Roberto Elias Villela Miguel, cirurgião de Cabeça e Pescoço e doutor em Medicina pelo Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP
Lara Termini, pesquisadora em Oncologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e representante LATAM International Papilomavirus Society
É
do mês passado uma notícia relevante sobre cânceres causados pelo HPV
(Papilomavírus Humano), motivo de mobilização neste 4 de março, Dia
Internacional de Conscientização sobre o HPV. A Anvisa (Agência Nacional de
Vigilância Sanitária) deu um passo importante e aprovou a indicação da vacina
nonavalente para prevenção de cânceres de orofaringe e cabeça e pescoço
associados ao HPV. Uma notícia excelente para a sociedade e a medicina. Por se
tratar de uma vacina preventiva e para que sua eficácia seja máxima, é
interessante que a vacinação ocorra antes do início da atividade sexual (9 a 19
anos), permitindo assim que a infecção pelo HPV não aconteça.
Mesmo
que limitada por enquanto à rede privada, mas com intenção governamental de
chegar à rede pública, a vacina traz mais esperança para que se contenha o
aumento de casos de câncer de boca e garganta especialmente entre a população
mais jovem. Pessoas mais jovens têm um sistema imune mais potente, gerando
anticorpos em grande quantidade e muito eficientes. De maneira importante, essa
excelente iniciativa pode resultar na aplicação da vacina em outras faixas
etárias, beneficiando a todos.
Há
décadas se reconhece o papel de alguns tipos de HPV, como por exemplo os tipos
16 e 18, como principal causa do câncer do colo do útero e de outros tumores
ano-genitais (vulva, vagina, pênis e ânus). Mais recentemente, estudos
científicos também consolidaram sua associação com tumores de cabeça e pescoço,
particularmente o câncer de orofaringe _região que inclui a base da língua e as
amígdalas.
Ao
longo das últimas décadas, o número de casos de câncer de cabeça e pescoço associados
ao HPV _especialmente ao tipo 16_ vem crescendo de maneira contínua
principalmente entre jovens, que em geral, apresentam melhor resposta ao
tratamento, com prognóstico mais favorável. Observou-se um aumento de casos em
cerca de 60% ao ano em jovens entre 1973 e 2009. A situação se agravou. Segundo
o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), a proporção de tumores de
cabeça e pescoço em pacientes mais jovens passou de 8% em 2009 para 22% em
2020. Esses números mostram que o HPV é um fator de risco cada vez mais
relevante principalmente à essa população, diferentemente dos casos mais comuns
ligados ao consumo de álcool e tabaco.
Mesmo
comemorando a breve chegada da vacina, não custa repetir a básica orientação à
população: prevenção é a palavra-chave. O uso de preservativos nas relações
sexuais reduz o risco de transmissão do HPV, inclusive em situações que
envolvem o compartilhamento de brinquedos sexuais. Embora o preservativo não
elimine completamente a possibilidade de infecção, ele diminui de forma
significativa a exposição ao vírus.
Compreender
como tabaco, álcool, infecção pelo HPV e outros fatores interagem para causar
tumores de cabeça e pescoço não é apenas uma questão médica; é a base para
políticas públicas eficientes, campanhas de prevenção, vacinação, orientação
sexual segura e ampliação do acesso a métodos de triagem. Quanto maior o
conhecimento da população, maiores as chances de diagnóstico precoce _e
melhores os resultados do tratamento.

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