Apenas 17,4% das empresas brasileiras são lideradas por mulheres, segundo o Panorama Mulheres 2025. O dado ajuda a dimensionar o tamanho do desafio quando o assunto é equidade de gênero no mercado de trabalho e revela que, apesar dos avanços, a presença feminina em posições de comando ainda está longe de ser proporcional.
Esse cenário contrasta com o que já começa a acontecer no setor público. Um estudo do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos mostra que as mulheres ocupam cerca de 43% dos cargos de liderança no Executivo Federal. Nos postos mais altos, o crescimento também chama atenção, saindo de 29% em 2022 para 38% em 2026. Ainda que a equidade não tenha sido alcançada, os números indicam uma mudança estrutural em curso.
É nesse contexto que a discussão sobre maternidade ganha relevância. A proximidade do Dia das Mães costuma reacender uma pergunta recorrente: afinal, é possível conciliar carreira e maternidade sem que uma dimensão anule a outra? A resposta passa menos por escolher entre caminhos e mais por compreender como essas experiências se transformam mutuamente ao longo do tempo.
Dentro desse cenário, a maternidade segue sendo um dos pontos mais sensíveis da trajetória profissional das mulheres. Não apenas pelo desafio logístico de conciliar rotinas, mas principalmente pela carga simbólica e pelas expectativas sociais que recaem sobre esse papel. Existe, muitas vezes, uma cobrança silenciosa para que mães performem com excelência em todas as frentes, como se não houvesse espaço para adaptação ou reconfiguração de prioridades.
Na prática, porém, o que se observa é que a maternidade não interrompe carreiras. Ela as ressignifica. Ao assumir esse papel, muitas profissionais desenvolvem competências cada vez mais valorizadas em ambientes corporativos complexos, como capacidade de priorização, escuta ativa, gestão de tempo, resiliência e tomada de decisão com visão de longo prazo. Não se trata de romantizar o desafio, mas de reconhecer que essa vivência amplia repertórios e influencia diretamente a forma de liderar.
Um exemplo recorrente no mercado é o de mulheres que ingressam ou se reposicionam profissionalmente durante ou após a maternidade. Em um desses casos, uma profissional descobriu a gestação de forma inesperada, em um momento em que planejava mudanças pessoais e profissionais. O impacto inicial veio acompanhado de inseguranças comuns a muitas mulheres, especialmente diante da dúvida sobre como o mercado reagiria à nova realidade.
Ao longo do tempo, essa experiência foi ressignificada. A maternidade trouxe mais clareza sobre prioridades, fortaleceu a capacidade de organização e ampliou a percepção sobre o próprio papel dentro das equipes. Ao participar de um novo processo seletivo já como mãe, um aspecto chamou atenção: a ausência de questionamentos sobre sua condição. Mais do que um detalhe, esse tipo de postura evidencia uma mudança importante na forma como algumas organizações começam a enxergar talento e potencial.
Esse tipo de ambiente faz diferença porque o desafio de conciliar carreira e maternidade não é individual. Ele depende diretamente de cultura organizacional, de lideranças preparadas e de estruturas que compreendam que vida pessoal e profissional não competem entre si. Quando essa lógica muda, o impacto é coletivo. Relações de trabalho se tornam mais sustentáveis, decisões mais equilibradas e a produtividade deixa de estar associada a jornadas exaustivas para se conectar com entregas mais consistentes.
Outro ponto relevante é o papel da rede de apoio. Em carreiras que exigem alto nível de responsabilidade e dedicação, como no setor jurídico, a maternidade adiciona uma camada extra de complexidade. Profissionais que vivenciam essa realidade relatam que o equilíbrio não é estático, mas construído diariamente, com ajustes constantes e necessidade de suporte, tanto no âmbito pessoal quanto no profissional.
É justamente nesse contexto que a liderança ganha um papel central. Ambientes que reconhecem a maternidade como parte da trajetória, e não como obstáculo, tendem a reter talentos, fortalecer suas equipes e construir culturas mais diversas. E diversidade, neste caso, não é apenas uma pauta institucional, mas um diferencial competitivo concreto.
A evolução dos números de participação feminina em cargos de liderança mostra que o mercado já começou a se movimentar. O próximo passo é aprofundar essa transformação, garantindo que mais mulheres possam avançar sem que a maternidade seja vista como um ponto de ruptura.
No fim, a discussão não se resume à conciliação de papéis. Trata-se de entender que experiências diferentes constroem lideranças mais completas. Quando a maternidade deixa de ser tratada como um desvio de rota e passa a ser reconhecida como parte do desenvolvimento profissional, o resultado aparece não apenas na trajetória das mulheres, mas na qualidade das decisões, das relações e dos próprios negócios.
Aymeê Gurjão - Head de Marketing do Paschoini Advogados, escritório especializado em direito empresarial, tributário, trabalhista e civil. – E-mail: paschoini@nbpress.com.br.
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