A felicidade consiste numa certa
maneira de viver, no meio que circunda o homem, nos costumes e nas instituições
adotadas pela comunidade à qual pertence. (Aristóteles, em Ética a Nicômaco).
Imagine uma cidade pequena do interior, onde as pessoas se conhecem pelo nome e
as famílias cresceram juntas, acompanhando de perto a jornada umas das outras.
Ali, cada escolha individual repercute, de alguma forma, no coletivo. Esse
povoado é Bedford Falls, cenário do clássico “A Felicidade Não Se Compra” (It’s
a Wonderful Life, Paramount, 1947), filme dirigido por Frank Capra (acessível
na plataforma de streaming Looke). Embora fictício, o vilarejo é amplamente
inspirado na localidade de Seneca Falls (do interior do estado de Nova Iorque),
berço do movimento pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos e um dos abrigos
para escravizados em fuga.
A obra narra a trajetória de George
Bailey, um homem que, desde a juventude, sonhava em viajar, desbravar o mundo e
tirar grandes projetos do papel. No entanto, a vida o conduziu por um roteiro
inesperado e que se mostraria especialmente virtuoso. Bailey cresceu no entorno
de uma modesta cooperativa de crédito imobiliário, liderada por seu pai e seu
tio. Era uma iniciativa singela, concebida para prover recursos em condições
justas a famílias excluídas do financiamento bancário convencional. Por meio da
instituição financeira de cunho associativo, muitas pessoas migravam de casas
precárias para lares dignos, alcançando a cidadania pelo mais básico. Sem que o
notassem, Bedford Falls respirava cooperação.
O protagonista, contudo, não percebia
isso com clareza, vendo aquela organização como demais acanhada para os seus
objetivos. Ele estava pronto para partir em busca de aventuras quando a morte
do pai o obrigou a ficar. George assume, então, o papel de consolidador de um projeto
idealizado por seus familiares. A comunidade não aceitaria outra pessoa; eles
queriam George porque sabiam que, para gerir o dinheiro e os sonhos de todos,
era preciso alguém probo, que acreditasse na missão da cooperativa. Seu caráter
inabalável e sua determinação eram garantias de que o legado continuaria vivo e
poderia ser usufruído pelos que viriam depois.
É nesse ponto que o filme revela a sua
mensagem central. De um lado, a solução convencional, representada por Potter –
personagem com características opostas: seletiva, baseada no lucro, no controle
e na concentração de renda. Do outro, a cooperativa liderada por George, sustentada
pela confiança, pelo vínculo territorial e pelo compromisso com o próximo.
Enquanto aquele pensava apenas nos números, este enxergava as pessoas em
primeiro plano.
Quando uma crise financeira atinge
Bedford Falls e a cooperativa, e muitos correm para sacar seus
microinvestimentos, George lembra de algo fundamental: a riqueza monetária de
cada associado está na casa do vizinho, no seu imaginário e no futuro do
conjunto. Retirar as poupanças da cooperativa, descontinuá-la, equivaleria a
uma espécie de autodestruição comunitária. Os moradores compreendem,
compartilham o pouco que resta e permanecem unidos mantendo a entidade.
Com o passar dos anos, o trabalho de
Bayley transforma-se em lares verdadeiros e em uma cidade que prospera pela
ação colaborativa. Ainda assim, ele se sentia pequeno por acreditar que
renunciou aos próprios planos, até que, em seu momento mais sombrio, descobre
como seria a realidade se ele nunca tivesse existido e ali persistido. Sem ele,
não haveria cooperativa, moradias acessíveis e nem senso de inclusão. Bedford
Falls seria um lugar frio, desigual, dominado por interesses autocentrados e…
infeliz!
Ao retomar a consciência, não
vislumbrando saída aparente, algo extraordinário acontece: a população inteira
procura a casa de Bailey. Pessoas simples, com poucas economias, mas com enorme
gratidão, repartem o que receberam. Esse é o núcleo do mérito cooperativo. Em
nosso mais recente livro, Cooperativismo financeiro: da consolidação para a
perpetuação (Editora Confebras, 2025), apresentamos esse modelo de
empreendedorismo como um projeto de sociedade, com repercussão real entre nós,
gerador de impactos positivos em diferentes geografias, tornando as pessoas
mais prósperas, desenvolvendo o seu senso de pertencimento, elevando a sua
autoestima e, por extensão, produzindo felicidade.
Assim como tantos líderes cooperativistas
fora das telas, George Bailey não acumulou fortunas, mas construiu vínculos.
Não concentrou poder, mas distribuiu oportunidades. George não ascendeu
sozinho; cresceu com todos. As cenas do filme e as nossas boas práticas sob o
manto da cooperação fazem ver que a felicidade não se compra: ela se constrói a
partir de múltiplas conexões em torno de um propósito comum.
Ênio Meinen - diretor de Coordenação Sistêmica, Sustentabilidade e Relações Institucionais do Sicoob
Sicoob
www.sicoob.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário