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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O golpe começa quando queremos acreditar

Marcelo Santoro Almeida - advogado e professor de Direito das Famílias e Sucessões da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio 


Existe uma cena clássica no cinema em que o espectador só percebe o golpe quando ele já terminou. Em Golpe de Mestre, o encanto não está apenas na fraude em si, mas na habilidade de conduzir todos — personagens e público — a acreditar na história que estava sendo contada. Quando a verdade aparece, o que surpreende não é o truque, mas o quanto parecia natural acreditar nele.

Na vida real, os golpes raramente começam com uma mentira evidente. Eles começam com uma narrativa confortável. Uma explicação simples para um problema complexo, uma solução rápida para um conflito difícil, uma promessa de tranquilidade em momentos de incerteza. O golpe não se impõe; ele se apresenta como alívio. E, quando percebemos, a decisão já foi tomada muito antes da análise racional começar.

Talvez por isso pessoas inteligentes, experientes e prudentes também se tornem vítimas. Não por falta de capacidade, mas porque todos nós, em algum momento, queremos acreditar que determinada situação será resolvida sem desgaste, sem confronto e sem demora. A história faz sentido — e, quando a história faz sentido, deixamos de fazer perguntas.

A pressa costuma ser o ponto de virada. Surge a sensação de que é preciso decidir logo — antes que a oportunidade desapareça, antes que o problema aumente, antes que outras pessoas opinem. A urgência cria um ambiente em que refletir parece atraso. Já vi isso acontecer mais de uma vez: decisões relevantes sendo tomadas não porque eram as melhores, mas porque pareciam as mais rápidas naquele instante.

Na advocacia, especialmente nas questões familiares e patrimoniais, esse movimento é mais comum do que se imagina. Após a perda de um ente querido, durante um divórcio ou em momentos de fragilidade emocional, surgem propostas que prometem simplificar o caminho. Transferências feitas “apenas para facilitar”, assinaturas que encerrariam discussões, acordos aceitos para preservar a paz. Tudo parece razoável quando o objetivo imediato é diminuir a dor ou evitar conflitos.

O problema é que decisões tomadas para pacificar o presente, muitas vezes, criam os conflitos do futuro.

Há um aspecto ainda mais silencioso nesse processo. Muitas escolhas são feitas porque confirmam a imagem que queremos ter de nós mesmos. Queremos acreditar que somos conciliadores, práticos, capazes de resolver situações difíceis com maturidade. Admitir que fomos conduzidos a uma decisão ruim exige reconhecer vulnerabilidade — e isso nem sempre é simples. Por isso, não raro, o erro é percebido cedo, mas reconhecido tarde. 

Talvez a maior ilusão seja imaginar que experiência imuniza alguém contra o erro. A vida mostra o contrário. Quanto mais acostumados estamos a decidir, maior tende a ser a confiança na própria percepção. E a confiança excessiva reduz o espaço da dúvida — justamente o espaço onde nascem as decisões mais seguras.

Vivemos em uma época que celebra a velocidade. Resolver rápido virou sinônimo de eficiência. Mas, quando o assunto envolve família, patrimônio e relações humanas, o tempo continua sendo um aliado essencial. A pausa permite verificar, ouvir, reconsiderar. A pressa, quase sempre, beneficia apenas quem não deseja perguntas.

No fim, os golpes mais eficazes não dependem de grandes mentiras. Eles se apoiam em algo profundamente humano: o desejo de acreditar que existe um caminho fácil, indolor e imediato para situações complexas. 

Talvez a verdadeira prudência não esteja em desconfiar de todos, mas em desconfiar, de vez em quando, daquilo que parece perfeito demais. Porque, assim como no cinema, quando a história é boa demais, o desfecho muitas vezes já começou — apenas ainda não percebemos.


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