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quarta-feira, 1 de abril de 2026

02/04 - Dia Mundial do Autismo: Identificar sinais e iniciar intervenções aumentam as chances de promover autonomia, aprendizado e qualidade de vida


Criança que não responde quando é chamada pelo nome, evita olhar nos olhos, demora para falar ou não fala, mostra pouco interesse em brincar ou interagir com outras pessoas, não faz gestos simples, como apontar ou dar tchau, repete movimentos com o corpo, tem interesse muito intenso por um único tema, se incomoda muito com sons, luzes ou toques — ou, ao contrário, reage pouco a eles — e tem dificuldade com mudanças na rotina, merecem atenção redobrada. Segundo o médico Dr. Fernando Gomes, neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da USP, esses sinais podem revelar autismo – que é uma condição do neurodesenvolvimento que impacta principalmente a comunicação, a interação social e o comportamento.

“O cérebro de uma criança com autismo se desenvolve de forma diferente. E quanto mais cedo conseguimos identificar sinais e iniciar intervenções, maiores são as chances de promover autonomia, aprendizado e qualidade de vida”, explica.

Ele conta que nem sempre os sinais do autismo são evidentes já que cada criança se desenvolve de forma única, mas perceber esses comportamentos de forma precoce pode acelerar o diagnóstico e mudar completamente a trajetória de desenvolvimento.
 

Diagnóstico precoce muda o futuro

Segundo o neurocirurgião, o cérebro infantil possui alta plasticidade, o que significa maior capacidade de adaptação e aprendizado. “Por isso que as intervenções precoces, como terapias comportamentais, fonoaudiologia e acompanhamento multidisciplinar, têm impacto direto no desenvolvimento da comunicação, da autonomia e das habilidades sociais”, afirma.

Além do acompanhamento clínico, o ambiente escolar desempenha papel central no desenvolvimento da criança com TEA. E, nesse ponto, o especialista faz um alerta importante: “A inclusão não pode ser apenas física, ela precisa ser funcional. E isso passa por estrutura, capacitação e presença de profissionais especializados dentro das escolas.”

Uma das soluções apontadas é a presença de neuropsicólogos nas redes públicas e privadas de ensino. “O neuropsicólogo é o profissional capacitado para entender como aquela criança aprende, quais são suas dificuldades cognitivas, emocionais e comportamentais. Ele pode orientar professores, adaptar estratégias pedagógicas e ajudar a criança a desenvolver seu potencial dentro do ambiente escolar”, explica Dr. Fernando Gomes.

Segundo ele, essa integração entre saúde e educação é fundamental para reduzir desigualdades e promover inclusão real.

Outro ponto crítico é o combate à desinformação. Ainda existem muitos mitos em torno do autismo, o que pode atrasar o diagnóstico e dificultar o acesso ao tratamento adequado.

“Falar sobre autismo é importante. Mas o que realmente transforma é garantir diagnóstico precoce, acesso ao tratamento e uma escola preparada para incluir. E isso passa, necessariamente, por políticas públicas que integrem saúde e educação”, conclui. 



Dr. Fernando Gomes - Professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de SP com mais de 2 milhões de seguidores. Há 15 anos atua como comunicador, já tendo passado pela TV Globo por seis anos como consultor fixo do programa Encontro com Fátima Bernardes (2013 a 2019), por um ano (2020) na TV Band no programa Aqui na Band como apresentador do quadro de saúde “E Agora Doutor?” e dois anos (2020 a 2022) como Corresponde Médico da TV CNN Brasil. Atualmente comanda seu programa Olho Clínico com Dr. Fernando Gomes semanalmente no Youtube desde 2020. É também autor de 10 livros de neurocirurgia e comportamento humano. Professor Livre Docente de Neurocirurgia, com residência médica em Neurologia e Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, é neurocirurgião em hospitais renomados e também coordena a Unidade de Hidrodinâmica Cerebral relacionada ao diagnóstico, tratamento e pesquisa de doenças como Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN) e Hipertensão Intracraniana Idiopática (HII ou pseudotumor cerebral) no Hospital das Clínicas.
drfernandoneuro


Páscoa pode intensificar episódios de compulsão alimentar e acende alerta para saúde emocional, aponta psicóloga

Período marcado por consumo elevado de chocolate e encontros em torno da comida pode desencadear ansiedade, culpa e perda de controle em pessoas com relação emocional fragilizada com o alimento 


Com a chegada da Páscoa, tradicionalmente associada à abundância e ao consumo de chocolate, cresce também a atenção de especialistas para os impactos emocionais desse período. Embora para muitos a data esteja ligada ao prazer e à celebração, para outros pode representar um gatilho para ansiedade, culpa, compulsão alimentar e sensação de perda de controle. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os transtornos alimentares estão entre as condições de saúde mental que mais crescem no mundo, afetando milhões de pessoas e frequentemente associados a quadros de ansiedade, depressão e estresse. No Brasil, dados da Associação Brasileira de Psiquiatria mostram aumento na incidência de transtornos alimentares e comportamentos compulsivos, especialmente em contextos de maior pressão emocional e social. 

Um levantamento publicado na revista científica Journal of Eating Disorders aponta que episódios de compulsão alimentar estão fortemente relacionados à dificuldade de regulação emocional, sendo a comida utilizada como mecanismo de enfrentamento para lidar com sentimentos negativos. Já a Harvard Medical School destaca que fatores emocionais estão entre os principais gatilhos para padrões alimentares disfuncionais, reforçando a conexão entre saúde mental e comportamento alimentar. 

Segundo a psicóloga Dra. Andrea Beltran, o aumento do consumo de doces durante a Páscoa pode funcionar como um amplificador de questões emocionais já existentes. “Para muitas pessoas, o chocolate e os encontros em torno da comida não representam apenas prazer, mas também ansiedade, culpa, vazio e perda de controle. Esse período pode intensificar uma relação já fragilizada com o alimento”, afirma. 

Na perspectiva da psicologia junguiana, desenvolvida por Carl Gustav Jung, a forma como o indivíduo se relaciona com a comida pode revelar aspectos profundos da vida psíquica. “Quando comer deixa de ser uma escolha consciente e passa a funcionar como uma tentativa de aliviar dores internas, estamos diante de um sinal importante. A compulsão alimentar, muitas vezes, não está ligada apenas à fome do corpo, mas a uma fome emocional e simbólica”, explica a especialista. 

Esse comportamento pode estar associado a uma série de fatores emocionais. “Por trás da compulsão podem existir sentimentos não reconhecidos, frustrações acumuladas, solidão, carência afetiva, estresse e até uma dificuldade de entrar em contato com aquilo que realmente falta. Em vez de nomear a dor, a pessoa tenta silenciá-la com o excesso”, diz a Dra. 

A especialista reforça que, do ponto de vista psicológico, sintomas como a compulsão não surgem de forma aleatória. “Aquilo que foi reprimido, negado ou vivido de forma automática pode encontrar uma saída no corpo e nos impulsos. Muitas vezes, a compulsão aparece como uma tentativa inconsciente de suportar emoções difíceis ou de buscar um conforto imediato diante de conflitos que ainda não foram elaborados”, afirma. 

Além dos impactos emocionais, a compulsão alimentar também pode trazer consequências físicas e agravar quadros de saúde. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, comportamentos alimentares desregulados estão associados a riscos aumentados de obesidade, doenças metabólicas e piora da saúde mental, criando um ciclo difícil de interromper sem acompanhamento adequado. 

Diante desse cenário, o papel da terapia ganha destaque. “O processo terapêutico ajuda a dar sentido a esse sofrimento. Em vez de olhar apenas para o comportamento alimentar, buscamos compreender a história emocional da pessoa, seus gatilhos, padrões, dores e faltas. Ao longo desse caminho, ela pode aprender a reconhecer o que sente, diferenciar fome física de fome emocional e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com o próprio sofrimento”, explica. 

Para Dra. Andrea, a Páscoa também pode ser ressignificada como um momento de reflexão e cuidado emocional. “Talvez seja uma oportunidade de viver esse período com mais consciência, menos culpa e mais escuta interna. Quando a pessoa entende que a compulsão não define quem ela é, mas sinaliza algo que precisa ser cuidado, abre-se a possibilidade de transformação”, conclui.

Dra Andrea Beltran - psicóloga analítica junguiana, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Atua no acompanhamento de processos individuais com foco em autoconhecimento, vínculo e desenvolvimento emocional. Seu trabalho valoriza narrativas pessoais e vínculos profundos, buscando acolhimento genuíno em cada jornada.



Chocolate faz bem ou mal para a saúde feminina? Especialista explica o que é mito e o que é verdade

Com a chegada da Páscoa, o consumo de chocolate aumenta e, com ele, surgem dúvidas muito comuns entre as mulheres: o doce pode aliviar sintomas de TPM? Piora a acne? Favorece infecções como candidíase?

Para esclarecer o tema, a ginecologista e obstetra Dra. Daniella Campos, diretora médica da Clínica Elsimar Coutinho, explica o que é mito e o que é verdade quando o assunto é chocolate e saúde feminina.

Segundo a especialista, o chocolate, especialmente o amargo, pode trazer benefícios como melhora do humor e ação antioxidante. Por outro lado, o excesso — principalmente das versões com alto teor de açúcar, pode impactar a saúde hormonal e íntima.


Chocolate pode realmente aliviar sintomas de TPM ou isso é mito?

Não é mito. De acordo com a Dra. Daniella, o chocolate pode, sim, ajudar a aliviar alguns sintomas da TPM, especialmente os relacionados ao humor. “O chocolate contém substâncias como triptofano e magnésio, que participam da produção de serotonina, o neurotransmissor ligado à sensação de bem-estar. Isso pode ajudar a reduzir irritabilidade, ansiedade e até aquela vontade intensa por doces nesse período”, explica.

No entanto, ela ressalta que o benefício está mais associado ao consumo moderado e, de preferência, de chocolates com maior teor de cacau.


Por que sentimos mais vontade de chocolate em alguns períodos do ciclo menstrual?

A vontade de chocolate durante certas fases do ciclo menstrual tem explicação hormonal. “Na fase pré-menstrual, há uma queda nos níveis de estrogênio e serotonina, o que pode aumentar o desejo por alimentos que promovem prazer imediato, como o chocolate”, diz a médica.

Além disso, o corpo pode buscar fontes rápidas de energia, especialmente se houver cansaço ou alterações de humor.


Chocolate causa acne ou o problema está no tipo consumido?

Essa é uma dúvida clássica, e a resposta não é tão simples. “O chocolate em si não é o grande vilão da acne. O problema está, principalmente, nas versões com alto teor de açúcar e leite”, esclarece a especialista.

Ela explica que o consumo excessivo de açúcar pode estimular processos inflamatórios no organismo e aumentar a produção de sebo na pele, o que favorece o surgimento de acne. “Já o chocolate amargo, com maior concentração de cacau, tende a ter menos impacto nesse sentido.”


Existe relação entre excesso de açúcar e candidíase recorrente?

Sim, existe relação. A médica afirma que dietas ricas em açúcar podem contribuir para o desequilíbrio da microbiota vaginal. “O excesso de açúcar no organismo pode favorecer a proliferação de fungos como a Candida, aumentando o risco de candidíase, especialmente em mulheres que já têm predisposição”.

Por isso, o consumo frequente e elevado de chocolates muito açucarados pode ser um fator de risco indireto.


Chocolate pode impactar o equilíbrio hormonal feminino? Em quais casos isso acontece?

O impacto do doce nos hormônios está mais relacionado ao padrão de consumo. A ingestão ocasional não costuma causar alterações hormonais significativas. O problema está no excesso, principalmente de produtos ricos em açúcar e gordura.

Dietas desequilibradas podem levar a alterações metabólicas, como resistência à insulina, que por sua vez podem interferir no equilíbrio hormonal e até no ciclo menstrual.


Chocolate amargo é mesmo mais ‘amigo’ da saúde? Por quê?

Sim, especialmente quando possui alto teor de cacau (acima de 70%). “O chocolate amargo é rico em flavonoides, que têm ação antioxidante e podem contribuir para a saúde cardiovascular, além de ter menos açúcar”, destaca a médica.

Esses compostos também ajudam a combater radicais livres e podem ter efeitos positivos no humor e na função cerebral.


Existe uma quantidade ideal de consumo para aproveitar os benefícios sem prejudicar o corpo?

A recomendação é moderação. Uma pequena porção diária, como 20 a 30 gramas de chocolate amargo, pode trazer benefícios sem causar prejuízos.

O importante é equilibrar o consumo dentro de uma alimentação saudável, evitando exageros, principalmente em períodos como a Páscoa.


Dá para aproveitar a Páscoa sem culpa? Qual seria o equilíbrio ideal?

Sim, é totalmente possível aproveitar sem culpa. “O segredo está no equilíbrio. Não é preciso excluir o chocolate, mas sim fazer escolhas mais conscientes, como preferir versões com maior teor de cacau e evitar o consumo excessivo em um curto período”, ressalta.

A especialista também recomenda prestar atenção aos sinais do corpo. “Comer com atenção e sem exageros permite aproveitar o momento sem impactos negativos para a saúde.”

No fim das contas, o chocolate não precisa ser um vilão e pode, sim, fazer parte de uma rotina equilibrada, inclusive durante a Páscoa.

 

Dra. Daniella Campos Oliveira - ginecologista e obstetra, diretora médica da Clínica Elsimar Coutinho, em São Paulo. Possui residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela Santa Casa de São Paulo e especialização em Cirurgia Minimamente Invasiva. Também é especialista em Ultrassonografia Geral e em Ginecologia e Obstetrícia pelo IBCC, além de Ginecologia Regenerativa Funcional e Estética pela ABGRE. Sua formação e atuação são pautadas em cirurgia minimamente invasiva, implantes hormonais e em temas voltados à saúde integral da mulher.



Chocolate amargo: um aliado do coração

 Cinco razões, cientificamente comprovadas, que associam o seu consumo a benefícios cardiovasculares. Especialistas alertam: atenção ao tipo e à quantidade ingerida.


Tradicionalmente associado ao prazer, o chocolate – especialmente o amargo – tem ganhado espaço também como potencial aliado da saúde cardiovascular. O alimento pode contribuir para a saúde do coração, desde que consumido com moderação e critério. “O cacau é uma fonte importante de flavonoides, compostos bioativos com ação antioxidante e anti-inflamatória”, afirma a nutricionista Juliana Meirelles, do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês.
 

Os flavonóis presentes no cacau estimulam a produção de óxido nítrico, substância que promove a vasodilatação e ajuda a controlar a pressão arterial. Além de favorecer a circulação, os flavonoides contribuem para a proteção das artérias ao combater os radicais livres, responsáveis pelo estresse oxidativo – um dos processos associados ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como explica a cardiologista Patrícia Oliveira, também do Centro de Cardiologia do Sírio-Libanês. 

Os benefícios, no entanto, estão diretamente ligados à composição do chocolate. Dessa forma, é recomendável escolher chocolates com teor de cacau acima de 70%. “Produtos com muito açúcar, gordura saturada ou recheios acabam anulando os possíveis efeitos positivos à saúde”, atenta a cardiologista. E ainda dar preferência a versões com baixo teor de açúcar, sem gorduras trans e, se possível, enriquecidas com ingredientes funcionais como castanhas e amêndoas, que também apresentam propriedades benéficas para o sistema cardiovascular. 

Embora ainda não haja consenso científico absoluto, há indícios consistentes de que o consumo regular e moderado de chocolate amargo pode contribuir para a melhora da função endotelial (a camada interna dos vasos sanguíneos), além de auxiliar no controle do colesterol e da pressão arterial. 

Juliana Meirelles explica que os flavonóides também podem influenciar positivamente a sensibilidade à insulina e a resposta inflamatória do organismo. “Mas isso só é válido dentro de um contexto de alimentação equilibrada e estilo de vida saudável”, adverte ela, já que o consumo excessivo ou o uso do chocolate como ‘atalho’ para uma vida desregrada, compromete os resultados esperados. 

Outro aspecto relevante é a interação entre o cacau e a microbiota intestinal – o conjunto de bactérias benéficas que habitam o trato digestivo. Um microbioma saudável favorece a absorção dos flavonoides e pode potencializar seus efeitos sobre o sistema cardiovascular. “O desequilíbrio na microbiota pode limitar a ação desses compostos bioativos, o que reforça a importância de uma alimentação rica em fibras e diversidade de nutrientes, para além do chocolate em si”, complementa.

 

Cinco argumentos científicos para tirar o chocolate amargo da lista dos vilões:

  1. Contribui para a redução da pressão arterial;
  2. Melhora a função dos vasos sanguíneos;
  3. Combate inflamações e ajuda na defesa contra o desgaste celular;
  4. Auxilia no controle do colesterol, o que é importante para a saúde do coração;
  5. Tem leve ação anticoagulante, benéfica para a circulação. 

A recomendação, reforça a especialista, é manter a porção pequena – idealmente após as refeições – e integrá-la a um plano alimentar balanceado. “No dia a dia, trocar a culpa por consciência pode ser um gesto de cuidado com o próprio corpo. Escolher bem o chocolate é um ato de prazer e de prevenção”, diz Juliana.

 

Hospital Sírio-Libanês
Saiba mais em nosso site: Link.


Autismo: Conhecimento sobre componente genético avança e já pode ser detectado em 40% dos casos

Novas tecnologias ampliam o conhecimento e permitem abordagens mais personalizadas, mas especialistas reforçam: condição é multifatorial 

 

No contexto do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, especialistas destacam como a genética vem transformando a compreensão do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Embora não seja determinante, o fator genético tem papel relevante, com concordância entre gêmeos de cerca de 80%. Hoje, exames já conseguem identificar alterações em aproximadamente 40% desses casos, contribuindo para uma compreensão maior do Transtorno, melhor acompanhamento clínico e orientação às famílias.

Celebrado em 2 de abril, o Dia Mundial de Conscientização do Autismo coloca em pauta os avanços científicos na compreensão do TEA, especialmente no campo da genética — área que, nos últimos 20 anos, tem ampliado de forma significativa o conhecimento sobre a condição, sem perder de vista seu caráter multifatorial do transtorno.

Com o avanço das tecnologias de análise do material genético, como o sequenciamento do Exoma e do Genoma, pesquisadores passaram a investigar com mais profundidade quais alterações estão presentes em pessoas com autismo e não são observadas em indivíduos neurotípicos. Esse movimento consolidou uma nova fase da pesquisa, marcada pela identificação de variantes genéticas associadas ao espectro.

Hoje, estima-se que seja possível identificar, por meio de testes genéticos, alterações em cerca de 40% desses casos — um avanço expressivo frente ao cenário de duas décadas atrás. A identificação destas variantes têm impacto direto na prática clínica e na condução dos casos.

Segundo o Médico Geneticista Dr. Salmo Raskin, Diretor Científico da Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, esse avanço permite uma nova abordagem no entendimento do transtorno:

“Nos últimos 20 anos, a genética tem contribuído muito para o entendimento do autismo. Sabemos que ele é uma condição multifatorial — ou seja, envolve múltiplos fatores, e a genética é um deles. O componente genético é importante e está presente em cerca de 80% dos casso, porém não é determinante. Nem toda pessoa com uma determinada característica genética vai desenvolver autismo. Com o avanço das tecnologias nas duas

últimas décadas, passamos a identificar quais alterações genéticas estão presentes em pessoas com autismo e não em pessoas sem o transtorno. Hoje, após cerca de 20 anos de pesquisa, conseguimos identificar, por meio de exames genéticos, pelo menos 40% desses casos com base genética. E isso é muito útil, porque permite comparar indivíduos com a mesma alteração genética — não que estes terão trajetórias idênticas, mas podem apresentar um autismo com características semelhantes.”

A partir dessas descobertas, a genética passa a desempenhar papel estratégico na estratificação dos casos e na personalização do acompanhamento clínico. A possibilidade de agrupar indivíduos com alterações semelhantes abre caminho para uma medicina mais precisa, baseada em perfis biológicos específicos.

Apesar dos avanços, especialistas destacam que ainda há desafios importantes, como a ampliação do acesso aos testes genéticos e a integração dessas informações na rede de atenção à saúde. O conhecimento genético, quando aliado à avaliação clínica e ao acompanhamento multidisciplinar, se consolida como uma ferramenta essencial para promover diagnóstico mais precoce, intervenções mais eficazes e melhor qualidade de vida para pessoas com TEA e suas famílias.


Brasil registra aumento de 37% no congelamento de embriões em quatro anos

  

Crescimento acompanha avanço da fertilização in vitro e mudanças no comportamento reprodutivo da população 


O número de embriões congelados no Brasil cresceu 37% entre 2022 e 2025, segundo dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O total passou de 104.693 embriões em 2022 para 144.080 em 2025, evidenciando uma expansão contínua da reprodução assistida no país. 

O aumento acompanha o crescimento dos ciclos de fertilização in vitro (FIV), principal técnica utilizada no tratamento da infertilidade, e também reflete mudanças no comportamento reprodutivo da população, como o adiamento da maternidade. 

De acordo com a ginecologista e presidente da Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil (AMCR), Profª Dra. Marise Samama, o avanço está diretamente ligado ao aumento da procura pelos tratamentos. 

“O aumento do número de ciclos de fertilização in vitro vem trazendo, consequentemente, um crescimento no número de embriões congelados. Muitos casais conseguem constituir família por meio da FIV, mas acabam ficando com embriões excedentes”, explica. 

Segundo a especialista, o maior acesso aos tratamentos também contribui para esse cenário, especialmente em um contexto de maternidade mais tardia. 

“Sem dúvida há mais ciclos de FIV, mas o maior acesso ao tratamento também favoreceu esse aumento. Hoje, os casais deixam para engravidar mais tarde, o que aumenta as dificuldades e a necessidade de recorrer à reprodução assistida”, afirma. 

O congelamento de embriões tem se consolidado como parte do planejamento reprodutivo de casais que passam por tratamentos de fertilidade. A prática permite novas tentativas de gestação no futuro sem a necessidade de repetir todo o processo. 

Esse movimento também foi impulsionado por avanços tecnológicos importantes nos últimos anos. A partir de 2012, a introdução da vitrificação aumentou significativamente a taxa de sobrevivência dos óvulos e embriões após o descongelamento, tornando o procedimento mais seguro e eficiente. 

“Já começamos a ver casais que pensam na reprodução assistida como uma forma mais segura de engravidar, especialmente quando há riscos genéticos envolvidos”, diz. 

Apesar dos avanços, o aumento no número de embriões armazenados nas clínicas brasileiras levanta discussões sobre o destino desses materiais. 

“É uma realidade, mas também um problema. Temos milhares de embriões estocados nos laboratórios de reprodução, e muitos casais optam pelo descarte. Isso acaba gerando questionamentos ético-religiosos”, destaca.

Outro fator que impacta esse cenário são as exigências regulatórias para a doação de embriões, que incluem exames que nem sempre foram realizados no momento da criopreservação. 

A expectativa é de que a reprodução assistida continue em expansão no Brasil, acompanhando mudanças sociais, como o adiamento da maternidade, e o maior acesso às tecnologias reprodutivas.

 

AMCR – Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil


Alterações visuais no autismo impactam aprendizagem, qualidade de vida e exigem atenção precoce

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) vai além das dificuldades de comunicação e comportamento: ele também pode afetar significativamente a visão e o processamento visual. Especialistas alertam que alterações oculares e sensoriais são comuns em pessoas autistas e podem interferir diretamente no desenvolvimento, na aprendizagem e na interação social, tornando o tema uma questão crescente de saúde pública.

Estudos indicam que indivíduos com TEA apresentam maior incidência de problemas oftalmológicos, como estrabismo, erros de refração (miopia, hipermetropia e astigmatismo) e ambliopia, além de alterações no processamento cerebral das imagens.

Além das condições clínicas, há também diferenças na forma como o cérebro interpreta estímulos visuais. Pessoas com autismo podem apresentar dificuldade na percepção de detalhes, reconhecimento de padrões e interpretação de expressões faciais, o que impacta diretamente a comunicação e o aprendizado.

Entre os sinais mais comuns estão a hipersensibilidade à luz, desconforto em ambientes muito iluminados e dificuldade em lidar com excesso de estímulos visuais. Em muitos casos, a criança ou adulto autista pode evitar contato visual, utilizar a visão periférica ou focar intensamente em luzes, padrões e movimentos repetitivos.

Outro ponto importante é o comportamento ocular. Em pacientes com TEA, especialmente aqueles com maior necessidade de suporte, podem ocorrer maneirismos como esfregar ou pressionar os olhos com frequência, o que aumenta o risco de microtraumas oculares. Esse hábito repetitivo também pode estar associado ao desenvolvimento ou progressão do ceratocone, uma doença que afina e deforma a córnea, comprometendo a qualidade da visão.

Impacto direto na educação e no desenvolvimento:

Problemas visuais não diagnosticados podem agravar desafios já presentes no TEA. A dificuldade em enxergar com clareza ou interpretar imagens pode comprometer o desempenho escolar, a atenção e a socialização.

“Com o aumento do diagnóstico de autismo em todo o mundo, especialistas defendem que a avaliação oftalmológica deve fazer parte do acompanhamento multidisciplinar desde os primeiros anos de vida. A identificação precoce de alterações visuais pode reduzir impactos no desenvolvimento e melhorar significativamente a qualidade de vida, além de evitar agravamentos que demandem intervenções mais complexas no futuro”, explica a oftalmologista Regina Cele.


Brincar também é cuidado: o papel do lúdico na recuperação de crianças hospitalizadas

Brinquedoteca Hospital Geral de Itapevi
Especialistas do CEJAM destacam que atividades podem reduzir a ansiedade, fortalecer o vínculo com a equipe de saúde e apoiar o desenvolvimento emocional 

 

A hospitalização pode ser uma experiência desafiadora para crianças, que se veem afastadas da rotina, da escola e do convívio familiar. O ambiente desconhecido, os sons e os procedimentos médicos tendem a despertar medo e ansiedade. Nesse contexto, o brincar surge como um recurso importante para aproximar o universo infantil da realidade hospitalar e tornar essa experiência mais acolhedora.
 

Segundo Cristina Salamão, psicóloga infantil do CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, o lúdico tem papel terapêutico no enfrentamento da hospitalização. “Não se trata apenas de uma distração, mas de uma ferramenta que ajuda a ressignificar a dor, permitindo que o paciente processe o que está vivendo.”

De acordo com a especialista, a ação também ajuda a preservar aspectos fundamentais da infância, mesmo durante o tratamento. “A brincadeira lembra à criança que ela continua sendo criança, apesar da doença, transformando o ambiente em um espaço mais seguro e confortável”, explica. Esse processo contribui para reduzir o estranhamento diante da internação e facilita a adaptação à rotina hospitalar. 

As atividades também colaboram para diminuir a ansiedade. Cristina observa que, se envolver em uma dinâmica criativa ajuda a deslocar, momentaneamente, a atenção da dor e das preocupações. O brincar ainda fortalece a relação com a equipe de saúde. “O lúdico humaniza e aproxima o contato profissional - paciente, gerando confiança”, enfatiza Cristina. Segundo ela, quando a criança se sente acolhida e compreendida, tende a colaborar mais com o tratamento e a lidar melhor com os procedimentos. 

Os efeitos também aparecem no campo emocional e social. A psicóloga pontua que a redução do estresse favorece o enfrentamento da doença e contribui para o bem-estar durante a internação. O convívio com outras pessoas amplia esses benefícios, estimulando a troca de experiências e o apoio mútuo. “No espaço lúdico, a interação social atua como um laboratório da vida, onde a criança testa limites, cura feridas emocionais e aprende a se relacionar com o mundo de forma segura”, conclui.
 

Brinquedoteca sustentável transforma o cuidado no Hospital Geral de Itapevi  

No Hospital Geral de Itapevi (HGI), unidade da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) e gerida pelo CEJAM, o cuidado com a criança hospitalizada ganhou uma brinquedoteca sustentável. Thais Sturari, supervisora de enfermagem da unidade e coordenadora das ações na brinquedoteca, conta que o objetivo foi criar um espaço que contribuísse diretamente para o bem-estar dos pacientes. “A ideia surgiu ao percebermos que poderíamos transformar um local subutilizado em um ambiente acolhedor e terapêutico.” 

O local reúne brinquedos, atividades recreativas e uma horta. “As mudas são plantadas pelas próprias crianças e esse processo estimula o protagonismo infantil e contribui para o bem-estar emocional”, explica Thais. Além disso, o contato com o plantio também gera uma conexão positiva com o ambiente hospitalar. 

​​Já o uso de materiais reutilizados reforça o compromisso com a sustentabilidade. “Utilizamos móveis confeccionados com pneus e garrafas descartáveis para a confecção de mudas, o que fortalece a educação ambiental e o reaproveitamento consciente”, afirma. A iniciativa também apoia o trabalho das equipes assistenciais. “O espaço favorece a expressão de sentimentos, reduz o estresse​​ e facilita o vínculo.”

As atividades são planejadas para estimular o aprendizado e o acolhimento. “Realizamos ações como o cuidado com as plantas, rodas de conversa e orientações sobre autocuidado, sempre respeitando a faixa etária e a condição clínica de cada um.” 

​​Conforme a especialista, ​​os efeitos positivos são percebidos no cotidiano pelos pacientes e acompanhantes. “Recebemos diversos relatos de familiares que destacam a brinquedoteca como um diferencial no cuidado oferecido, evidenciando a redução da ansiedade durante a internação e o aumento do conforto emocional”, diz. 



CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
cejamoficial   


Dormir para emagrecer: especialista explica como a qualidade do sono é o "ingrediente secreto" da perda de peso

Entenda como a suplementação com magnésio e inositol pode transformar sua rotina

 

Muitas vezes, a busca pelo corpo saudável foca apenas em dietas restritivas e treinos intensos, ignorando um pilar fundamental do metabolismo: o descanso. Estudos recentes reforçam que uma noite de sono mal dormida pode sabotar qualquer plano alimentar. Para entender essa conexão, a Puravida, marca referência em nutrição de alta qualidade, explica como o ciclo circadiano influencia a balança e como a suplementação estratégica pode ser uma aliada. 

A ciência por trás dessa relação está no equilíbrio hormonal. De acordo com a Carla Fiorillo, nutricionista da Puravida, a privação de sono eleva significativamente os níveis de grelina, o hormônio que sinaliza a fome, enquanto reduz a leptina, responsável pela sensação de saciedade. Esse descompasso faz com que o corpo sinta uma necessidade instintiva de consumir alimentos mais calóricos e ricos em açúcar no dia seguinte, dificultando o controle da dieta e favorecendo o ganho de peso. 

Para uma boa noite de sono, a nutricionista recomenda três passos essenciais:

  1. Higiene do sono: desligue telas de luz azul (celulares e TVs) pelo menos uma hora antes de deitar-se. Isso permite que o corpo produza melatonina naturalmente;
  2. Janela alimentar: evite refeições pesadas e de difícil digestão muito próximas ao horário de dormir, para que a energia do corpo seja focada na reparação celular, e não na digestão;
  3. Suplementação: nutrientes como o magnésio e o inositol ajudam a acalmar o sistema nervoso central, facilitando a transição para o sono profundo.

Um dos destaques da Puravida para este objetivo é o Blue Calm. Formulado com magnésio bisglicinato, inositol, taurina e o tom azul natural da spirulina, o produto foi desenvolvido para ajudar o corpo a encontrar o relaxamento necessário. 

"O Blue Calm não é um sedativo, mas um suporte nutricional que oferece os nutrientes que o cérebro precisa para relaxar e entrar em um ciclo de sono de qualidade. Dormir bem ajuda nosso metabolismo a funcionar de uma maneira mais eficiente", afirma a nutricionista. 

Ao melhorar a qualidade do repouso, o organismo consegue realizar a síntese proteica de forma eficiente e manter os níveis de cortisol (hormônio do estresse) controlados, evitando o acúmulo de gordura abdominal.


Páscoa exige atenção redobrada com a saúde bucal: tipo de chocolate e excesso podem impactar dentes, alertam dentistas

Com variedade de ovos e novas composições no mercado, especialistas orientam cuidados, principalmente com crianças


Com a proximidade da Páscoa, celebrada no próximo domingo, aumenta também o consumo de chocolates e, com ele, a preocupação com a saúde bucal. A grande variedade de ovos disponíveis no mercado, com diferentes composições e níveis de açúcar, pode influenciar diretamente no risco de cáries e outros problemas dentários. 

Em 2026, os ovos com recheios cremosos, camadas de caramelo, biscoitos e outras texturas têm ganhado destaque nas prateleiras. Apesar de atrativos, esses produtos exigem ainda mais atenção. Ingredientes mais aderentes tendem a ficar retidos entre os dentes, favorecendo a proliferação bacteriana e dificultando a limpeza adequada. 

Segundo o cirurgião-dentista Gustavo Delmondes, da Benve Odontologia, o problema não está apenas no consumo, mas na forma como ele ocorre. “O risco aumenta quando o chocolate é consumido ao longo do dia, em pequenas quantidades repetidas, sem higiene adequada. Isso mantém a boca exposta ao açúcar por mais tempo”, explica. 

Os chocolates ao leite e os recheados, que costumam ter maior concentração de açúcar e gordura, estão entre os mais associados ao desenvolvimento de cáries. Isso porque o açúcar serve de alimento para bactérias presentes na boca, que produzem ácidos capazes de desgastar o esmalte dos dentes. Além disso, quanto mais pegajosa for a consistência do chocolate, maior tende a ser o tempo de permanência nos dentes, aumentando o risco de danos. 

A cirurgiã-dentista Cristiane Delmondes reforça que a escolha do tipo de chocolate também faz diferença. “Chocolates com maior teor de cacau tendem a ter menos açúcar e menor impacto na saúde bucal. Já os mais açucarados e com recheios pegajosos exigem atenção redobrada, principalmente na higienização após o consumo”, orienta. 

Entre as crianças, o cuidado deve ser ainda maior. Além da maior frequência de consumo durante a Páscoa, muitos ovos vêm acompanhados de brindes, o que estimula o consumo contínuo ao longo do dia. “É fundamental que os pais orientem e supervisionem a escovação, especialmente antes de dormir. Dormir sem higienizar os dentes após consumir chocolate aumenta significativamente o risco de cáries”, alerta Cristiane. 

Os especialistas também recomendam evitar o consumo excessivo próximo ao horário de dormir e incentivar a ingestão de água após o consumo de doces, o que ajuda a reduzir resíduos na boca. Manter uma rotina regular de escovação com creme dental com flúor e uso do fio dental é essencial para minimizar os impactos. 

“A Páscoa pode e deve ser um momento de celebração, mas o equilíbrio e os cuidados com a higiene bucal são fundamentais para evitar que o excesso de chocolate traga consequências indesejadas para o sorriso”, finaliza Gustavo.


Conscientização sobre o autismo avança, mas inclusão ainda é desafio no Brasil

Especialista alerta para a necessidade de políticas públicas efetivas e inclusão real de pessoas autistas na sociedade

 

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, no próximo dia 2 de abril, reforça a importância de ampliar o conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e, principalmente, de enfrentar os desafios que ainda impedem a plena inclusão dessas pessoas no Brasil. 

Embora o tema tenha ganhado maior visibilidade nos últimos anos, especialistas apontam que o país ainda enfrenta dificuldades na garantia de direitos básicos, como acesso à educação inclusiva, diagnóstico precoce e atendimento adequado na rede de saúde.

De acordo com o Defensor Público Federal André Naves, especialista em direitos humanos e inclusão social, o principal desafio está em transformar conscientização em ação concreta.

“Avançamos no debate público, mas ainda estamos distantes de uma inclusão efetiva. Muitas pessoas autistas e suas famílias enfrentam barreiras no acesso a serviços essenciais e na participação plena na sociedade”, afirma.

Entre os principais entraves, segundo o defensor, estão a falta de capacitação de profissionais, a escassez de políticas públicas integradas e o preconceito, que ainda limita oportunidades - especialmente no ambiente escolar e no mercado de trabalho.

André Naves destaca que a inclusão precisa ser pensada de forma estruturada, considerando as diferentes necessidades dentro do espectro autista.

“O autismo não é uma realidade única. É fundamental que políticas públicas sejam adaptáveis e centradas na pessoa, garantindo autonomia, dignidade e respeito às individualidades”, explica.

Outro ponto de atenção, segundo o especialista, é a inclusão produtiva. “Promover o acesso ao trabalho é essencial para garantir independência e participação social. Isso exige não apenas leis, mas mudança de cultura nas instituições e nas empresas”, ressalta.

A data também chama atenção para a importância do diagnóstico precoce e do apoio às famílias, que muitas vezes enfrentam desafios sozinhas diante da falta de estrutura adequada. Mais que conscientizar, o momento é de reforçar o compromisso coletivo com a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva.

Para saber mais sobre o trabalho de André Naves, acesse o site andrenaves.com ou acompanhe pelas redes sociais: @andrenaves.def.


Estudo aponta que cirurgia oferece maior sobrevida que ablação e quimioembolização em câncer de fígado inicial

Uma metanálise multicêntrica nacional, publicada no Journal of Liver Cancer, indica que a ressecção hepática está associada a maior sobrevida global e livre de doença em pacientes com câncer de fígado inicial multinodular quando comparada à ablação por radiofrequência e à quimioembolização transarterial. O estudo reúne dados de quase 3 mil pacientes e reacende o debate sobre os algoritmos de tratamento da doença em cenários nos quais o transplante hepático não é viável


A cirurgia pode oferecer uma vantagem concreta de sobrevida para pacientes com câncer de fígado em estágio inicial. Essa é a principal conclusão de uma metanálise multicêntrica nacional que avaliou diferentes estratégias terapêuticas para o carcinoma hepatocelular (CHC) multinodular em estágio inicial, classificado como BCLC-A. Publicado em 26 de fevereiro de 2026 no Journal of Liver Cancer, o estudo analisou dados de 2.869 pacientes e comparou os resultados da ressecção hepática com duas abordagens amplamente utilizadas na prática clínica, que são a ablação por radiofrequência e a quimioembolização transarterial. A pesquisa envolveu o A.C.Camargo Cancer Center, de São Paulo; a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e a Universidade Federal da Bahia. 

O carcinoma hepatocelular é o tipo mais comum de câncer primário do fígado e figura entre as principais causas de morte por câncer no mundo. No Brasil e em outros países com alta prevalência de hepatites virais, cirrose, síndrome metabólica e doença hepática crônica, o diagnóstico ainda costuma ocorrer em fases avançadas, o que limita as opções terapêuticas. Quando identificado precocemente, no entanto, o CHC pode ser tratado com intenção curativa. O desafio, segundo especialistas, está em definir qual estratégia oferece o melhor equilíbrio entre controle tumoral, preservação da função hepática e sobrevida a longo prazo, especialmente em pacientes com mais de um nódulo tumoral.

A metanálise agora publicada buscou responder justamente a essa questão. Por meio de uma revisão sistemática da literatura científica, os autores reuniram 15 estudos (dois ensaios clínicos randomizados e 13 estudos de coorte) que compararam diretamente a ressecção hepática com a ablação por radiofrequência e a quimioembolização transarterial em pacientes com CHC multinodular BCLC-A. Os desfechos analisados foram a sobrevida global, que mede o tempo de vida após o tratamento e a sobrevida livre de doença, que avalia o intervalo até a recidiva tumoral.

Os resultados mostraram que a cirurgia esteve associada a um ganho significativo em ambos os desfechos. Em comparação com a ablação por radiofrequência, a ressecção hepática apresentou melhora estatisticamente significativa da sobrevida global e, de forma ainda mais expressiva, da sobrevida livre de doença. O mesmo padrão foi observado quando a cirurgia foi comparada à quimioembolização transarterial, com vantagem consistente para a ressecção hepática.

O cirurgião oncológico Felipe José Fernández Coimbra, autor senior do estudo, explica que os dados ajudam a explicar um ponto que há anos gera controvérsia na literatura. “O que essa metanálise mostra, de forma bastante robusta, é que a ressecção hepática não deve ser vista como uma exceção nesses pacientes. Em indivíduos bem selecionados, com função hepática preservada, a cirurgia oferece um controle tumoral mais duradouro e se traduz em maior sobrevida”, afirma Coimbra, que é secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center. 

O benefício mais pronunciado foi observado na sobrevida livre de doença, um dado que, segundo os autores, reflete o maior controle local obtido com a retirada cirúrgica do tumor. Diferentemente das terapias locorregionais, que atuam destruindo o tecido tumoral in situ, a ressecção permite a remoção completa da área afetada, com margens de segurança, o que reduz o risco de recidiva precoce no mesmo segmento do fígado. “Quando conseguimos retirar o tumor com margem adequada, estamos reduzindo de forma importante o risco de persistência microscópica da doença. Isso explica, em grande parte, por que a sobrevida livre de doença favorece a cirurgia”, explica Coimbra.

Historicamente, os principais algoritmos internacionais de tratamento do CHC recomendam a ablação ou a quimioembolização para pacientes com doença multinodular em estágio inicial, reservando a cirurgia para casos de tumor único. Essa hierarquização foi construída com base no receio de altas taxas de recidiva e no risco de insuficiência hepática após a ressecção, sobretudo em pacientes com cirrose. O novo estudo, no entanto, sugere que essa lógica pode estar excessivamente restritiva.

“É importante destacar que não estamos defendendo cirurgia para todos”, ressalta Coimbra. “A mensagem central é que existe um grupo de pacientes, especialmente aqueles classificados como Child-Pugh A e alguns Child-Pugh B muito selecionados, nos quais a ressecção hepática é segura e oferece resultados oncológicos superiores. Ignorar essa possibilidade pode significar perder uma chance real de prolongar a vida desses pacientes”

A metanálise também chama a atenção pela qualidade metodológica. Diferentemente de análises anteriores, que utilizaram dados binários em pontos fixos de tempo, o novo trabalho empregou razões de risco extraídas de curvas de sobrevida, o que permite uma avaliação mais precisa dos desfechos ao longo do tempo e leva em conta pacientes censurados. Além disso, sempre que possível, foram priorizados estudos com ajustes estatísticos, como o pareamento por escore de propensão, para reduzir vieses de seleção.

Apesar dos resultados favoráveis à cirurgia, os autores reconhecem limitações importantes. A maioria dos estudos incluídos é observacional, o que implica risco inerente de viés, já que pacientes encaminhados para cirurgia tendem a apresentar melhor reserva funcional e condições clínicas mais favoráveis. Ainda assim, mesmo após análises de sensibilidade, o benefício da ressecção hepática se manteve consistente.

Outro ponto destacado no artigo é que a cirurgia envolve riscos maiores no curto prazo, como complicações pós-operatórias e um período de recuperação mais prolongado. Em contrapartida, técnicas como a ablação por radiofrequência e a quimioembolização são menos invasivas, preservam mais parênquima hepático e podem ser repetidas com relativa facilidade em caso de recidiva. A decisão terapêutica, portanto, deve ser individualizada e tomada em ambiente especializado e multidisciplinar.

De acordo com Felipe Coimbra, esse equilíbrio entre risco e benefício precisa ser discutido de forma transparente com o paciente. “A cirurgia não é isenta de riscos, e isso precisa ser ponderado. Mas quando olhamos para o horizonte de médio e longo prazo, especialmente em termos de sobrevida, os dados mostram que, em centros experientes, o benefício pode superar os riscos iniciais”, afirma.

O estudo também reforça a importância de que esses procedimentos sejam realizados em centros de alto volume, com equipes multidisciplinares especializadas em câncer de fígado. Avaliações detalhadas da função hepática, da presença de hipertensão portal e do estado funcional do paciente são fundamentais para minimizar complicações e maximizar os resultados.

Ao final, os autores defendem que os achados da metanálise justificam uma reavaliação dos algoritmos de tratamento atualmente adotados para o carcinoma hepatocelular multinodular em estágio inicial, ao menos nos cenários em que o transplante hepático não é uma opção imediata. “Os dados apontam para a necessidade de atualizar diretrizes e incorporar a ressecção hepática como uma alternativa prioritária em pacientes adequadamente selecionados”, acrescenta Coimbra. “É um movimento em direção a uma medicina mais personalizada, baseada não apenas em estadiamento, mas na real capacidade de cada paciente se beneficiar do tratamento”, conclui. 

Se confirmados por novos estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados, os resultados podem ter impacto direto na prática clínica e ampliar as opções curativas para um grupo de pacientes que, até agora, vinha sendo tratado predominantemente com abordagens não cirúrgicas.


Artigo científico 

Viana MFF, Braga AA, Carvalho LB, Vasconcellos DCMS, Alexandrino BCMR, Coimbra FJF. Liver resection versus radiofrequency ablation or transarterial chemoembolization for early multinodular BCLC-A hepatocellular carcinoma: a systematic review and meta-analysis. J Liver Cancer. 2026 Feb 26. doi: 10.17998/jlc.2026.02.21.

Disponível em https://e-jlc.org/journal/view.php?doi=10.17998/jlc.2026.02.21 

  

Felipe Coimbra – Médico cirurgião oncológico referência nacional e mundial em câncer abdominal, Felipe José Fernández Coimbra se graduou em Medicina pela Universidade Federal do Pará, fez Residência Médica em Cirurgia Geral na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e em Cirurgia Oncológica no A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. Atualmente é secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência de Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo. Presidiu a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncologia no biênio 2015-2017 e foi o primeiro brasileiro a presidir a Americas Hepato-Pancreato-Biliary Association (AHPBA), em 2019/2020. Faz parte do comitê científico internacional da International Hepato Pancreato Biliary Association (IHPBA) e é representante internacional da Society of Surgical Oncology Americana (SSO).



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