A data de 8 de abril lembra que a cada dia a
ciência avança no caminho da cura e da prevenção
O Dia Mundial de Combate ao Câncer,
celebrado em 8 de abril, evidencia um dos horizontes mais promissores para o
tratamento do câncer dos últimos anos. A ciência nunca esteve tão próxima de
oferecer a primeira vacina contra a doença, possivelmente entre este ano e
2027. Há mais de 150 ensaios de imunizantes em curso, voltados tanto à
prevenção quanto à cura, que apresentam resultados promissores e alimentam
esperanças.
A pesquisa avança rapidamente. Algumas
estão prestes a entrar na fase de testes em humanos, inclusive com participação
de brasileiros. Câncer de pulmão, de bexiga, pâncreas, melanoma e síndrome de
Lynch são alvos de adiantados ensaios de vacinas preventivas a serem aplicadas
em candidatos de alto risco, a exemplo de outras já conhecidas, como a do vírus
do papiloma humano (HPV), que reduz o risco de câncer de colo do útero e outros
tumores relacionados, e a da hepatite B, que previne o câncer de fígado.
“Essas novas abordagens, muitas
baseadas em plataformas de mRNA, DNA ou neoantígenos personalizados, buscam
estimular o sistema imunológico a atacar células tumorais específicas. “A
maioria ainda está em ensaios clínicos (fases 1 a 3), com resultados promissores,
mas sem aprovação geral para uso rotineiro”, observa o oncologista clínico
Fernando Medina, do Centro de Oncologia Campinas.
Na vacina de RNA mensageiro, chamada de
mRNA, as proteínas do câncer (neoantígenos) são identificadas para serem
utilizadas na fabricação do imunizante. O imunizante ajudará
temporariamente o organismo produzir antígenos específicos que ensinarão o
sistema imunológico a combater a doença. Por fim, o sistema imunológico
aprenderá a reconhecer essas proteínas e eliminá-las.
Trata-se da mesma tecnologia utilizada
na fabricação das vacinas contra a Covid, o que contribui para a rapidez e
desenvolvimento dos estudos. Determinados projetos saltaram da fase conceitual
para a preparação de testes clínicos em apenas três anos.
“Existem mais de 120 ensaios clínicos
com vacinas de mRNA apenas, abrangendo mais de 15 tipos de tumores sólidos,
além de vacinas de DNA (mais de 20 em desenvolvimento) e plataformas
off-the-shelf (prontas para uso, sem personalização). Os desafios incluem a
heterogeneidade dos tumores, o custo da personalização e a necessidade de
ensaios maiores para confirmar eficácia em larga escala”, resume o oncologista
Fernando Medina destaca a rápida
evolução de alguns estudos de vacinas preventivas contra o câncer:
Vacina
para síndrome de Lynch (NOUS-209): Alvo
de prevenção de cânceres hereditários, como colorretal, em pacientes com
mutações genéticas. Mostrou segurança e ativação imunológica em estudos
recentes.
Vacina
contra câncer de pulmão (LungVax): Desenvolvida
para pessoas de alto risco (como fumantes ou com histórico familiar), é a
primeira do mundo a visar a prevenção desse tipo de tumor. O ensaio de fase 1
deve começar em 2026 para avaliar segurança e dosagem em voluntários de alto
risco.
Vacinas terapêuticas
Há ainda o grupo de vacinas
terapêuticas personalizadas de mRNA, uma espécie de imunoterapia mais avançada,
que “ensinam” nosso sistema imunológico a reconhecer as células do câncer e a
combatê-las. Esse tipo de imunizante é aplicado após o diagnóstico da doença.
Dentre todos os estudos, o oncologista
acredita que a vacina contra o melanoma, um tipo agressivo de câncer de pele, é
a que está em fase mais adiantada.
“Vacinas personalizadas de mRNA em fase
3, combinadas com imunoterapia, reduziram em até 49% o risco de recidiva ou
morte por melanoma em pacientes após cirurgia, com dados de acompanhamento de 5
anos”, explica o médico.
Fernando Medina também destaca outras
de vacinas terapêuticas personalizadas:
- Câncer de pulmão (não
pequenas células (NSCLC):
Em fase 3 de estudos. É adjuvante, após quimioterapia e cirurgia. Foi
testada em combinação com imunoterapia para prevenir recidiva.
- Câncer de pâncreas: Vacina personalizada (como a Autogene Cevumeran)
em fase 2 mostrou resposta imunológica duradoura (até 4 anos em alguns
pacientes) e redução do risco de retorno após cirurgia.
- Câncer de bexiga: Estudos em fase 2 e 3, incluindo formas invasivas
e não invasivas, para tratamento adjuvante.
- Câncer renal (células
renais): Em fase 2, como opção
adjuvante após remoção do tumor.
- Câncer de mama: Inclui vacinas para subtipo triplo negativo (TNBC, como
a alpha-lactalbumin em fase 1/2) e HER2-positivo (WOKVAC e STEMVAC em fase
2). Focam em reduzir recidiva em estágios iniciais ou metastáticos.
- Glioblastoma (tumor
cerebral): Vacinas de mRNA ou dendríticas em
fase 2, testadas para ativar resposta contra antígenos tumorais
específicos.
- Câncer colorretal: Vacinas neoantigênicas em fase 2 e 3, especialmente
para casos com mutações KRAS ou em pacientes de alto risco.
- Câncer de ovário,
próstata, cabeça e pescoço e fígado: Diversas formulações (mRNA, DNA ou peptídeos) em
fases iniciais a intermediárias, muitas combinadas com outros tratamentos.
O otimismo quanto ao futuro das vacinas
é grande, porém, é preciso entender que apenas as vacinas não trarão cura ou
prevenção ao câncer. “O sucesso depende de combinações com imunoterapia,
quimioterapia ou inibidores de checkpoints. É preciso destacar também a
importância de assumir hábitos saudáveis, com boa alimentação e atividades
físicas, para prevenir as doenças”, reforça.
A cada dia, tratamentos mais inovadores
e menos invasivos se apresentam como esperanças no combate ao câncer,
mas ainda exigem acompanhamento rigoroso dos resultados clínicos. Pesquisas
continuam em ritmo acelerado em centros de todo o mundo. “Previsões indicam que
as primeiras aprovações de vacinas terapêuticas de mRNA podem ocorrer entre
2026 e 2027, começando possivelmente pelo melanoma”, finaliza Medina.
COC - Centro de Oncologia Campinas
Rua Alberto de Salvo, 311, Barão Geraldo, Campinas.
Telefone (19) 3787-3400.
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