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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Por que a vergonha impede o tratamento? Psicólogo detalha como o tabu transforma vícios em prisões silenciosas

Veja como silêncio, medo de julgamento e culpa impedem milhares de brasileiros de buscar ajuda para vícios e comportamentos compulsivos


A vergonha ainda é um dos maiores obstáculos para quem enfrenta vícios comportamentais. Enquanto o número de brasileiros em risco cresce – seja em apostas, compulsão por pornografia, compras impulsivas, jogos digitais ou consumo exagerado de dopamina rápida – grande parte dessas pessoas demora meses ou anos para pedir ajuda. O tabu funciona como um bloqueio emocional que piora o quadro, distorce a percepção de culpa e aprofunda o isolamento.

 

Segundo o psicólogo clínico Leonardo Teixeira, especializado em comportamentos compulsivos, a vergonha cria uma segunda camada de sofrimento, que, além do vício em si, a pessoa passa a conviver com a sensação constante de fracasso. “Nem sempre os pacientes chegam ao consultório porque perderam dinheiro ou porque estão com a vida social prejudicada. Eles chegam porque não aguentam mais ter vergonha. A vergonha paralisa, e quando paralisa, o problema ganha força”, afirma.

 

Para o especialista, o tabu se mantém porque as pessoas ainda enxergam comportamentos compulsivos como falha moral, e não como questão de saúde mental. “Muita gente ouve desde cedo que apostar demais é falta de responsabilidade, que ver pornografia é desvio de caráter, que comprar por impulso é futilidade. Esse tipo de julgamento faz a pessoa esconder o problema, e quando ela esconde, ela deixa o vício crescer no escuro”. 

 

A vergonha também afeta a percepção da família. Quando o problema aparece, parentes muitas vezes reagem com irritação, bronca ou preconceito, o que intensifica o ciclo de culpa. Para Teixeira, essa dinâmica é um dos principais motivos que retardam o diagnóstico. “Quando a família reage com julgamento, a pessoa se fecha ainda mais. Ninguém se abre para quem acusa. Quando há acolhimento, a motivação para buscar ajuda aumenta”.

 

De acordo com o especialista, a lógica é simples. Quanto mais tempo a pessoa passa tentando “resolver sozinha”, mais profunda fica a compulsão. O ciclo se repete - recaída, culpa, promessa, recaída - e cria a sensação de que não há saída. O isolamento aparece como consequência direta desse processo. Dormir mal, esconder comportamentos, mentir sobre gastos, inventar desculpas para o isolamento são sinais comuns relatados por quem luta com comportamentos compulsivos.

 

O tabu também compromete a prevenção. Muitas pessoas evitam buscar informações por vergonha de se identificar com os sintomas. Outras têm medo de admitir para si mesmas que perderam o controle. “Quando a pessoa aceita que não está conseguindo parar, ela dá o primeiro passo para retomar o controle. O problema é que a vergonha adia essa consciência”, explica o psicólogo.

 

Para Teixeira, quebrar o tabu significa retirar o peso moral que impede o tratamento. Conversar sobre o tema com naturalidade, reconhecer que compulsões têm base neuroquímica e emocional, e lembrar que se trata de um transtorno, e não de falha, são movimentos essenciais. “Vergonha não cura nada. Informação cura. Acolhimento cura. Vício não é sobre caráter, é sobre sofrimento emocional”.

 

Ele reforça que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem. Psicoterapia especializada, CAPS, grupos de apoio, acompanhamento médico e estratégias de prevenção fazem parte das ferramentas disponíveis, e quanto mais cedo o paciente chega, maior a chance de recuperação.

 

Quando a pessoa finalmente fala sobre o problema, ela percebe que não está sozinha. O tabu existe para ser rompido. E quando isso acontece, o tratamento começa de verdade”, conclui.

 

Leonardo Teixeira - psicólogo clínico, especializado no tratamento do vício em apostas, com mais de nove anos de experiência na área. Criador do Programa Cartada Final, já ajudou dezenas de pessoas a romperem o ciclo da compulsão, reconstruírem sua autoestima e retomarem o controle da vida familiar e financeira. Formado em Psicologia pela Universidade do Contestado (SC) e pós-graduado em Psicologia do Esporte, Leonardo também é especialista em Gestalt-terapia, o que lhe garante uma abordagem integrativa e humanista para lidar com os desafios complexos da dependência. Reconhecido como referência no tema, é criador do maior canal sobre vício em apostas, com mais de 110 mil seguidores, impactando milhares de famílias com informações, reflexões e ferramentas práticas para prevenção e tratamento. Sua atuação une ciência e prática clínica, o consolida como um dos principais especialistas do Brasil no combate ao vício em apostas.


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