Panorama 2025 revela aumento na
formalização de políticas e treinamentos, mas reflete descrença na ação correta
de liderança diante o assunto
A 2ª Pesquisa Nacional sobre a Maturidade no Combate ao Assédio no Brasil – Panorama 2026, realizada pela Protiviti, consultoria global especializada em compliance, gestão de riscos, tecnologia e inovação, revela que apesar do tema ter ganhado espaço na agenda corporativa brasileira, o preparo das lideranças e os riscos psicossociais ainda são pouco mapeados entre as preocupações.
Realizada com 109 profissionais que atuam diretamente com o tema em organizações de diferentes portes, setores e regiões do país, o estudo mostra que 93% das empresas afirmam possuir uma norma formal contra o assédio moral e sexual, um avanço em relação a 2024, quando o percentual era de 86%. Também houve crescimento significativo na existência de políticas formais de apuração de denúncias, que passaram de 79% em 2024 para 91% em 2025.
Entretanto, os dados demonstram uma maturidade desigual. Apenas 51% das organizações possuem políticas de apuração com capítulos específicos para casos de assédio, mesmo com o aumento de 13 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Para a Daniela Aggio, Diretora Executiva de Forensics & Integrity da Protiviti, este é um ponto crítico, já que a apuração desse tipo de denúncia exige protocolos próprios e metodologias distintas das utilizadas em investigações de fraude ou outros ilícitos.
“O combate ao assédio deixou de ser apenas uma
pauta de compliance ou de recursos humanos. Ele está diretamente ligado à
sustentabilidade dos negócios, à reputação das organizações e à construção de
ambientes de trabalho saudáveis e produtivos. Os avanços existem, mas ainda há
fragilidades, como os riscos psicossociais e o preparo das lideranças no tema,
que precisam ser endereçadas pela alta direção”, afirma Aggio.
Liderança despreparada para receber denúncias
Um dos dados mais sensíveis da pesquisa diz respeito ao papel da
liderança. Apenas 26% dos respondentes acreditam que os líderes
saberiam com certeza como reagir ao receber diretamente uma
denúncia de assédio. A maioria (63%) avalia que saberiam reagir apenas
parcialmente, enquanto 11% afirmam que os líderes não saberiam como agir.
“Na prática, muitos relatos chegam primeiro aos líderes diretos. Quando eles não estão preparados, o risco de revitimização, omissão ou condução inadequada é alto. Preparar a liderança é uma das etapas mais críticas para que o combate ao assédio seja efetivo”, destaca Aggio.
Outro alerta importante do estudo está relacionado à proteção dos
profissionais que atuam diretamente no combate ao assédio dentro das empresas.
Apenas 57,8% afirmam contar com apoio da Alta Direção e proteções formais,
sem sofrer qualquer tipo de assédio. Por outro lado, 29,4%
relatam vulnerabilidades, somando os que se dizem parcialmente
protegidos (14,7%) e os que afirmam estar expostos (14,7%).
Outros 12,8% preferiram não responder.
Riscos psicossociais e saúde mental ainda pouco estruturados
Mesmo com a entrada em vigor da NR-01, apenas 44% das empresas afirmam já ter mapeado seus riscos psicossociais, enquanto 39% não fizeram esse mapeamento e 17% não sabem informar. Além disso, 68% das organizações ainda não tratam temas como burnout e adoecimento mental de forma adequada.
Apenas 32% dos respondentes percebem que esses assuntos
são tratados de maneira séria e efetiva, enquanto 43%
consideram o tratamento superficial e 25% afirmam
que o tema sequer é abordado.
Alta direção ainda pouco envolvida formalmente
O estudo também aponta lacunas no patrocínio institucional. Apenas 68,8% das normas contra assédio moral e sexual e 64,2% das normas de apuração foram formalmente aprovadas pela Alta Direção com evidências documentais. Além disso, 16,5% dos respondentes afirmam que nenhuma norma foi formalmente aprovada, o que fragiliza a efetividade das políticas e a consolidação de uma cultura organizacional de respeito.
Mesmo entre as empresas que possuem normas, os dados mostram que apenas 56% têm aprovação formal da Alta Direção para políticas contra assédio, e apenas 26% para normas de apuração, indicando espaço relevante para maior envolvimento dos executivos e conselhos.
No campo da capacitação, os resultados mostram evolução: 88% das empresas realizam algum tipo de treinamento sobre assédio, ante 79% em 2024. Destas, 44% promovem treinamentos recorrentes e estruturados para toda a empresa, enquanto 13% fazem ações recorrentes apenas para públicos específicos. Ainda assim, 12% das organizações não realizam qualquer tipo de treinamento, e 43% não possuem um plano estruturado e formal, o que preocupa diante das exigências da NR-01 e da Lei nº 14.457/22.
Para a Aggio, os resultados mostram que houve avanços importantes, mas que evoluir no combate ao assédio exige mais do que cumprir requisitos legais. “É preciso compromisso genuíno da liderança, investimento contínuo em capacitação, processos bem definidos e mecanismos reais de proteção contra retaliações. As organizações que avançarem nessa agenda não apenas reduzem riscos, mas fortalecem sua reputação, a retenção de talentos e a sustentabilidade dos negócios no longo prazo”, conclui.
O estudo completo pode ser acessado neste link.
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