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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Anvisa aprova tratamento para doença renal rara

O medicamento é indicado para adultos com Glomerulopatia por Complemento 3 (C3G), enfermidade que compromete a saúde dos rins2

 

 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o cloridrato de iptacopana para o tratamento de adultos com Glomerulopatia por Complemento 3 (C3G)[1]. Trata-se do primeiro medicamento disponível para tratar a C3G, uma doença renal rara que causa inflamação e danos aos glomérulos renais, responsáveis por filtrar o sangue e produzir a urina1,[2].

O medicamento destaca-se por ser o único inibidor oral da via alternativa do complemento que atua seletivamente no que se acredita ser a causa subjacente da doença, pois reduz a proteinúria (quantidade anormal de proteínas na urina)2,[3],[4]

Essa aprovação é importante para os pacientes com C3G, pois pela primeira vez está sendo disponibilizada uma terapia que trata o que acreditamos ser a causa da doença, oferecendo assim potencial para um novo padrão de cuidado”, informa Lenio Alvarenga, diretor médico da Novartis Brasil.

A submissão do medicamento foi baseada em dados do APPEAR-C3G, estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, envolvendo 74 adultos com C3G confirmada por biópsia, que apresentavam uma razão proteína/creatinina urinária (UPCR) ≥1 grama/grama e uma taxa de filtração glomerular estimada (eGFR) ≥30 mL/min/1,73 m² (NCT04817618)[5].

No estudo, os pacientes foram selecionados aleatoriamente para receberem o medicamento ou o placebo por 6 meses, seguidos de um período de tratamento aberto de 6 meses, no qual todos os pacientes receberam o cloridrato de iptacopana5. O desfecho primário de eficácia avaliou a variação percentual da proteinúria UPCR (relação de proteína/creatinina urinária) após 6 meses de tratamento5. Após 6 meses, observou-se uma redução de 35% em relação ao valor basal no UPCR de 24 horas no grupo do cloridrato de iptacopana em comparação ao placebo5.

Após o período inicial de 6 meses de tratamento, todos os pacientes foram tratados com o cloridrato de iptacopana por mais 6 meses5. Nos pacientes que receberam o cloridrato de iptacopana, a redução do UPCR de 24 horas observada aos 6 meses foi mantida aos 12 meses5. Nos pacientes que mudaram de placebo para o cloridrato de iptacopana, a magnitude da redução do UPCR de 24 horas entre 6 e 12 meses foi semelhante àquela observada nos pacientes inicialmente randomizados5.

No início deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) havia aprovado o cloridrato de iptacopana, medicamento da Novartis, como primeira monoterapia oral para tratar pacientes com Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN), outra doença rara que afeta as células do sangue[6].


Sobre o APPEAR-C3G

O APPEAR-C3G é um estudo multicêntrico de Fase III, randomizado, duplo-cego, em grupos paralelos e controlado por placebo, desenhado para avaliar a eficácia e a segurança do cloridrato de iptacopana oral (200 mg, duas vezes ao dia) em pacientes com C3G em rins nativos5.

O estudo compreende um período duplo-cego de 6 meses, no qual pacientes adultos foram randomizados na proporção 1:1 para receber o cloridrato de iptacopana ou placebo em conjunto com tratamento de suporte, seguido por um período aberto de 6 meses em que todos os pacientes recebem cloridrato de iptacopana (incluindo aqueles que previamente estavam no grupo placebo)5.

O desfecho primário para o período duplo-cego foi a redução da proteinúria em relação ao valor basal após 6 meses para o cloridrato de iptacopana em comparação ao placebo, medida da proteinúria de 24h estimada pela razão proteína/creatinina urinárias5.


Sobre a C3G

A Glomerulopatia por Complemento 3 (C3G) é uma doença renal rara, complexa e progressiva4,[7],[8]. A doença afeta pessoas de todas as idades, começando na infância e na vida adulta jovem4,8,[9]. De modo geral, a C3G é mais comum em homens do que em mulheres[10],[11],[12]. A cada ano, aproximadamente 1 a 2 novos casos de C3G por milhão de pessoas são diagnosticados em todo o mundo4.

O sistema complemento é uma parte fundamental do sistema imunológico inato do corpo, atuando como uma das primeiras linhas de defesa contra infecções2. Ele é composto por três vias: a via clássica, a via da lectina e a via alternativa do complemento[13],[14],[15].

Na C3G, a via alternativa do complemento torna-se desregulada, o que desencadeia a formação de depósitos da proteína C3 nos rins[16],[17],[18],[19]. Isso provoca inflamação e leva a uma lesão renal progressiva, culminando, eventualmente, na perda da função renal18,[20].

Entre os sintomas mais comuns dessa doença estão: proteína na urina (proteinúria), infecções recorrentes, fadiga, pressão arterial elevada, sangue na urina, ansiedade/depressão[21],[22].

Aproximadamente 50% dos pacientes com C3G evoluem para insuficiência renal em até 10 anos após o diagnóstico e necessitam de diálise e de transplante renal3,7.

 


Novartis
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Referências

[1] Diário Oficial da União. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-re-n-3.503-de-11-de-setembro-de-2025-655713494. Acesso em setembro de 2025.

[2] National Kidney Foundation. Disponível em: https://www.kidney.org/kidney-topics/complement-3-glomerulopathy-c3g. Acesso em setembro de 2025.

[3] Martín B, Smith RJH. In: Adam MP, Feldman J, Mirzaa GM, et al., editors. C3 Glomerulopathy. GeneReviews® [Internet]. Updated 2018. University of Washington, Seattle; 1993-2024. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK1425/. Acesso em setembro de 2025.

[4] Schena FP, Esposito P, Rossini M. A Narrative Review on C3 Glomerulopathy: A Rare Renal Disease. Int J Mol Sci. 2020;21(2):525.

[5] ClinicalTrials.gov. Study of Efficacy and Safety of Iptacopan in Patients With C3 Glomerulopathy. (APPEAR-C3G). Available from: https://clinicaltrials.gov/study/NCT04817618. Acesso em setembro de 2025.

[6] RESOLUÇÃO-RE Nº 320, DE 24 DE JANEIRO DE 2025FABHALTA. https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-re-n-320-de-24-de-janeiro-de-2025-608925463

[7] Lafayette R, Sidhu R, Proudfoot C, et al. Quality of life and fatigue burden in individuals living with Complement 3 Glomerulopathy – a real-world study. Nephrol Dial Transplant. 2024;39(Suppl 1).

[8] Smith RJ, Kavanagh D, Vivarelli M, et al. Efficacy and safety of iptacopan in patients with C3 glomerulopathy: 12-Month results from the Phase 3 APPEAR-C3G study. Presented at American Society of Nephrology (ASN) Kidney Week 2024; October 23-27, 2024; San Diego, CA

[9] Medjeral-Thomas NR, O’Shaughnessy MM, O’Regan JA, et al. Clin J Am Soc Nephrol. 2014;9(1):46-53

[10] Lee H, Kim DK, Oh KH, et al. Am J Nephrol. 2013;37(1):74-83.

[11] Bomback AS, Santoriello D, Avasare RS, et al. Kidney Int. 2018;93(4):977-985.

[12] Zahir Z, Wani AS, Gupta A, Agrawal V. Pediatr Nephrol. 2021;36(3):601-610.

[13] Merle NS, Church SE, Fremeaux-Bacchi V, Roumenina LT. Front Immunol. 2015;6:262.

[14] Thurman JM, Holers VM. J Immunol. 2006;176(3):1305-1310.

[15] Thurman JM. Adv Chronic Kidney Dis. 2020;27(2):86-94.

[16] Ahmad SB, Bomback AS. Adv Chronic Kidney Dis. 2020;27(2):104-110.

[17] Smith RJH, Appel GB, Blom AM, et al. Nat Rev Nephrol. 2019;15(3):129-143.

[18] Caravaca-Fontán F, Lucientes L, Cavero T, Praga M. Nephron. 2020;144(6):272-280.

[19] Sethi S, Vrana JA, Fervenza FC, et al. Nephrol Dial Transplant. 2017;32(3):459-465.

[20] Mastellos DC, Reis ES, Ricklin D, Smith RJ, Lambris JD. Trends Immunol. 2017;38(6):383-394

[21] National Kidney Foundation. Complement 3 Glomerulopathy (C3G): Knowing the Signs and Symptoms. Available at: https://www.kidney.org/atoz/content/complement-3-glomerulopathy-c3g-knowing-signs-and-symptoms. Acesso em setembro de 2025.

[22] National Kidney Foundation. The Voice of the Patient 2018. Available at: C3G_EL-PFDD_VoP-Report_3-29-18.pdf (kidney.org). Acesso em setembro de 2025.



Institut Pasteur de São Paulo investiga relação entre clima e saúde para antecipar riscos de epidemias

Estudo busca compreender como mudanças climáticas afetam doenças transmitidas por vetores e pretende transformar evidências científicas em políticas públicas de saúde.

 

As mudanças climáticas já não são apenas uma preocupação ambiental: seus impactos chegam cada vez mais ao setor da saúde. Doenças antes restritas a regiões tropicais começam a se espalhar para áreas temperadas, alterando o mapa global de riscos. Para enfrentar esse desafio, o Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) lidera, no Brasil, um estudo de ponta sobre a relação entre clima e saúde, com foco nas doenças transmitidas por vetores. O projeto integra a iniciativa internacional da Pasteur Network, que reúne mais de 30 institutos em 25 países, e conta com apoio da Rockefeller Foundation e do Institute of Philanthropy de Hong Kong. 

Conduzida pelo pesquisador Mauro César Cafundó de Morais, pós-doutor e cientista de dados, a pesquisa atua em quatro grandes eixos: ondas de calor e seus impactos na saúde; efeitos de eventos climáticos extremos; segurança alimentar e hídrica; e, de forma prioritária no Brasil, doenças transmissíveis por vetores sensíveis ao clima. Entre os focos estão as arboviroses já conhecidas da população brasileira — como dengue, zika, chikungunya e febre amarela — e doenças que exigem crescente atenção científica. É o caso da febre do Oropouche e do vírus do Nilo Ocidental, que já teve casos registrados no Ceará e no Piauí, mas ainda não provocou surtos. 

“As variáveis climáticas afetam diretamente a sobrevivência e a reprodução dos vetores, ampliando sua capacidade de transmitir doenças”, explica Morais. “O caso da febre amarela é emblemático: apesar da vacina eficaz e disponível, novas áreas do país vêm sendo classificadas como de risco, o que reforça a necessidade de vigilância constante.”

 

Desafios científicos e colaboração internacional – O estudo enfrenta um dos maiores desafios da ciência de dados aplicada à saúde: harmonizar informações de naturezas e escalas diferentes. Dados climáticos coletados quase em tempo real por satélites da NASA e do programa europeu Copernicus precisam ser integrados a bases nacionais de saúde, como o DataSUS, que operam em outra temporalidade. O IPSP também utiliza plataformas de ciência cidadã, como WikiAves e MapBiomas. Enquanto a primeira ajuda a rastrear aves migratórias — hospedeiras intermediárias de vírus como o do Nilo Ocidental —, o MapBiomas fornece informações sobre cobertura e uso do solo, incluindo desmatamento e queimadas. Esses dados são fundamentais porque a alteração de ecossistemas naturais modifica a distribuição de mosquitos e outros vetores, ampliando o contato com populações humanas e favorecendo a ocorrência de surtos. 

“O desafio científico está em conectar escalas distintas de dados de clima e saúde, garantindo qualidade e consistência para que sejam úteis na prática”, afirma o pesquisador. Essa complexidade é trabalhada em colaboração com instituições como o Instituto Butantan, a Fiocruz e centros da Pasteur Network na Ásia e na África. A troca de informações tem revelado semelhanças surpreendentes: no Vietnã, por exemplo, pesquisadores enfrentam problemas semelhantes aos do Brasil no combate à dengue, criando oportunidades de cooperação em escala global.

 

Do laboratório à saúde pública – Atualmente na fase de coleta e análise de dados, o projeto deve avançar para o desenvolvimento de modelos matemáticos e de aprendizado de máquina capazes de prever surtos com maior precisão. A meta é que esses modelos possam se integrar a sistemas já em operação, como o InfoDengue e o InfoGripe, que geram alertas de risco às secretarias de saúde. “Não existe vacina contra o aquecimento global, mas os dados climáticos podem nos ajudar a antecipar decisões de saúde pública”, ressalta Morais. 

O horizonte do estudo vai além da academia: até janeiro de 2027, a expectativa é gerar não apenas artigos científicos, mas também recomendações práticas — os chamados white papers — capazes de subsidiar gestores na formulação de políticas públicas e otimizar o uso dos recursos do SUS diante dos novos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

 

Saúde única e impacto social – A abordagem do projeto se insere no conceito de One Health (Saúde Única), que integra saúde humana, animal e ambiental. Além das arboviroses, os pesquisadores do IPSP também colaboram em estudos sobre leishmaniose na Amazônia, mostrando como mudanças climáticas, fatores sociais e ecológicos se combinam para ampliar riscos. 

“O conhecimento precisa sair da academia e chegar às políticas públicas. Só assim será possível enfrentar os impactos das mudanças climáticas com eficiência e equidade”, afirma Morais.

 

IPSP - Institut Pasteur de São Paulo



Alívio para o corpo e para a autoestima: como a mamoplastia redutora vai além da estética

Dor nas costas, assaduras, dificuldade para praticar atividades físicas e impacto na autoestima estão entre os principais motivos que levam mulheres a procurar a cirurgia

 

Ter seios volumosos pode parecer apenas uma questão estética, mas, para muitas mulheres, o tamanho excessivo das mamas representa um desafio diário. Dor nas costas, nos ombros e no pescoço, assaduras, marcas profundas do sutiã na pele e a limitação para praticar exercícios físicos são queixas comuns. Além do desconforto físico, o impacto emocional também é significativo: a dificuldade para encontrar roupas adequadas e a insatisfação com a imagem corporal afetam diretamente a autoestima. 

Segundo o cirurgião plástico Raphael Alcalde, a mamoplastia redutora é indicada justamente quando o tamanho das mamas compromete a saúde e o bem-estar da paciente. “É uma cirurgia que vai muito além da estética. Em muitos casos, ela é uma necessidade para devolver qualidade de vida, postura e confiança”, explica. 

A cirurgia é recomendada após uma avaliação médica criteriosa, que considera fatores como dores crônicas na coluna, ombros e pescoço, assaduras frequentes e dermatites sob as mamas, dificuldade para realizar atividades físicas ou profissionais e até mesmo os impactos psicológicos, como baixa autoestima e insatisfação com a imagem corporal. Além de reduzir o peso e o volume das mamas, o procedimento contribui para a melhora da postura, prevenção de problemas ortopédicos, mais liberdade de movimento e maior facilidade para praticar esportes. “Muitas pacientes relatam uma transformação na qualidade de vida. O alívio físico é imediato, mas o ganho emocional também é expressivo: elas voltam a se sentir bem com o próprio corpo”, afirma o médico. 

O especialista reforça que a mamoplastia redutora deve ser indicada e realizada por um profissional qualificado, com uma avaliação individualizada, exames pré-operatórios e planejamento seguro. “Cada paciente tem necessidades e expectativas diferentes. Nosso papel é unir técnica e segurança para alcançar um resultado harmonioso e, acima de tudo, saudável”, destaca.
 
 

Dr. Raphael Alcalde - Cirurgião plástico com mais de quinze anos de experiência, especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Atua com foco em contorno corporal e cirurgia reparadora, com MBA em Gestão Hospitalar e sólida experiência em urgência e emergência. É reconhecido pela precisão cirúrgica e pela abordagem ética e humanizada em seus atendimentos.



Outubro Rosa

Dr. Carlos Petta e Raquel Cossiello em
 laboratório de Fertilização in Vitro
Divulgação
Congelamento de óvulos preserva futuro após o câncer de mama

Estudo sueco mostra que pacientes que recorrem ao procedimento têm mais que o dobro de chances de gravidez

 

O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres em todo o mundo. No Brasil, representa 1 em cada 3 casos diagnosticados no público feminino e deve registrar 74 mil novos diagnósticos anuais até 2025, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Embora, quando identificado em estágios iniciais, a doença tenha chances de cura que superam 95%, o tratamento ainda pode trazer impactos irreversíveis à fertilidade.

Uma pesquisa publicada na revista científica JAMA Oncology (Marklund et al., 2020), conduzida por pesquisadores do Karolinska Institutet e Karolinska University Hospital, na Suécia, mostrou que a preservação da fertilidade aumenta em mais de duas vezes a chance de gravidez após o câncer de mama. O estudo comparou 425 mulheres que congelaram óvulos antes do tratamento com 850 que não recorreram ao procedimento. Após dez anos, 40,7% das que preservaram a fertilidade tiveram filhos, contra 15,8% do grupo que não o fez. Além disso, a taxa de sobrevida global foi semelhante entre os grupos, confirmando que o congelamento de óvulos não compromete a segurança oncológica. 

“Ouvir a notícia de que se tem câncer choca e desnorteia Muitas mulheres que ainda não têm filhos acabam se conformando de que não serão mães, já que salvar a vida é a prioridade. Mas é justamente nesse momento que entra a necessidade urgente de preservar os óvulos antes da quimioterapia, porque o tratamento destrói as células ovarianas e pode até induzir uma menopausa precoce”, enfatiza o ginecologista e especialista em reprodução assistida Dr. Carlos Petta, diretor da Clínica Fertilidade & Vida.

Especialista realiza procedimento de
 congelamento e armazenamento de óvulos
 Divulgação
 

Preparação simultânea

O processo de congelamento de óvulos leva em torno de 12 dias, tempo que, segundo Dr. Petta, pode ser aproveitado em paralelo à rotina inicial do diagnóstico. “Enquanto a paciente realiza exames, biópsia e recebe as indicações do oncologista, é possível preparar e coletar os óvulos. A quimioterapia é tóxica para tudo o que envolve divisão celular rápida no corpo — óvulos, embriões, mucosas. Aproveitar esse intervalo significa ter uma chance real de realizar o sonho da maternidade após o câncer”, frisa. 

Outro ponto de alerta é que a qualidade dos óvulos já não depende apenas da idade. Estilo de vida, estresse, má alimentação, noites mal dormidas, poluição e sedentarismo são fatores que comprometem a fertilidade feminina e também aumentam o risco de câncer de mama.

“É fundamental que o oncologista se coloque no lugar da mulher. Quando ela estiver curada, vai querer retomar a vida e pode desejar ter filhos. Precisamos pensar não apenas na cura do câncer, mas também nos sonhos e conquistas pós-câncer.”

 

Fertilidade & Vida
 

 

Muito além da moda: a creatina como aliada (ou não) na saúde da pessoa idosa


A suplementação com creatina é uma tendência na atualidade. No entanto, o quanto temos certeza sobre sua eficácia e segurança em pessoas idosas?
 

Infelizmente, no mundo tecnológico, muitas informações são disseminadas de forma errônea ou por pessoas menos informadas ou não tão bem formadas para fornecer tal aconselhamento em saúde. Primeiramente, a creatina já é produzida em nosso organismo e é uma substância importante em diversos mecanismos, especialmente na saúde muscular. De forma simples, a creatina atua potencializando a energia muscular, atuando em sua recuperação e permitindo que todo esforço feito em atividade física com a intenção de mantermos ou melhorarmos nosso rendimento muscular seja ainda mais efetiva. Isso pode ser ainda mais importante em idosos desnutridos, com condições que atinjam o músculo como fragilidade física ou sarcopenia e, finalmente, em pessoas mais velhas com atividade física mais intensa.

Um segundo ponto importante é a segurança em ingerir creatina suplementar. Se há uma boa indicação para seu uso, a creatina normalmente é segura. Algumas situações clínicas merecem maior discussão médica, como em pessoas com doenças renais, e de forma geral, recomenda-se uma individualização na prescrição de creatina. Esta última recomendação também envolve eficácia, além de segurança. Resultados positivos com a suplementação de creatina foram observados em estudos com pessoas idosas com atividade física regular e, no mínimo, moderada, como musculação durante 1 hora, 3 vezes por semana.

Uma ótima indicação de creatina seria para idosos sarcopênicos (baixa força e massa muscular), nos quais a creatina complementaria os tratamentos principais com atividade física resistiva (musculação) e nutrição com suplementação proteica. Neste cenário a creatina seria um potencializar do tratamento. Esta é uma observação muito importante. Idosos com boa nutrição e sedentários normalmente não são bons candidatos ao uso de creatina. Em termos práticos, a creatina tem uma boa expressão em derivados de carne. Por exemplo, 200 gramas de carne forneceriam 1 grama de creatina ao organismo. Se uma pessoa possui alimentação diversificada, bom estado nutricional e é sedentária, dificilmente ela necessitará de maior quantidade de creatina.

Para aqueles futuros usuários, com boa indicação, o uso deve ser diário em doses entre 3 e 5 gramas ao dia, podendo ser ajustada a uma dose ao redor de 0,1 grama por quilograma de peso. Um ponto a ser discutido é o melhor momento de se ingerir a creatina no dia da atividade física. Há uma possibilidade de melhor aproveitamento se ingerida após o treino, em um intervalo curto, para melhor aproveitamento muscular.

Finalmente, uma dúvida na literatura atual é sobre o menor rendimento da creatina em mulheres idosas. Mulheres têm maior reserva muscular de creatina e respondem de forma pior à suplementação, mas as razões definitivas deste pior rendimento permanecem obscuras. Concluindo, a creatina deve ter sua recomendação ou prescrição individualizada para cada pessoa idosa, sendo seu maior benefício em idosos com pior perfil nutricional e com necessidades de melhora de sua saúde muscular.




Dr. Ivan Aprahamian - médico geriatra e Diretor Científico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

 

Alimentos ultraprocessados: estamos diante de uma epidemia nutricional silenciosa?

Especialista alerta sobre o consumo excessivo de industrializados e o impacto na saúde física e mental de adolescentes.


Salgadinhos, refrigerantes, bolachas recheadas, refeições congeladas. O que antes era exceção, hoje é parte da rotina alimentar de milhões de brasileiros, especialmente entre os mais jovens. Práticos, baratos e saborosos, os alimentos ultraprocessados tomaram conta das prateleiras e, consequentemente, dos hábitos alimentares, mas não sem consequências para a saúde. 

Um levantamento brasileiro publicado em dezembro de 2024 na revista Nutrients, com mais de 15 mil participantes acompanhados por dez anos, revelou que o consumo frequente de ultraprocessados está diretamente ligado ao aumento de gordura abdominal, hipertensão, diabetes tipo 2 e doenças hepáticas. Também há evidências, dentro do próprio estudo, sobre o impacto na saúde mental: pessoas que ingerem mais esses produtos têm maior risco de desenvolver ansiedade e depressão. 

De acordo com a nutricionista Martha Amodio da health tech G7med, a explicação está na composição desses produtos: pobres em nutrientes essenciais e ricos em açúcares, gorduras, aditivos químicos e sódio. Essa combinação desequilibra o metabolismo, afeta a microbiota intestinal e interfere na produção de hormônios como leptina, grelina e cortisol, todos importantes para regular o apetite, o sono e o bem-estar. 

Além disso, os dados do Atlas Mundial de Diabetes de 2025 reforçam a preocupação da nutricionista. Entre 2011 e 2024, o número de pessoas com diabetes no Brasil passou de 12,4 milhões para 16,6 milhões. São mais de 4 milhões de novos casos em apenas 13 anos, muitos deles ligados ao estilo de vida e à alimentação. 

A especialista comenta que, nos consultórios, os reflexos já são analisados há muito tempo. Adolescentes apresentando queixas recorrentes de fadiga, baixa imunidade, dores de cabeça, alterações intestinais, oscilações de humor, coceiras, ansiedade e dificuldade de concentração. São sinais de alerta que os pais precisam observar, assim como o aumento de gordura abdominal e a recorrência de doenças ao longo do ano. “A alimentação afeta diretamente o sistema endócrino e o sistema nervoso. O corpo sente, e a mente também”, pontua a nutricionista. 

O consumo regular de ultraprocessados na infância e adolescência também pode comprometer o crescimento e o desenvolvimento. Deficiências de vitaminas e minerais essenciais são capazes de antecipar ou retardar a puberdade, além de causar desequilíbrios hormonais que afetam o desempenho físico e cognitivo.

 

O que fazer?

Frear essa possível epidemia nutricional exige mudanças individuais e políticas públicas. No dia a dia, é possível fazer escolhas melhores: dar preferência a alimentos in natura e minimamente processados — como frutas, legumes, arroz, feijão, ovos e carnes frescas —, evitar refrigerantes, sucos artificiais e embutidos, cozinhar mais em casa e prestar atenção aos rótulos. A regra prática é simples: quanto mais ingredientes estranhos à sua cozinha, maior a chance de ser um ultraprocessado. 

A classificação dos alimentos segundo o grau de processamento é dividida em quatro categorias. Os alimentos in natura são aqueles consumidos em seu estado natural, como frutas, verduras, ovos e carnes. Os minimamente processados incluem itens que passaram por alterações simples, como arroz, feijão e vegetais congelados. Já os processados envolvem alimentos que receberam sal, açúcar ou outros ingredientes culinários, como milho em conserva e pão caseiro. Por fim, os ultraprocessados são formulações industriais com muitos ingredientes e aditivos, como refrigerantes, sucos em pó, salsichas, nuggets e bolachas recheadas. 

“É importante promover ambientes alimentares mais saudáveis, seja em casa, nas escolas, nos espaços públicos. É o primeiro passo para proteger a saúde das próximas gerações. Alimentação é investimento em saúde, e, quando falamos da saúde dos jovens, estamos falando do futuro do país”, conclui Martha.

 

Martha Amodio - Nutricionista com 27 anos de experiência, especializada em Nutrição Clínica e Funcional. É educadora em diabetes pela IDF/SBD/ADJ, coordenadora de nutrição da revista Momento Diabetes e membro do Departamento de Educação da Sociedade Brasileira de Diabetes. Atua em consultório com foco em diabetes, doenças autoimunes, intestino e microbiota, e já palestrou em mais de 20 congressos nacionais e internacionais.

 

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