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sábado, 20 de julho de 2024

Dia do Amigo: maioria dos brasileiros desabafam mais com suas amizades do que com parceiros, diz estudo

Temas mais comuns vão das questões profissionais
 aos planos para o futuro, revelaram os entrevistados
à Preply

Se, mesmo durante um relacionamento amoroso, você prefere manter certas confidências apenas com suas amizades, saiba que não está só. É que, durante uma pesquisa em celebração ao Dia do Amigo, celebrado no Brasil amanhã (20), a maioria dos brasileiros revelaram desabafar muito mais com os amigos do que com seus parceiros e parceiras  — seja em relação aos dilemas de trabalho, questões familiares ou planos para o futuro. 

 

Os dados são da Preply, plataforma que, nas últimas semanas, pediu que entrevistados de todas as regiões revelassem detalhes sobre como se relacionam com seus círculos de amizades, entre os assuntos preferidos entre os confidentes, os apelidos carinhosos para se referir aos “camaradas” e os espaços mais propícios para desenvolver futuras relações de confiança.  

 

Durante o levantamento, cerca de 87% dos respondentes compartilharam bater papo com os “brothers” e “migas” diariamente ou algumas vezes por semana, em geral via aplicativos de mensagens como o Telegram e Whatsapp (86,2%). Na visão dos ouvidos, seriam três os assunto principais abordados nas conversas com seus amigos: tópicos profissionais (55,6%), lazer e entretenimento (53,2%) e atualizações sobre a vida diária (50,6%). 


 

Brasileiros desabafam mais com amigos do que com parceiros

 

Fofocas, desabafos, pedidos de conselhos… sendo os diálogos a base de qualquer amizade dentro e fora do Brasil, não surpreende que, durante o estudo, os brasileiros tenham compartilhado tantos detalhes sobre os bate-papos que costumam ter com seus amigos — na opinião da maior parte dos entrevistados (36,4%), o círculo social com quem mais desabafam, à frente dos parceiros amorosos (32,2%) e da própria família (21,2%). 

 

A regularidade das conversas, ao que tudo indica, é um ponto importante: cerca de 9 em cada 10 respondentes disseram interagir com seus colegas semanalmente ou todos dias, geralmente por meio de mensagens em apps como o Whatsapp e o Telegram (86,2%). Mesmo com suas praticidades, contudo, o digital divide espaço com os encontros presenciais, que seguem como os preferidos de 42,4% para matar a saudade dos queridos amigos.  


Ora, mas o que renderia tanto assunto para conversas que surgem nas redes sociais, se transformam em videochamadas e muitas vezes terminam nas mesas de bar? Provando que tudo vira assunto quando se está com alguém tão especial, os temas mais comuns nas conversas entre amigos não poderiam ser mais variados e passam por questões profissionais (55,6%), memes (45,2%) e indicações de filmes, livros e séries (53,2%).


Tão variados quanto os temas mais presentes nessas conversas são, ainda, os famosos apelidos e abreviações para se referir a um amigo no Brasil — “migo” (48,4%) sendo o mais comum entre elas, “irmão” (36,2%), o mais comum entre eles. Além dos dois, aparecem ainda, de forma geral, termos como “mano” (27,8%), “cara” (21%) e até mesmo “vey” (14,8%). 

 

Ambiente profissional é onde mais se faz novas amizades

 

Aparentemente, quem pensa que o ambiente profissional não é um bom lugar para se abrir com outras pessoas não poderia estar mais enganado: para 53,4% dos entrevistados pela Preply, esse é, na realidade, o local onde mais tendem a fazer amigos hoje em dia, ao lado dos eventos sociais (33,8%) e a escola ou universidade (31,6%). 


Mesmo com os espaços acima contrariando uma impressão geral — a de que círculos de amizades normalmente se desenvolvem fora dos estudos ou trabalho —, outros deles também foram eleitos os ideais para quem deseja conquistar novos parceiros para a vida, como os centros religiosos (28,6%), a internet (26,8%) e a academia (22,4%). Ou seja: pelo visto, opções (e oportunidades) não faltam!



Despreocupados com o lugar, o que vai ditar o sucesso da amizade são, segundo os respondentes, as características e valores que a sustentarão ao longo do tempo, entre os quais se destacariam a honestidade (76%), respeito (69,2%), lealdade (59,6%), bom humor (56%) e empatia (45,2%). 



Traição, inveja, falta de apoio: e quando a amizade chega ao fim? 

 

Embora não seja tão simples admitir para si mesmo, muitas vezes, é preciso aceitar: sim, aquela amiga de tantos anos está começando a deixar de fazer sentido, possivelmente prestes a chegar ao fim. Mas, afinal, por que isso acontece? 


As experiências dos entrevistados pela Preply podem até não responder, mas sem dúvidas ajudam a esclarecer tal questão. Isso porque, para 58% deles, o motivo número um que os faria dar adeus a um antigo amigo seria a falta de confiança, ao lado de comportamentos semelhantes como a inveja (39%) e traição (52,6%) — não raramente, interligados a depender da situação.


 

Isso não significa, de toda forma, que os respondentes atrelem o rompimento apenas a atitudes nocivas, como mostra o estudo. Na verdade, para 4 em cada 10 ouvidos, às vezes o fim se torna apenas uma consequência do distanciamento natural entre duas pessoas (42,6%), seja devido à falta de tempo ou priorização (13,8%), diferenças de valores ou interesses diferentes (31,2%). 

 

Metodologia 

 

Para desvendar o relacionamento das pessoas com os amigos, durante os dias 2 e 3 de julho, 500 brasileiros conectados à internet foram questionados sobre diferentes aspectos de suas amizades, entre detalhes como seus assuntos e apelidos favoritos, as características mais importantes para o sucesso de uma parceria e os principais motivos para dar fim a esse tipo de relação. Após a coleta e análise, as respostas dos entrevistados foram dispostas em diferentes rankings, nos quais é possível conferir o percentual de cada alternativa selecionada pelos ouvidos pela Preply. 

 

Preply
https://preply.com/pt/


Estudo revela: crianças que gostam de dinossauros têm melhor desempenho escolar

Samuel Nogueira
Crédito: arquivo pessoal
Avanços podem ser notados em disciplinas como Ciências e História, além de estimular a leitura e a prática da escrita 

 

Um estudo recente das Universidades de Indiana e Wisconsin revelou uma descoberta fascinante: o amor por dinossauros não é apenas uma fase passageira na infância, mas pode ter impactos significativos no desenvolvimento pedagógico das crianças. A pesquisa analisou o comportamento de crianças que demonstravam um intenso interesse por dinossauros. Os resultados indicaram que esses pequenos paleontólogos em formação não apenas alcançaram um desempenho pedagógico superior, mas também desenvolveram habilidades cognitivas mais avançadas em comparação com outras crianças na mesma faixa etária que não compartilhavam o mesmo interesse.

De acordo com os pesquisadores, o fascínio por dinossauros não se limita apenas ao conhecimento sobre esses gigantes pré-históricos, mas se estende a habilidades fundamentais no ambiente escolar. O estudo mostrou que crianças interessadas em dinossauros tendem a ter melhor concentração, perseverança e pensamento complexo. Essas habilidades são cruciais para o sucesso acadêmico e para o desenvolvimento pessoal dos alunos. Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa foi a constatação de que o interesse intenso por dinossauros pode servir como uma ponte para outros campos de estudo. Os pesquisadores observaram que crianças interessadas em dinossauros frequentemente exploram Biologia, Geologia, História e Matemátic, enriquecendo assim a compreensão do mundo ao seu redor.

Caleb Marim Gois, 13 anos, é uma criança cujo amor pelos dinossauros começou quando ele tinha ainda dois anos de idade. Desde os primeiros contatos com os animais pré-históricos por meio de brinquedos, programas de TV, visitas a parques temáticos e livros, o menino não só demonstrou um interesse genuíno, mas também um desejo de aprender mais sobre o assunto. “Sempre o apoiamos e deixamos que ele fizesse suas explorações livremente. Seu interesse desde então só tem aumentado e disseminado para outras áreas do conhecimento escolar. Atualmente, ele está lendo um livro extenso, em inglês, que mais parece uma enciclopédia sobre o tema”, conta a mãe, Micheline Gois, que coleciona várias fotos do menino desde muito pequeno, brincando com os dinossauros.


Escola compartilha aprendizagens por meio dos interesses dos alunos

O estudo também ressalta a importância de os educadores reconhecerem e valorizarem os interesses individuais de seus alunos. Ao incorporar temas que despertam paixão e curiosidade, os professores podem criar um ambiente de aprendizado mais estimulante e envolvente, capacitando os pequenos a explorarem seus interesses e a desenvolverem habilidades essenciais para o sucesso futuro. Foi assim que o pequeno Samuel Nogueira Fornasari, de 7 anos, aluno do Colégio Semeador, em Foz do Iguaçu (PR), começou a sentir um grande interesse pelo mundo dos dinossauros. No segundo semestre de 2023, a professora iniciou com a turma um projeto de pesquisa sobre o tema. E o aluno gostou tanto dessa incursão ao mundo pré-histórico, que o interesse só aumentou. Para engajar Samuel, a professora adaptou atividades incluindo dinossauros. E deu muito certo essa estratégia, já que o menino, que tem Transtorno do Espectro Autista nível 1 de suporte, melhorou o desempenho escolar em todas as disciplinas, comemora a mãe de Samuel, Aline Fornasari. “A disciplina que ele mais gosta é Ciências. Se você o coloca num laboratório, ele se destaca. Mas o fato de ele ter sido estimulado com os dinossauros contribuiu para o desenvolvimento em todas as matérias, além de ter aumentado o seu amor pelos animais”, afirma. 

De acordo com especialistas, o tema dinossauros ajuda a trabalhar noções de temporalidade. “As disciplinas de Ciências, História e questões referentes às formas e tamanhos, também explorando elementos do tempo histórico dos dinossauros, como vulcões e caverna, acabam por despertar a curiosidade, a observação e o raciocínio nas crianças”, destaca Simone Kleina Machado, coordenadora pedagógica do Colégio Positivo - Água Verde, em Curitiba. “Por serem animais que não fazem parte da nossa realidade, mas, sim, apenas do nosso imaginário, abordar o tema estimula a imaginação e a criatividade das crianças”, ressalta. “Como é um tema que desperta muito interesse nos alunos, eles definitivamente vão querer ver e estudar mais. Pedagogicamente é um ótimo assunto para estimular a leitura e a prática da escrita. O tema pode ser abordado em livros literários, experiências, brinquedos e brincadeiras”, sugere a professora. 

Esses dois casos destacam a importância do apoio da família e de como o estímulo à paixão pode moldar positivamente o desenvolvimento pedagógico de uma criança. “A família tem um papel importante na construção do conhecimento, participando na produção de materiais, mostras de trabalhos, pesquisas e experiências relacionadas ao tema, o que efetivamente aumenta a aprendizagem”, completa Simone.

 

Sono pós almoço? 5 dicas para manter a energia

Nutricionista soluciona problema que afeta o rendimento diário

 

Quem após uma refeição não sentiu a necessidade de deitar por alguns minutos e tirar um cochilo? O sono após o almoço é uma sensação normal associada a mecanismos fisiológicos da digestão. É a chamada "sonolência pós-prandial", que se trata de um fenômeno comum do ser humano. Em algumas culturas existe um tempo certo para que possam descansar e recuperar as energias, antes de retomar o trabalho. No entanto, muitas rotinas, não permitem esse tempo para a “sesta”. 

Segundo a Fúlvia Gomes, nutricionista e responsável pelo programa de nutrição Bio Nutri, da Bio Ritmo, além de exercícios, uma alimentação saudável e moderada pode ajudar a reduzir o cansaço e a sonolência durante o dia. Para isso, ela compartilhou cinco dicas para ajudar a recuperar a energia após o almoço.

 

Evite alimentos que causam sono

Alimentos ricos em triptofano, como leite, carnes, peixes, queijos, cereais e castanhas, têm maior propensão a causar sonolência. Portanto, evite consumi-los em grandes porções no almoço.

 

Cuidado com o açúcar e carboidratos

Alimentos doces ou ricos em carboidratos simples, como massas não integrais e pão branco, podem causar uma queda brusca nos níveis de açúcar no sangue, o que leva à sonolência. Por isso, é importante evitar o consumo desses alimentos para evitar esse efeito.

 

Priorize o café da manhã

Um café da manhã balanceado ajuda a manter os níveis de açúcar no sangue estáveis ao longo do dia. Assim, evite comer em excesso no almoço para não sentir a sensação de fadiga em seguida.

 

Mantenha-se hidratado

É fundamental beber água ao longo do dia para evitar confundir sede com fome. Segundo a OMS, o ideal é a ingestão de 35 ml diários para cada quilo. Tenha uma garrafa de água por perto e hidrate-se regularmente.

 

Exercícios contra o sono

Uma caminhada ao ar livre, por exemplo, pode ajudar a reabastecer seu cérebro com oxigênio. Ou até mesmo completar o trajeto a pé entre o restaurante e o escritório na volta do almoço é positivo. Se não for possível sair, abra a janela e respire profundamente por alguns minutos. Essas práticas simples podem fazer toda a diferença.


5 dicas de como enfrentar a Síndrome do Ninho Vazio de forma saudável

Psicóloga da FGV EAESP - SP e CEO da Uliving indicam maneiras de melhorar adaptação de pais e filhos quando estes saem de casa, atenuando o surgimento de Transtornos Mentais 

 

A Síndrome do Ninho Vazio é uma realidade comum para muitos pais quando seus filhos decidem seguir seus próprios caminhos e sair de casa, principalmente ao ingressarem em uma universidade. E, apesar de ser um processo natural e esperado, essa fase pode gerar sentimentos de tristeza, solidão e até mesmo culpa para ambas as partes, caso não lidem com ela de forma saudável. 

Segundo a psicóloga Maria Danielle Tavares, especialista no tema e atuante na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP), o primeiro passo para encarar a síndrome é a aceitação. “Não se trata de uma doença, mas sim de um conjunto de características e emoções que surgem com a mudança na dinâmica familiar, impactando a todos os envolvidos”, afirma.  

Se demorarem para aceitar esse período de transição, Maria ressalta que há uma chance maior de psicopatologias se formarem no caminho, como ansiedade e depressão. “Ao mesmo tempo que os pais sentem orgulho de ver os filhos partindo em busca dos seus sonhos, podem se sentir perdidos, sem saber quais são os seus novos papéis como cuidadores/responsáveis. Além disso, muitos jovens também não estão preparados para sair de casa e a saudade chega ao ponto de interferir em suas vidas cotidianas longe de casa”, complementa.  

Para ajudar as famílias a lidar com a Síndrome do Ninho Vazio, a psicóloga trouxe cinco dicas para reforçar aspectos como diálogo, planejamento e apoio entre os seus integrantes. Confira: 

  • Encontrar uma moradia adequada: acomodações bem estruturadas, seguras e acolhedoras são indispensáveis para essa nova etapa da vida do jovem. Na jornada acadêmica, por exemplo, o modelo de moradia que geralmente é o preferido dos pais por amparar os estudantes em todos os âmbitos dessa fase é o student housing. De acordo com Ewerton Camarano, CEO da Uliving, pioneira no segmento no Brasil e parceira da FGV-SP, esses espaços se destacam por serem pensados como “comunidades seguras, que garantem que o aluno tenha uma base sólida de apoio durante toda a sua vida universitária”.  
  • “Preparar o terreno” para a separação: Maria aponta que pais e filhos tendem a passar por uma fase de aceitação e adaptação menos sofrida quando não se separam de maneira abrupta. O próprio Camarano enfatiza que há algumas precauções que ajudam a não causar esse choque de realidade no momento em que os jovens estão começando uma jornada acadêmica, como “conhecer e se familiarizar com as prováveis cidades e regiões próximas das instituições de ensino e moradias universitárias antes do início dos cursos”, afirma o CEO.
  • Buscar outras fontes de apoio: investir em hobbies, cursos, novas amizades, trabalho voluntário ou retomar projetos profissionais antigos também são alternativas para diminuir os efeitos negativos da Síndrome do Ninho Vazio. Sobre isso, a psicóloga explica que “a mente passa a ter outros focos de atenção quando os pais se conectam com outras atividades e fontes sociais, que equilibram a preocupação com a nova fase da vida dos filhos”. 
  • Ajudar os filhos a focar na gestão emocional e de tempo: o auxílio dos pais nos desafios que os filhos passam a enfrentar fora de casa é imprescindível para lidar com a Síndrome do Ninho Vazio. Nas universidades, Camarano ressalta que estabelecer contato com pessoas que passam por esses mesmos obstáculos também pode trazer aprendizados importantes. “Os calouros que moram juntos em nossas moradias universitárias se identificam instantaneamente, já que são jovens que têm as mesmas demandas e podem se apoiar para organizarem suas rotinas de tarefas e lazer”, destaca.  
  • Buscar a comunicação ideal: a tecnologia pode ser uma grande aliada para manter um diálogo ativo quando os jovens estão estudando ou trabalhando a milhares de quilômetros de distância. Para a psicóloga, encontrar novas formas de interagir é fundamental, principalmente nas relações acostumadas com o contato físico. “Os pais devem investir em novas formas de comunicação com os filhos sem exercerem um controle excessivo, priorizando o amparo emocional”, conclui a especialista.

 

Uliving Student Housing



Julho

 

O tempo é uma invenção. Sabemos disso, mas não queremos saber, e achamos chato quem fica lembrando o tempo todo que o tempo não existe. “Como não existe? E essas marcas no rosto, nas mãos, nos braços, que carrego comigo, são o quê?” Não é o tempo, mas o oxigênio que oxida tudo. Não é o tempo, mas a gravidade, inflexível, a atrair tudo para próximo dos corpos com maior massa, alegria e desgraça de vivermos no planeta Terra; não é o tempo, mas o desgaste pelo uso repetido das peças do nosso corpo, máquina incrível, mas muito maltratada por nossa ignorância ou preguiça de ler o interminável manual de orientações sobre o uso correto dos pulmões, coração, estômago, rins, fígado, pele, cérebro. Não é o tempo, é a existência dos outros, que ficam aí se expondo para que comparemos, para que nos meçamos por suas réguas, por suas peles brilhantes e corpos esguios, por sua agilidade e desenvoltura. Não é o tempo. Mas é.

Chamamos de tempo essas marcas de mudanças. Cada volta da Terra em torno de si mesma, em torno do Sol. Chamamos de tempo para não precisar chamar rotação ou translação, porque o tempo não é só um tempo medido, é também um tempo sentido, algo que nos afeta. A medição é precisa, mas o sentimento não é preciso. O tempo voa, dizemos. O tempo não passa nunca. O tempo é cruel. O tempo é fugaz. Esse tempo, o tempo da nossa permanência no mundo, esse existe, e é nosso companheiro mais genioso e inconstante. Por isso, precisamos amarrá-lo a certos pontos fixos, para que não nos escape de vez. Porque, no fundo, precisamos dele, ou pelo menos precisamos desse uso que fazemos dele, como o traçado de uma seta em uma folha de papel, apontando para um lado. Quanto maior o tracejado, mais claro para nós que o alvo da seta está próximo. E o alvo alcançado é o fim do jogo. 

O mês de julho é um desses pontos que nos remete a um cálculo do tempo do jogo que resta. Julho é o meio. Diferente de janeiro, sempre alegre e promissor, e de dezembro, mais reflexivo e aliviado, julho é o mês do susto, quando percebemos que já foi metade do ano e ainda não cumprimos quase nada de nossas promessas de janeiro. E agora, logo, logo, chegará dezembro e então mais um ano, quando se renova a pergunta angustiante: “Até quando estarei nesse jogo?”.

Nas escolas, julho é o mês das pequenas férias, uma espécie de repositório das energias na preparação dos estudantes para a realização dos planos da vida ou, como diziam os Beatles, aquilo que passa velozmente enquanto estamos fazendo os tais planos. Pois é curioso o quanto nos preparamos para a vida enquanto a vida ocorre, pois o tempo não para. Pior é quando, já adultos e afundados nos afazeres do trabalho e na criação dos filhos, sonhamos com o momento em que poderemos finalmente parar e aproveitar o tempo. Apostamos que haverá esse tempo. Aposta perigosa, pois o tempo é esquivo, fugidio e se ausenta quando mais precisamos dele. Mesmo que não nos importemos quando ele é abundante, pois estamos preocupados em estarmos prontos para aproveitá-lo intensamente quando houver tempo para isso. Paradoxo.

Nessa invenção que é o tempo, esse tempo que nos atravessa, soprando baixinho em nossos ouvidos: “Estou aqui”, esquivamo-nos e ocupamo-nos febrilmente para olvidá-lo ou adiá-lo para um momento mais propício. Mas o momento também é o tempo, é uma das formas pelas quais ele se traveste, como o “Só um segundo, por favor”; o “Qualquer hora dessas a gente se vê”; o “Pra semana passo aí, sem falta”; o “Nossa, faz mesmo tantos anos assim desde o nosso último encontro?". Tudo é tempo. E não é.

Até que o tempo, cansado de esperar, vira-nos as costas. Fecha-se em copas. Some no horizonte, esvanece-se. E os que ficam dizem de si para si: “Lembram daquele tempo?”. “Ah, aqueles tempos é que eram bons”. 

E o tempo, que vê tudo, porque está em todos os lugares, ri um riso meio pesaroso: “Ah, se não tivessem desperdiçado aquele mês de julho preocupados com o que foi e com o que estava por vir…

 

Daniel Medeiros - doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.
@profdanielmedeiros

 

22/07 Dia Mundial do Cérebro, como a depressão atinge o órgão e faz do Brasil a população mais depressiva da América Latina


No Dia Mundial do Cérebro, a médica psiquiatra Dra. Jéssica Martani, especialista em comportamento humano e saúde mental, explica porque muitos transtornos mentais estão relacionados a desequilíbrios químicos e alterações na estrutura e função do cérebro. “Esse complexo órgão é o responsável por controlar todos os aspectos da vida e quando há desequilíbrios químicos, como na serotonina, dopamina, glutamato entre outros, juntamente com predisposição genética pode levar a transtornos mentais como depressão, ansiedade e até doenças mais graves como por exemplo a esquizofrenia”, diz. 

Quando a depressão se instala é porque, no cérebro, acontece várias mudanças químicas, estruturais e funcionais é um transtorno mental complexo que considera fatores biológicos, psicológicos e sociais. 

A médica explica que diversos neurotransmissores são fundamentais para a regulação do humor, sono, apetite e energia. “Alguns estudos já mostraram que pessoas com depressão podem ter um hipocampo menor, que é a região do cérebro envolvida na formação de novas memórias e está relacionado ao humor e às emoções, além disso, a amígdala, área que processa emoções como medo e prazer, pode estar hiperativa em indivíduos ansiosos e ainda, a doença pode afetar o córtex pré-frontal, que está envolvido na tomada de decisões, controle de impulsos e regulação emocional e assim pode haver uma redução no volume e na atividade dessa área”, explica. 

Quanto ao Brasil estar no topo dos país mais afetado pela doença, Dra. Jéssica fala que isso se deve a fatores genéticos, ou seja, a predisposição genética pode influenciar a suscetibilidade à depressão já que certos genes relacionados aos neurotransmissores e à resposta ao estresse podem aumentar o risco ou ter ligação epigenética que são os fatores ambientais podem modificar a expressão dos genes sem alterar a sequência de DNA, afetando a vulnerabilidade à depressão. 

Para proteger o cérebro contra a depressão, a psiquiatra afirma que a atividade física regular ajuda a aumentar os níveis de endorfinas e serotonina, que ajudam a melhorar o humor e reduzir o estresse, além do sono adequado e alimentação balanceada compõe o trio essencial para deixar a doença longe. “Mas, quando a depressão aparece, é importante reconhecê-la e tratar o quanto antes para que não evolua. Depressão tem tratamento, mas é preciso se cuidar e compreender que não é algo que se cura somente com “força de vontade”, por ser uma doença o apoio médico e psicológico é essencial, finaliza.  



Dra. Jéssica Martani - Médica psiquiatra, observership em neurociências pela Universidade de Columbia em Nova Iorque – EUA, graduada pela Universidade Cidade de São Paulo com residência médica em psiquiatria pela Secretaria Municipal de São Paulo e pós graduação em psiquiatria pelo Instituto Superior de Medicina e em endocrinologia pela CEMBRAP.
CRM 163249/ RQE 86127


Ansiedade: Conheça os principais sintomas e saiba controlá-los

Sentimento é necessário, mas em excesso pode interferir na vida cotidiana

 

A ansiedade é uma resposta natural do corpo ao estresse, medo ou apreensão sobre o que está por vir. Em níveis moderados, o sentimento é benéfico e necessário, pois ajuda a pessoa a se preparar para situações desafiadoras. A ansiedade passa a ser um problema quando se torna excessiva e interfere na vida diária, impedindo a pessoa de realizar tarefas corriqueiras. De acordo com o mapeamento global de transtornos mentais realizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2023, o Brasil possui a população com a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo. Dados desse ano, apontam que 26,8% dos brasileiros receberam o diagnóstico médico da doença. 

O professor de Psicologia da Universidade Veiga de Almeida (UVA), Daniel Lopes, explica que os transtornos de ansiedade têm muitas causas e podem variar, mas geralmente incluem uma combinação de fatores genéticos, biológicos, ambientais e psicológicos. “Alguns fatores comuns incluem histórico familiar de ansiedade, desequilíbrios nos neurotransmissores do cérebro, traumas, estresse crônico, abuso e experiências negativas na infância, condições médicas, como doenças cardíacas, diabetes ou problemas de tireoide, além da autocritica excessiva e necessidade de alto desempenho”, destaca. 

Os sintomas são diversos e podem se manifestar de diferentes formas, tanto fisicamente quanto emocionalmente. “É comum que ocorra aumento da frequência cardíaca, transpiração excessiva, tremores, tontura, problemas digestivos e dificuldade de respirar, além disso, pode gerar uma sensação persistente de preocupação, medo ou pânico”, complementa o especialista. Os tipos mais comuns de ansiedade são: 

  • Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) - preocupação excessiva e persistente sobre várias áreas da vida;
  • Transtorno do Pânico - episódios recorrentes de ataques de pânico;
  • Fobias - medo intenso e irracional de objetos ou situações específicas;
  • Transtorno de Ansiedade Social - medo extremo de situações sociais;
  • Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) - pensamentos intrusivos (obsessões) e comportamentos repetitivos (compulsões);
  • Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) - ansiedade após uma experiência traumática.

Na maioria das vezes, a busca por controle é um elemento que acaba ampliando a ansiedade. Para o professor, o importante é buscar entender o porquê do sentimento, praticar exercícios físicos, buscar atividades prazerosas e técnicas de relaxamento. “A respiração diafragmática, também conhecida como respiração abdominal, é uma técnica simples que pode ajudar a reduzir a ansiedade e promover relaxamento”, ressalta. Essa técnica ajuda a ativar o sistema nervoso parassimpático, que é responsável pelo relaxamento e redução do estresse.

 

Saiba como fazer a respiração abdominal: 

  • Encontre uma posição confortável - sente-se ou deite-se em um lugar tranquilo onde você possa relaxar;
  • Coloque uma mão no peito e outra no abdômen - isso ajuda a sentir o movimento da respiração;
  • Inspire lentamente pelo nariz - sinta o abdômen subir conforme você puxa o ar para os pulmões. O peito deve permanecer relativamente imóvel;
  • Expire lentamente pela boca - sinta seu abdômen descer enquanto você solta o ar. Tente fazer a expiração durar mais tempo do que a inspiração;
  • Repita - continue respirando dessa maneira por alguns minutos, focando no movimento do abdômen para cima e para baixo.

“Um psicólogo pode ajudar a identificar as causas subjacentes da ansiedade, fornecer estratégias práticas para lidar com os sintomas e apoiar o indivíduo na construção de uma vida mais equilibrada e saudável”, alerta Lopes. Segundo o professor, o objetivo do psicólogo é ensinar ao paciente habilidades de enfrentamento e resolução de problemas, além da regulação emocional e atuação em momentos de crise.


Traição durante a gravidez: especialista revela os traumas que o bebê de Iza pode enfrentar no futuro

Especialista explica sobre os impactos das emoções maternas no desenvolvimento do feto

 

A descoberta de uma traição durante a gravidez pode ter consequências profundas não apenas para a mãe, mas também para o bebê que ainda está por nascer. A recente revelação da cantora Iza, que descobriu a infidelidade de seu marido aos seis meses de gestação, levanta importantes questões sobre os impactos de um evento traumático como esse no desenvolvimento do bebê.

"Todas as emoções sentidas pela mãe são transmitidas para o bebê por meio de sinais químicos e hormonais, já que durante a gestação o feto está intimamente ligado às emoções da genitora. Situações de alto estresse e sofrimento, como a descoberta de uma traição, podem afetar o neurodesenvolvimento do feto", explica Telma Abrahão, renomada especialista em educação neuroconsciente, traumas e infância, e autora de 15 livros.

A especialista aponta que a exposição a altos níveis de estresse e emoções negativas durante a gestação pode predispor o bebê a uma série de desafios emocionais e comportamentais na vida adulta. "Bebês que foram expostos a traumas emocionais no útero podem desenvolver uma maior vulnerabilidade a transtornos de ansiedade, depressão e problemas de relacionamento. Além disso, eles podem apresentar comportamentos de insegurança, baixa autoestima e dificuldades em estabelecer vínculos afetivos saudáveis", alerta.

Durante a fase da gravidez, as emoções da mãe desempenham um papel fundamental no desenvolvimento do bebê. "A mãe pode experimentar um sofrimento emocional extremo causado por uma traição, como tristeza profunda, raiva, medo e sensação de abandono e quando isso acontece seu eixo HPA (hipotálamo-pituitária-adrenal) é ativado, aumentando a produção de cortisol, o principal hormônio do estresse. Esse aumento prolongado pode desregular o sistema, suprimindo o sistema imunológico, alterando o metabolismo, podendo causar diabetes gestacional e contribuindo para problemas de saúde mental como ansiedade e depressão. Para o feto, níveis elevados de cortisol podem atravessar a placenta e afetar o desenvolvimento cerebral, restringir o crescimento e aumentar a susceptibilidade a distúrbios de estresse e metabólicos na vida adulta", destaca a especialista.

Telma Abrahão sugere que, embora os impactos sejam significativos, existem maneiras de mitigar esses efeitos. "É fundamental que a mãe receba apoio emocional adequado durante e após a gestação. Terapias de suporte, como a psicoterapia, podem ajudar a mãe a processar suas emoções e reduzir os níveis de estresse. Além disso, práticas de autocuidado e técnicas de relaxamento, como a meditação e a respiração consciente, podem ser benéficas tanto para a mãe quanto para o bebê", recomenda.

A especialista enfatiza a importância de um ambiente de apoio para a mãe durante esse período crítico. "A presença de uma rede de suporte, incluindo familiares, amigos e profissionais de saúde mental, é fundamental para ajudar a mãe a lidar com a situação e criar um ambiente mais positivo para o desenvolvimento do bebê", conclui Telma Abrahão.




Telma Abrahão - biomédica, especialista em Neurociências e desenvolvimento infantil e uma das pioneiras no Brasil a unir ciência à educação dos filhos. Idealizadora da Educação Neuroconsciente, que ‘nasceu’ da necessidade de levar o conhecimento sobre a neurociência por trás do comportamento infantil para mães, pais e profissionais da saúde e da educação. Telma Abrahão é autora dos best-sellers “Pais que evoluem” e “Educar é um ato de amor, mas também é ciência” e lança seu terceiro livro “Revolucione a relação com seus filhos em 21 dias”. Seus livros são vendidos em mais de 15 países e ajudam milhares de pessoas ao redor do mundo a se reeducarem para melhor educar. Ela também escreveu 12 obras exclusivas para o Leituras Rápidas da Amazon com o objetivo de abordar temas que ajudam os pais a lidarem com os desafios na educação dos filhos.
@telma.abrahao


Perturbações cerebrais na infância podem levar a transtornos psiquiátricos na vida adulta

Grupo da USP investigou a neurobiologia dos efeitos comportamentais
 decorrentes de crises convulsivas na infância, utilizando
 roedores como modelo animal
imagem: Rafael Naime Ruggiero et al./FMRP-USP
Pesquisadores brasileiros realizaram uma extensa investigação sobre os impactos de crises convulsivas durante o desenvolvimento. Resultados podem orientar novas formas de tratamentos para autismo, transtorno de déficit de atenção, esquizofrenia e epilepsia

 

Os primeiros anos de vida são cruciais para o desenvolvimento adequado e a maturação do cérebro. Perturbações cerebrais nessa fase, como lesões, infecções, estresse ou desnutrição, podem afetar profundamente a função cerebral e o comportamento por toda a vida. Crises convulsivas são as ocorrências neurológicas mais comuns nessa idade e constituem fatores de risco significativos para a incidência de distúrbios do neurodesenvolvimento, como autismo, transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e deficiência intelectual, bem como de esquizofrenia e epilepsia.

Estudo realizado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) com apoio da FAPESP investigou a neurobiologia dos efeitos comportamentais decorrentes de crises convulsivas na infância, utilizando roedores como modelo animal.

Liderado pelo pesquisador Rafael Naime Ruggiero, sob supervisão do professor João Pereira Leite, o estudo contou com a colaboração de cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E foi publicado no periódico eLife.

“Os efeitos das crises na infância não estão associados à morte de neurônios, mas sim a disfunções moleculares, celulares e de redes neurais. Descobrimos que ocorre um aumento persistente de inflamação no cérebro, associada a alterações comportamentais relevantes para autismo e esquizofrenia”, diz Ruggiero.

Além da neuroinflamação, os pesquisadores observaram uma relação inesperada entre a neuroplasticidade (isto é, a capacidade de o cérebro se modificar) e a cognição. “Embora contássemos com essa relação, verificamos que o fortalecimento das conexões neurais decorrentes das crises na infância é ainda mais exagerado do que supúnhamos, sugerindo um nível alto de neuroplasticidade. Vale ressaltar que tanto pouca quanto muita plasticidade levam a prejuízos cognitivos. Além de déficits de atenção e memória, essa facilidade em fortalecer conexões neurais pode explicar o maior risco de que indivíduos que sofreram convulsões na infância desenvolvam epilepsia na idade adulta”, informa Ruggiero.

Outra descoberta bastante intrigante foi a de que, em indivíduos que sofreram crises na infância, a atividade cerebral em estado ativo de vigília apresenta uma semelhança acima da esperada com a atividade cerebral durante o sono REM [sigla decorrente da expressão em língua inglesa rapid eye movement, ou movimento rápido dos olhos]. “Como o sono REM é o estágio em que ocorrem os sonhos mais vívidos, essa semelhança poderia explicar processamentos sensoriais atípicos, que ocorrem especialmente na esquizofrenia”, afirma Danilo Benette Marques, coautor do artigo. Ele e colaboradores associam essa condição a um excesso de dopamina.

“Na clínica, as epilepsias apresentam uma alta taxa de comorbidades psiquiátricas, ou seja, de transtornos mentais que ocorrem junto com a doença neurológica. Existe uma forte associação com autismo, deficiência intelectual e transtorno de déficit de atenção, bem como com condições psiquiátricas que se manifestam na idade adulta, como a esquizofrenia e outros transtornos psicóticos. Estima-se que 30% dos indivíduos com autismo também apresentem epilepsia. Esta interseção complexa entre neurologia e psiquiatria é um dos principais focos de nossas pesquisas nos últimos anos”, comenta Pereira Leite, coordenador do estudo em pauta e pesquisador responsável pelo Projeto Temático FAPESP “Epilepsias farmacorresistentes: desafios diagnósticos, estudo das comorbidades associadas e novas abordagens experimentais”.

“Por muitos anos, acreditou-se que as alterações cognitivas e comportamentais associadas à epilepsia fossem resultado da morte progressiva de neurônios nas regiões cerebrais afetadas pelas crises epilépticas. No entanto, verificamos que indivíduos que experimentaram crises convulsivas na infância, mesmo sem desenvolver epilepsia na vida adulta, apresentam maior incidência dessas mesmas condições psiquiátricas”, continua Pereira Leite.

Ruggiero acrescenta que, similarmente ao que ocorre na clínica, roedores expostos a convulsões nos primeiros dias de vida apresentaram uma série de alterações comportamentais na vida adulta. “O que mais nos intrigou foi que, tanto em humanos quanto em roedores, as crises no início da infância não causam morte neuronal. Por isso, nossa hipótese foi a de que o funcionamento de redes neuronais poderia ter sido afetado. É importante destacar que, nos transtornos psiquiátricos, a perda neuronal não é uma característica proeminente. Acreditamos que alterações no funcionamento de redes neurais específicas possam ser identificadas em diferentes transtornos mentais e sejam responsáveis por um conjunto comum de sintomas”, diz.

Os pesquisadores examinaram as alterações comportamentais em roedores por meio de uma série de testes. Dentre as mudanças mais marcantes, descobriram que os animais afetados apresentavam hiperlocomoção, ou seja, uma agitação espontânea persistente, e dificuldades no filtro sensório-motor. Esse filtro é responsável pela capacidade de o cérebro filtrar informações sensoriais e respostas motoras de forma eficaz, distinguindo estímulos relevantes e irrelevantes em ambientes conturbados e regulando respostas exageradas. No tratamento da esquizofrenia, medicamentos antipsicóticos são utilizados para reduzir esses comportamentos.

“Verificamos que modelos animais que replicam aspectos biológicos do autismo também mostram alterações marcantes nesses mesmos testes. Este conjunto de alterações sensório-motoras está fortemente associado a mudanças perceptivas e comportamentais observadas na clínica, como hiperatividade no TDAH, alucinações na psicose e hipersensibilidade a ambientes estimulantes no transtorno do espectro autista [TEA]. Ao mesmo tempo, nosso estudo também revelou um prejuízo cognitivo na chamada ‘memória de trabalho’, aquela que usamos para guardar temporariamente informações, como um número de telefone, e depois esquecemos. Ela é essencial para atividades que exigem atenção, planejamento e raciocínio. Esse tipo de memória é severamente afetado na esquizofrenia e em transtornos do neurodesenvolvimento, o que se reflete em pensamento desorganizado, dificuldades de aprendizado e déficit de atenção”, conta Ruggiero.

Diante da descoberta de que as convulsões na infância não causavam morte de neurônios, os pesquisadores se perguntaram onde ficariam localizadas as marcas cerebrais por trás dessas alterações comportamentais. “Em estudo anterior, verificamos que muitos dos efeitos comportamentais das crises na infância correspondem a funções cognitivas e comportamentais que dependem do hipocampo [região do cérebro crucial para a formação da memória e integração sensório-motora], do córtex pré-frontal [responsável pelo planejamento, atenção e controle emocional], bem como da comunicação entre elas. Por isso, estabelecemos como hipótese que essas regiões poderiam ser boas candidatas para conter as disfunções neurais relacionadas às alterações comportamentais oriundas das perturbações cerebrais na infância”, responde Ruggiero.

Um dos achados mais marcantes do estudo foi a presença de inflamação no cérebro dos animais que sofreram crises na infância. O processo de neuroinflamação é natural e fundamental para o cérebro no combate a infecções e na recuperação de lesões. No sistema nervoso, os principais responsáveis por esse papel são as células da glia, como os astrócitos, que, diante de injúrias cerebrais, aumentam sua atividade, expandindo-se, ramificando-se, multiplicando-se e tornando-se prontas para lidar com quaisquer danos cerebrais. Assim, uma maneira de investigar a neuroinflamação no cérebro é pela marcação de uma proteína chamada GFAP, que está presente no esqueleto dos astrócitos. Seus níveis são bons indicadores da ativação destas células.

“Embora não ocorra lesão de fato de neurônios, as convulsões na infância resultam em um aumento do processo neuroinflamatório. Observamos esse aumento em todas as regiões cerebrais examinadas. Além disso, os níveis de inflamação estavam significativamente correlacionados com as alterações comportamentais, especialmente àquelas sensório-motoras, mais relevantes para o autismo e a esquizofrenia”, relata Matheus Teixeira Rossignoli, outro dos autores do estudo.

Não é exatamente novidade que o TEA e a esquizofrenia estejam associados à neuroinflamação. Em 2005, uma análise post-mortem de cérebros de indivíduos com TEA apresentou vários indícios de neuroinflamação. No caso da esquizofrenia, a relação com a inflamação é ainda mais evidente. Em 2017, foi relatado o caso de um paciente com esquizofrenia que apresentou remissão completa dos sintomas após um transplante de medula óssea – processo que substitui completamente o sistema imunológico original do paciente. Também existem relatos de casos inversos, nos quais pacientes sem esquizofrenia desenvolveram o transtorno após transplante de medula óssea de um indivíduo que sofria de alucinações e delírios, como relatado em 2015.

Além desses transtornos, casos de doenças autoimunes cerebrais, nas quais o sistema imunológico ataca o próprio cérebro, levando à sua inflamação, comumente apresentam sintomas típicos de confusão mental, alucinações e delírios, muitas vezes sendo diagnosticados como transtornos psicóticos, mas não respondendo aos tratamentos convencionais.

O presente estudo liga esses pontos, mostrando como as convulsões na infância representam um importante gatilho para uma neuroinflamação desregulada que pode persistir até a vida adulta. Assim, intervenções para interromper esse processo poderiam possivelmente aliviar ou prevenir o desenvolvimento de alterações comportamentais a longo prazo. “Uma perspectiva otimista dos achados é que as alterações comportamentais não estão necessariamente ligadas à morte neuronal, que é irreversível, mas sim a disfunções neurais potencialmente reversíveis com tratamento. Isso sugere que, mesmo após perturbações cerebrais na infância, há oportunidades de intervenção que podem melhorar o funcionamento cerebral e comportamental ao longo da vida. Porém, quanto mais precoce a intervenção, maior a garantia de se promover um desenvolvimento saudável e de se prevenir complicações no futuro”, conclui Ruggiero.

A pesquisa também recebeu apoio da FAPESP por meio de bolsas de pós-doutorado concedidas a três integrantes da equipe de pesquisadores: o próprio RuggieroMatheus Teixeira Rossignoli e Danilo Benette Marques.

O artigo Dysfunctional hippocampal-prefrontal network underlies a multidimensional neuropsychiatric phenotype following early-life seizure pode ser encontrado em: https://elifesciences.org/articles/90997.

 


José Tadeu Arantes
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/perturbacoes-cerebrais-na-infancia-podem-levar-a-transtornos-psiquiatricos-na-vida-adulta/52234



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