal dormidas podem se manifestar como queda de desempenho, alterações de humor
e até queixas de memória. “Muitas vezes recebemos pacientes mais velhos com
esquecimento, e ao investigar percebemos que dormem mal há muito tempo, às
vezes por um distúrbio do sono que nunca foi diagnosticado”, relata a neurologista.
Entre
os fatores que mais comprometem a qualidade do sono atualmente está o uso
excessivo de telas à noite. A exposição à luz emitida por celulares, tablets e
computadores interfere na produção de melatonina, hormônio essencial para a
manutenção do sono. “O cérebro precisa diferenciar claramente o dia da noite.
Além do estímulo visual e de atenção, já existem estudos mostrando que até o
campo eletromagnético dos aparelhos pode interferir na atividade elétrica do
sono”, alerta Marcia.
A
boa notícia é que pequenas mudanças na rotina podem melhorar significativamente
a qualidade do sono. “Existe evidência científica sólida de que medidas
comportamentais fazem diferença”, afirma Lucio. “A terapia
cognitivo-comportamental é considerada tratamento de primeira linha para
insônia crônica, e hábitos simples ajudam tanto na prevenção quanto no controle
dos distúrbios do sono.”
Quando
a dificuldade para dormir se torna frequente e persistente, a orientação é
buscar avaliação médica. “O ronco nunca é normal, em nenhuma fase da vida, e
não se deve só procurar o médico quando há sinais mais graves, como queda do
rendimento escolar, distúrbios de comportamento, sonolência diurna excessiva,
além de sinais de comprometimento cardiovascular, como hipertensão arterial”, alerta
Márcia. Para Huebra, distúrbios do sono não reconhecidos tendem a se tornar
crônicos e mais difíceis de tratar. “Quanto antes houver orientação adequada,
maiores as chances de evitar consequências que podem acompanhar a pessoa por
toda a vida”, finaliza.
Quer dormir melhor? Confira as dicas dos especialistas do Sírio-Libanês
- Mantenha horários regulares
para dormir e acordar, inclusive aos fins de semana. A regularidade ajuda
a ajustar o relógio biológico e facilita o adormecer.
- Reduza o uso de telas à noite,
especialmente nas duas horas que antecedem o sono. A luz azul emitida por
celulares, tablets e TVs pode inibir a produção de melatonina, hormônio
essencial para o sono.
- Cuide do ambiente em que irá dormir,
priorizando silêncio, pouca luz e temperatura confortável. Um espaço
adequado favorece o relaxamento e a continuidade do sono.
- Evite substâncias estimulantes no fim do dia,
como café, chás estimulantes, energéticos e nicotina, que podem dificultar
o início do sono.
- Crie um ritual de desaceleração antes de
dormir, com atividades mais calmas, como leitura,
alongamentos leves ou técnicas de respiração, sinalizando ao corpo que é
hora de descansar.
- Use a cama apenas para dormir,
evitando assistir TV, usar o celular ou permanecer deitado sem sono.
- Se não conseguir dormir, levante-se e
faça uma atividade tranquila até o sono chegar, evitando a frustração de
permanecer acordado na cama.
Hospital Sírio-Libanês
Saiba mais em nosso site: Link
Referências
1 Stanford University. Understanding the bidirectional relationship between sleep and mental health. Acesso em 10/02/2026. Disponível em: Link
2 World Sleep Society. World Sleep Day. Acesso em: 11/02/2026. Disponível em: Link
3 Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2006-2024: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no DF. Acesso em 11/02/2026.
Disponível em: Link
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