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Sete em cada 10 estudantes brasileiros
do Ensino Médio que utilizam a internet recorrem a ferramentas de Inteligência
Artificial generativa, como ChatGPT e Gemini, para pesquisas escolares, mas
apenas 32% afirmam receber orientação das escolas sobre o uso seguro e
responsável dessa tecnologia. Os dados são da pesquisa TIC Educação, divulgada no
fim de 2025 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade
da Informação. Segundo o mestre em Inteligência Artificial e Ética, educador
e consultor da Escola Lourenço Castanho, Alexandre Le Voci Sayad,
esse cenário expõe a necessidade de qualificar o debate educacional sobre IA
para além das tendências que ainda dominam o tema.
Segundo Sayad, a discussão pública
sobre Inteligência Artificial tem sido marcada por ruídos que pouco contribuem
para a compreensão real da tecnologia. “Há um esforço muito grande em torno do
‘hype’ da IA, aquilo que gera ruído na mídia, mas não corresponde ao que ela de
fato é. O debate público acaba empobrecido quando não enfrenta os desafios
concretos do uso”, afirma.
De acordo com o educador, o primeiro
passo das instituições de ensino é compreender a tecnologia de forma crítica,
criativa e prática. “É preciso lidar com a IA de maneira concreta e qualificar
o debate. Isso envolve discutir uso ético, direitos autorais, transparência,
vieses e até a elaboração de bons prompts. São questões estruturais para que
essa tecnologia seja usada de forma justa e responsável”, diz. Para ele, não
existe neutralidade em sistemas baseados em dados. “Toda tecnologia carrega
vieses e produz impactos éticos, sociais e humanos, inclusive na reprodução de
preconceitos.”
Na educação, esses impactos já são
sentidos no cotidiano escolar. Alexandre lembra que a Inteligência Artificial é
uma tecnologia de propósito geral, cujos efeitos extrapolam a sala de aula. “O
primeiro impacto da IA na educação está nos próprios estudantes que chegam à
escola. Eles já vivem imersos nesse universo, ainda que com níveis muito
diferentes de familiaridade e senso crítico, o que desafia currículos e
práticas pedagógicas”, observa. Ele destaca, ainda, as três frentes indicadas
pela Unesco, que passam pelo educar sobre a IA, explicando o que ela é e como
funciona; educar para a IA, promovendo um uso ético e responsável; e educar com
a IA, incorporando seu potencial aos processos de ensino e aprendizagem.
Entre as áreas mais rapidamente
afetadas está a avaliação educacional. “A IA opera por reconhecimento
estatístico de padrões, assim como muitos processos avaliativos. Por isso, já é
utilizada para desenvolver instrumentos, definir parâmetros e apoiar correções
e atribuição de notas”, explica. Outro avanço ocorre na personalização da
aprendizagem. “As pessoas aprendem de formas diferentes, e algumas plataformas
já conseguem identificar essas particularidades, adaptando metodologias e
trajetórias de ensino”, pontua.
Na prática
No âmbito escolar, esse uso tem sido
mediado com cautela. Segundo Fabia Antunes, diretora pedagógica da Escola
Lourenço Castanho, a principal aplicação da IA ocorre hoje na
gestão educacional e no currículo de letramento digital. “Utilizamos a
tecnologia sobretudo no cruzamento de dados de aprendizagem, acolhimento e
autonomia dos estudantes. Essas informações ampliam a capacidade de análise e
apoiam a tomada de decisão”, afirma. Já a equipe pedagógica segue o currículo
de letramento digital e, nos eixos de cidadania digital e inteligência
artificial, articulam as práticas com a criação de conteúdo digital de forma
consciente e crítica, sempre valorizando a autoria.
Para os estudantes, a proposta não
passa pela proibição, mas pela ressignificação do uso. “Temos reforçado a ideia
de que a IA deve funcionar como um copiloto. Ela está presente e não é negada,
mas precisa ser utilizada de forma consciente”, diz Fabia. Nas avaliações, os
dados obtidos são usados para redirecionar percursos de aprendizagem de forma
individualizada. “A partir das informações coletadas nas avaliações,
organizamos o planejamento de estudo e apoiamos o aluno na retomada dos
conteúdos”.
A tecnologia também está integrada a
atividades maker e de programação. “Os estudantes utilizam a IA no
desenvolvimento de protótipos de soluções relacionadas aos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável. Ela já faz parte da dinâmica desses projetos”,
comenta.
Esse trabalho é sustentado por um currículo estruturado de letramento digital. De acordo com Fabia, os eixos incluem programação, cidadania digital e Inteligência Artificial, do primeiro ano do Ensino Fundamental à terceira série do Ensino Médio. “O objetivo é formar estudantes capazes de criar, colaborar e atuar com autonomia no ambiente digital”, conclui.
Alexandre Le Voci Sayad - consultor nas áreas de cultura, arte e criatividade da Escola Lourenço Castanho, de São Paulo. Mestre em Inteligência Artificial e Ética pela PUC-SP e especialista em negócios digitais pela Universidade Califórnia - Berkeley. Atualmente é doutorando em políticas de educação e IA na Universidade Autônoma de Barcelona (UAB - Espanha).
Fabia Antunes - Diretora Pedagógica da Escola Lourenço Castanho. Doutora e Mestre em Pedagogia do Movimento pela Universidade de São Paulo – USP, com pesquisa voltada para a construção curricular e aprendizagem educacional. Bacharel e Licenciada em Educação Física pela Universidade de São Paulo. Especialista pela Harvard University - Bok Teaching Certificate. Especialista em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing ESPM.

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