Evidências mostram que episódios nos primeiros meses de vida — especialmente no outono, período mais propício ao aumento de infecções respiratórias — podem influenciar a saúde respiratória no longo prazo e reforçam o papel da prevenção desde a gestação
A bronquiolite é
uma das principais infecções respiratórias que afetam bebês nos primeiros meses
de vida e, embora muitas vezes seja tratada como um episódio agudo, evidências
mostram que seus efeitos podem se estender ao longo dos anos. Uma pesquisa recente,
publicada no periódico científico Pediatric Pulmonology, mostrou que crianças
hospitalizadas pela doença nos primeiros meses de idade apresentaram, na vida
adulta jovem, redução persistente da função pulmonar e sinais de obstrução das
vias aéreas, independentemente de fatores como asma ou exposição ao tabaco³.
“Esses achados
sugerem que a bronquiolite pode deixar uma ‘marca’ no sistema respiratório,
aumentando a chance de hiperreatividade brônquica”, afirma o infectologista Dr.
Guenael Freire, do laboratório São Marcos, da Dasa em Minas Gerais.
Além dos efeitos
pulmonares, há também registros de manifestações neurológicas associadas ao
VSR, embora raras. Uma análise conduzida pela Universidade do Arizona
identificou que cerca de 1,2% das crianças com bronquiolite por VSR
apresentaram complicações neurológicas, como convulsões e encefalopatia⁴. “Não
é o desfecho mais comum, mas mostra que o impacto do vírus pode ir além do
sistema respiratório, especialmente nos quadros mais graves”, acrescenta o infectologista.
Diante desse
cenário, a prevenção ganha ainda mais relevância - especialmente nos primeiros
meses de vida, quando o risco de complicações é maior. Um dos avanços recentes
é a vacinação materna contra o VSR. Dados publicados em 2025 pela Public Health
Scotland mostram que bebês cujas mães foram vacinadas durante a gestação
tiveram cerca de 80% menos riscos de hospitalização por infecção pelo vírus⁵.
“Quando falamos de
bronquiolite, não estamos lidando apenas com um quadro pontual. A inflamação
das vias aéreas ocorre em um momento em que o pulmão ainda está em
desenvolvimento, e isso pode influenciar a função respiratória dessa criança no
futuro. A prevenção contra o VSR evoluiu muito nos últimos anos. Hoje temos
estratégias complementares - como a vacinação materna e os anticorpos
monoclonais que ajudam a proteger o bebê justamente na fase mais vulnerável”,
explica Maria Isabel de Moraes-Pinto, infectologista e coordenadora em vacinas
na Dasa.
VSR responde
pela maioria das infecções respiratórias em bebês
Causada
principalmente pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR), a doença está
diretamente associada a quadros mais graves em crianças pequenas. No Brasil, o
vírus responde por cerca de 80% dos casos de bronquiolite e até 60% das
pneumonias em menores de dois anos, segundo dados de vigilância epidemiológica
baseados em registros do Ministério da Saúde e DATASUS¹.
O impacto também
aparece na evolução recente dos casos. Até outubro de 2024, foram registrados
22.282 casos de VSR em crianças menores de dois anos, dentro de um total de
26.285 notificações. No mesmo período de 2025, esse número chegou a 34.988
casos em menores de dois anos, considerando 42.450 registros totais — uma
variação de cerca de 60%. Já até novembro de 2025, o país contabilizou
aproximadamente 43 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG)
associados ao VSR, com impacto importante em bebês².
Uma estratégia que
vem ampliando a proteção dos recém-nascidos é o uso de anticorpos monoclonais
de longa duração, como o nirsevimabe (Beyfortus), indicado para prevenir
infecções por VSR em bebês. Diferentemente das vacinas, o medicamento oferece
proteção direta ao bebê por meio de anticorpos prontos, especialmente relevante
nos primeiros meses de vida.
Além das
estratégias clínicas, o acesso também passa a ser um fator importante na adesão
à prevenção. Serviços de atendimento domiciliar para vacinação têm ganhado
espaço como alternativa para famílias com recém-nascidos, ao permitir a
imunização no ambiente de casa, com mais conforto e menor exposição a ambientes
de circulação.
“Mais do que uma
infecção comum da infância, a bronquiolite passa a ser compreendida como um
possível marcador da saúde respiratória futura. Nesse contexto, prevenção,
acesso e acompanhamento ao longo do tempo ganham um novo peso no cuidado com os
pequenos. A facilidade de acesso faz diferença, principalmente para famílias
com bebês pequenos. Quando conseguimos levar a imunização até a casa do
paciente, reduzimos barreiras e ampliamos a proteção”, destaca a especialista.
Referências
1. Boletins Epidemiológicos – Ministério da Saúde
2. Dados
consolidados de SRAG e VSR – Ministério da Saúde / DATASUS (2024–2025)
3. Saarikallio S.
et al. Bronchiolitis in infancy and long-term lung function. Pediatric Pulmonology,
2025.
4. Bodensteiner JB et al.
Child Neurology Society – associação entre VSR e complicações neurológicas 5.
Public Health Scotland – RSV maternal vaccine report (2025)

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