Com a chegada do Carnaval, as maratonas de
blocos, festas que atravessam a madrugada e o calor intenso entram no roteiro
de milhões de brasileiros. Nesse período, uma combinação bastante comum acende
um sinal de alerta entre especialistas: o consumo simultâneo de bebidas
alcoólicas com energéticos. A busca por “mais disposição” para aguentar horas,
ou até dias, de folia faz com que muitas pessoas recorram a essas bebidas
estimulantes, sem perceber que a mistura pode impor um estresse significativo
ao sistema cardiovascular.
Enquanto o álcool atua como um depressor do
sistema nervoso central, os energéticos contêm altas doses de cafeína e outras
substâncias estimulantes, como taurina e guaraná. Juntos, esses efeitos podem
aumentar a sobrecarga do coração e favorecer sintomas como palpitações,
tontura, falta de ar e mal-estar, especialmente em ambientes quentes e com
desidratação. Segundo a professora de Cardiologia da Afya Brasília, Rosangeles
Konrad, é importante desfazer um mito muito falado no Carnaval: o de que o
energético “anula” ou mascara a embriaguez.
“Misturar álcool com energético não reduz a
embriaguez nem melhora reflexos ou julgamento, os efeitos do álcool
continuam os mesmos. O energético apenas aumenta o estado de alerta e diminui a
sonolência, o que pode dar uma falsa sensação de disposição”, explica. Segundo
a especialista, não há evidência consistente de que o energético faça a pessoa
se sentir menos bêbada do que realmente está. No entanto, ao reduzir a
sonolência, ele pode modificar o comportamento e prolongar o tempo de exposição
ao álcool e a outros fatores de risco típicos da folia, como privação de sono,
esforço físico intenso e calor excessivo.
O problema é que essa combinação não é neutra
para o coração. Revisões recentes, como a The Effects of Energy Drinks
on the Cardiovascular System: A Systematic Review publicada em 2025
na Revista Current Cardiology Reports, apontam que energéticos podem elevar a
frequência cardíaca e a pressão arterial, além de provocar alterações no ritmo
do coração, especialmente quando associados ao álcool. “Essas bebidas estimulam
o sistema nervoso simpático e podem aumentar a probabilidade de taquicardia,
palpitações e arritmias”, afirma Rosangeles. Um quadro conhecido na cardiologia
é o chamado Holiday Heart Syndrome (Síndrome do coração de feriado), quando
arritmias surgem após episódios de consumo excessivo de álcool, mesmo em
pessoas sem doença cardíaca prévia.
A especialista da Afya Brasília reforça que o
risco não se limita a quem já tem problemas cardiovasculares. “No Carnaval,
vemos muitos jovens saudáveis apresentando palpitações, falta de ar, tontura e
mal-estar após consumir álcool com energético, muitas vezes associados ao calor
intenso e à desidratação”, destaca. A perda de líquidos, comum em ambientes
lotados e sob altas temperaturas, potencializa ainda mais os efeitos negativos
sobre o sistema cardiovascular, favorecendo distúrbios eletrolíticos e aumentando
a instabilidade elétrica do coração.
Embora eventos graves como infarto, arritmias
ventriculares perigosas e até morte súbita sejam incomuns, eles são
biologicamente plausíveis em situações extremas, especialmente quando há
predisposição, ingestão em grandes quantidades ou associação com outras drogas
estimulantes. “O coração é um órgão elétrico e extremamente sensível a
estímulos químicos. A mistura de substâncias estimulantes com o álcool pode
desorganizar esse sistema elétrico”, alerta a cardiologista.
Diante disso, a orientação dos especialistas é evitar a associação entre álcool e energético, moderar o consumo de bebidas alcoólicas e priorizar a hidratação durante toda a festa. “Folia não deveria ser sinônimo de risco à saúde. Quando falamos de coração, não existe combinação segura entre álcool e estimulantes. Informação e consciência são fundamentais para que a festa termine bem, sem consequências graves e, muitas vezes, irreversíveis”, conclui Rosangeles Konrad.
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