Associada a 13 tipos de câncer, obesidade avança 118% no país
Especialista chama atenção para o impacto direto na
incidência e desfecho de casos de câncer
O avanço da obesidade no Brasil passou a ocupar lugar
central na agenda de saúde pública após dados divulgados pelo Ministério da
Saúde, em janeiro, revelarem crescimento de 118% entre 2006 e 2024. Para o
coordenador da linha oncológica do Hospital Santa Catarina – Paulista, esse
cenário não afeta apenas doenças cardiovasculares e metabólicas, mas também
contribui de forma significativa para a elevação dos casos e da mortalidade por
câncer.
Reconhecida pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC)
como fator de risco para ao menos 13 tipos de câncer, entre eles os de mama
pós-menopausa, colorretal, endométrio, fígado, rim e pâncreas, a obesidade está
associada tanto ao aumento da incidência quanto à piora dos desfechos clínicos.
Estudos internacionais indicam que entre 4% e 6% dos casos da doença podem ser
atribuídos ao excesso de peso.
“Na prática clínica, o reflexo do peso vai além da incidência.
Pacientes com obesidade frequentemente apresentam inflamação crônica,
alterações hormonais e maior risco de complicações durante o tratamento
oncológico, o que exige uma abordagem ainda mais integrada e personalizada”,
explica o coordenador da linha oncológica do Hospital Santa Catarina –
Paulista, Dr. Antonio Cavaleiro. “O sucesso do plano terapêutico requer um
olhar atento para essa condição, desde o diagnóstico até o acompanhamento”,
completa.
Alimentação e ultraprocessados no centro do debate
A alimentação é um dos pontos que ajudam a explicar o
cenário. O crescimento da obesidade está ligado às mudanças no padrão alimentar
da população, avalia o especialista. Pesquisas recentes reforçam a associação
entre o consumo de ultraprocessados e o risco de câncer. Uma meta-análise
publicada em 2023 identificou que cada aumento de 10% no consumo desses produtos
está associado a um crescimento considerável no risco da doença, especialmente
os cânceres de mama e colorretal.
Resultados semelhantes foram observados em grandes estudos de
coorte, como o NutriNet-Santé, que desde 2009 acompanha mais de 100 mil participantes
na França. Entre os mecanismos biológicos sugeridos estão inflamação crônica,
resistência à insulina e alterações na microbiota intestinal, processos que
podem ser favorecidos por dietas ricas em produtos ultraprocessados e
contribuir para um ambiente metabólico mais propício ao desenvolvimento e
progressão tumoral.
“A maior disponibilidade e o consumo frequente de alimentos
ultraprocessados, ricos em carboidratos e pobres em nutrientes, contribuem
diretamente para o aumento da obesidade e, consequentemente, do risco
oncológico. Por isso, o Dia Mundial da Obesidade reforça a importância de atuar
na promoção de hábitos saudáveis como estratégia fundamental para reduzir a
mortalidade por câncer e melhorar os desfechos clínicos, especialmente em uma
população cada vez mais longeva”, conclui o especialista.
Envelhecimento amplia o impacto
Embora a obesidade seja um fator modificável, ela se soma a um
componente estrutural importante: o envelhecimento da população. Dados da
Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC) indicam que o número
global de novos casos de câncer pode crescer cerca de 77% até 2050,
impulsionado principalmente pela transição demográfica. Isso ocorre porque a
incidência e a mortalidade por câncer aumentam de forma expressiva com a idade.
Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam mais de 700 mil novos casos por ano no Brasil, com maior concentração entre pessoas acima dos 60 anos. “O crescimento do número absoluto de mortes por câncer reflete, em grande parte, o envelhecimento populacional, mas também a melhora no registro e no diagnóstico da doença. O câncer é, em grande medida, uma doença relacionada ao envelhecimento”, reforça Dr. Cavaleiro.
No perfil assistencial do Hospital Santa Catarina – Paulista, esse cenário se traduz em grande volume de casos de mama, próstata e colorretal, além de uma presença relevante de câncer de pulmão, frequentemente diagnosticado em estágios avançados. “Diante desse contexto, diretrizes internacionais reforçam a necessidade de estratégias que vão além do tratamento da doença. Investir em prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce e promoção de saúde é essencial”, conclui.
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