Veja como silêncio, medo de julgamento e culpa impedem milhares de brasileiros de buscar ajuda para vícios e comportamentos compulsivos
A
vergonha ainda é um dos maiores obstáculos para quem enfrenta vícios
comportamentais. Enquanto o número de brasileiros em risco cresce – seja em
apostas, compulsão por pornografia, compras impulsivas, jogos digitais ou
consumo exagerado de dopamina rápida – grande parte dessas pessoas demora meses
ou anos para pedir ajuda. O tabu funciona como um bloqueio emocional que piora
o quadro, distorce a percepção de culpa e aprofunda o isolamento.
Segundo
o psicólogo clínico Leonardo Teixeira, especializado em comportamentos
compulsivos, a vergonha cria uma segunda camada de sofrimento, que, além do
vício em si, a pessoa passa a conviver com a sensação constante de fracasso. “Nem sempre os pacientes chegam ao
consultório porque perderam dinheiro ou porque estão com a vida social
prejudicada. Eles chegam porque não aguentam mais ter vergonha. A vergonha
paralisa, e quando paralisa, o problema ganha força”, afirma.
Para o
especialista, o tabu se mantém porque as pessoas ainda enxergam comportamentos
compulsivos como falha moral, e não como questão de saúde mental. “Muita gente ouve desde cedo que
apostar demais é falta de responsabilidade, que ver pornografia é desvio de
caráter, que comprar por impulso é futilidade. Esse tipo de julgamento faz a
pessoa esconder o problema, e quando ela esconde, ela deixa o vício crescer no
escuro”.
A
vergonha também afeta a percepção da família. Quando o problema aparece,
parentes muitas vezes reagem com irritação, bronca ou preconceito, o que
intensifica o ciclo de culpa. Para Teixeira, essa dinâmica é um dos principais
motivos que retardam o diagnóstico. “Quando
a família reage com julgamento, a pessoa se fecha ainda mais. Ninguém se abre
para quem acusa. Quando há acolhimento, a motivação para buscar ajuda aumenta”.
De
acordo com o especialista, a lógica é simples. Quanto mais tempo a pessoa passa
tentando “resolver sozinha”, mais profunda fica a compulsão. O ciclo se repete
- recaída, culpa, promessa, recaída - e cria a sensação de que não há saída. O
isolamento aparece como consequência direta desse processo. Dormir mal,
esconder comportamentos, mentir sobre gastos, inventar desculpas para o
isolamento são sinais comuns relatados por quem luta com comportamentos
compulsivos.
O tabu
também compromete a prevenção. Muitas pessoas evitam buscar informações por vergonha
de se identificar com os sintomas. Outras têm medo de admitir para si mesmas
que perderam o controle. “Quando
a pessoa aceita que não está conseguindo parar, ela dá o primeiro passo para
retomar o controle. O problema é que a vergonha adia essa consciência”,
explica o psicólogo.
Para
Teixeira, quebrar o tabu significa retirar o peso moral que impede o
tratamento. Conversar sobre o tema com naturalidade, reconhecer que compulsões
têm base neuroquímica e emocional, e lembrar que se trata de um transtorno, e
não de falha, são movimentos essenciais. “Vergonha
não cura nada. Informação cura. Acolhimento cura. Vício não é sobre caráter, é
sobre sofrimento emocional”.
Ele
reforça que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem. Psicoterapia
especializada, CAPS, grupos de apoio, acompanhamento médico e estratégias de
prevenção fazem parte das ferramentas disponíveis, e quanto mais cedo o
paciente chega, maior a chance de recuperação.
“Quando a pessoa finalmente fala sobre
o problema, ela percebe que não está sozinha. O tabu existe para ser rompido. E
quando isso acontece, o tratamento começa de verdade”, conclui.
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