Quando o Carnaval chega, o imaginário coletivo
brasileiro se enche de cores, música, alegria e debates sobre turismo e
movimentação econômica. Mas para além dos blocos, trios elétricos e abadás,
existe um universo invisível de trabalhadores e trabalhadoras que não desfrutam
da festa, mas dependem para sobreviver. Camarins vazios de reconhecimento
formal, jornadas exaustivas sem direitos e remunerações muitas vezes abaixo da
merecida, este é o retrato atual da informalidade no mercado de eventos.
A Realidade da Informalidade
no Setor de Eventos
A demanda sazonal deve gerar um impacto relevante
no mercado de trabalho, com a abertura de 39,2 mil vagas temporárias, número
apresenta crescimento em relação a 2025, porém, mesmo com a expansão das
admissões no período, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e
Turismo (CNC) aponta uma tendência de menor retenção desses trabalhadores. Para
2026, a taxa de efetivação é estimada em 11%, abaixo dos 16% registrados no ano
anterior. O movimento indica uma acomodação do setor após o processo de recomposição
de vagas eliminadas no auge da crise sanitária, quando os índices de efetivação
chegaram a 24% em 2021 e 2022.
Essa realidade reflete um problema estrutural mais
amplo: um setor complexo, como o de eventos, que é altamente dependente de
trabalho temporário e sazonal, resistente à formalização por meio da
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e que, por isso, reproduz relações
precárias mesmo em momentos de forte geração de renda.
Informalidade e Carnaval:
Número e Condições de Trabalho
O próprio Carnaval evidencia, e até expõe, a
precariedade dessas relações laborais. Fiscalizações do Ministério do Trabalho
e Emprego (MTE) durante o Carnaval de 2025 em Salvador resgataram mais de 300
vendedores ambulantes em condições análogas à escravidão, submetidos a jornadas
extensas, falta de infraestrutura básica, alojamento improvisado e ausência de
descanso adequado.
Embora este seja um caso extremo e esteja ligado a
trabalho degradante, ele denuncia uma realidade comum no Carnaval: muitos
ambulantes e operadores trabalham sem contrato formal, sem acesso a direitos
básicos como descanso remunerado, alimentação decente e proteção social,
configurações que se enquadram claramente na definição de trabalho informal ou
precário.
Esses trabalhadores, mesmo sendo parte integral da
cadeia produtiva que movimenta bilhões de reais durante o Carnaval, muitas
vezes não têm acesso a benefícios que outros trabalhadores formais recebem,
como seguro-desemprego, férias remuneradas, vale-transporte ou FGTS. Essa
disparidade adiciona uma camada de injustiça social a uma celebração nacional
de enorme significado cultural.
Projeções para 2026 e o
Desafio da Formalização
De acordo com estimativa da CNC, o Carnaval deve
gerar R$ 14,48 bilhões em receitas em todo o Brasil, representando um aumento
de 3,9% na comparação com o mesmo período do ano passado. Apesar da ausência da
consolidação de dados para o ano atual, a Abrafesta indica que a informalidade
continuará sendo um desafio central. A própria entidade tem articulado propostas
regulatórias e políticas públicas para reforçar a necessidade de estrutura que
promova formalização e proteção social para os trabalhadores da cadeia de
eventos, inclusive em momentos de alta demanda, como o Carnaval.
Esse debate aponta para 2026 um cenário em que,
mesmo com a expectativa de crescimento econômico e de consumo no setor de
eventos, a precariedade laboral pode persistir se não houver mudanças
estruturais profundas nas relações de trabalho.
Ricardo Dias - presidente da Abrafesta
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