Muita gente acredita que tomar boas decisões é uma espécie de dom, que ou a pessoa “nasceu com isso” ou está condenada a escolher mal. Contudo, a neurociência e a psicologia cognitiva mostram o contrário, que decidir bem não depende apenas de inteligência ou sorte, mas é uma habilidade treinável.
Um
dos aspectos mais intrigantes é que, muitas vezes, seu cérebro decide
antes de você saber. Parte da atividade neural
envolvida na escolha acontece antes de ela chegar à consciência. Isso não
elimina nossa liberdade, mas revela que decidir é resultado de processos
complexos, muitos deles automáticos, que antecedem a nossa percepção
consciente.
Além
disso, a tomada de decisão não é uma função isolada. Ela é fruto da integração
de várias funções
executivas como atenção, controle
inibitório, regulação emocional, memória de
trabalho e flexibilidade cognitiva. Ou seja, decidir bem
exige foco, contenção de impulsos, organização de informações, avaliação de
cenários e capacidade de ajuste.
Daniel
Kahneman ajuda a compreender esse processo ao descrever dois modos de
pensar. O Sistema
1 é rápido, intuitivo e econômico, útil em
situações familiares ou que exigem agilidade, mas suscetível a vieses. O Sistema
2 é mais lento, analítico e
deliberado, essencial para decisões complexas, embora mais custoso em
termos de energia mental. Boas decisões pedem discernimento para saber
quando confiar na agilidade do Sistema 1 e quando e como acionar a profundidade
do Sistema 2.
Também
é um erro imaginar que decidir bem seja escolher “pela razão” e excluir as
emoções. Emoções não são inimigas da lucidez, visto que elas trazem informações
valiosas. O problema surge quando dominam completamente o processo ou quando
são ignoradas. Boas decisões exigem, portanto, equilíbrio entre razão e emoção.
O
mesmo vale para instinto e intuição. O instinto
é mais primário, ligado à sobrevivência. Já a intuição costuma vir da
experiência e da leitura sutil de padrões. Ambos podem ajudar, mas não
devem substituir a análise criteriosa em decisões complexas.
Mas
veja, tão importante quanto saber decidir é saber quando não decidir. Cansaço, estresse, fome, prazos curtos ou excesso de
informação comprometem a qualidade das escolhas, levando o cérebro a buscar
alívio imediato ao invés de boas decisões. Por
isso, também é essencial buscar dados confiáveis, reconhecer vieses inconscientes, alinhar a
decisão aos seus valores e objetivos de longo prazo e considerar
seu impacto no coletivo. Afinal, decidir
nunca é um ato neutro e as nossas escolhas individuais também reverberam nos
outros.
Tomar
uma boa decisão não é um processo simples. Por isso mesmo em meu
livro “Neurociência Positiva”, dedico todo um capítulo a
essa tão importante Função Executiva e apresento um fluxograma de tomada
de decisão não para dar respostas prontas, mas
para estimular perguntas melhores. Porque a qualidade da decisão depende menos
de certezas imediatas e mais de clareza. Treinar essa habilidade é
treinar a forma como conduzimos a própria vida.
Juliana Zellauy - especialista
em Neurociência e Comportamento, com formação em Psicologia Positiva e
em Mindfulness, autora de “Neurociência Positiva – Uma rota
prática para cultivar o equilíbrio, desenvolver clareza mental e viver com mais
leveza”.

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