Barkus defende que riscos de experiências digitais que priorizam a conversão e defende decisões financeiras mais conscientes como parte da sustentabilidade dos negócios
A
facilidade para contratar crédito e realizar transações financeiras no ambiente
digital pode comprometer a qualidade das decisões de consumidores e
empreendedores quando a experiência prioriza a conversão em vez da reflexão. Em
um cenário de endividamento recorde no Brasil, o desafio das empresas é
conciliar praticidade, engajamento e responsabilidade financeira, como alerta
Gabriel Orsi, CPO da Barkus, fintech de educação financeira e inclusão
financeira.
“O
avanço das plataformas digitais transformou a relação das pessoas com os
serviços financeiros. Contratações feitas em poucos cliques, ofertas
personalizadas, cashback e mecanismos de gamificação tornam a experiência mais
ágil e atraente. O problema surge quando esses recursos deixam de facilitar o
acesso e passam a estimular decisões impulsivas, sem que o usuário avalie
adequadamente os custos e as consequências de suas escolhas”, afirma o
especialista.
Dados
da Serasa apontavam 83,7 milhões de brasileiros inadimplentes em junho de 2026,
o maior número da série histórica. Já o Banco Central registrou, em março de
2026, comprometimento de 49,8% da renda acumulada das famílias com dívidas ao
longo de 12 meses. O comprometimento da renda com o serviço da dívida chegou a
29,3%. Os números reforçam a importância de discutir não apenas o acesso ao
crédito, mas também as condições em que as decisões financeiras são tomadas.
Quando
a experiência influencia a decisão - Recursos como recompensas,
notificações, ofertas por tempo limitado e jornadas simplificadas podem
aumentar o engajamento, mas também reduzir o espaço para uma avaliação
consciente. Quando a experiência é desenhada principalmente para acelerar a
contratação ou ampliar o volume de transações, o interesse comercial pode se sobrepor
à compreensão do consumidor sobre o produto financeiro.
Uma
revisão sistemática publicada em 2026 no Journal of Behavioral and
Experimental Finance, de autoria de Rizwan e colaboradores, analisou 43
estudos sobre o tema e identificou riscos associados a práticas manipulativas em
ambientes financeiros digitais, incluindo maior propensão a operações
excessivas e redução da percepção de risco.
“O
ponto não é abandonar a tecnologia ou tornar os serviços mais burocráticos. É
reconhecer que a experiência digital também influencia o comportamento
financeiro. Para as empresas, isso significa avaliar se os recursos utilizados
ajudam o cliente a tomar uma decisão adequada ou se apenas diminuem as
barreiras para concluir uma operação”, diz o CPO da Barkus.
A
responsabilidade das empresas vai além da conversão - A
discussão interessa especialmente a instituições financeiras, fintechs,
plataformas de crédito e negócios que incorporam serviços financeiros à jornada
de compra. Indicadores como número de contratações, frequência de uso e taxa de
conversão são importantes, mas não contam toda a história sobre a qualidade da
relação com o cliente.
Uma
experiência bem-sucedida precisa considerar também a compreensão das condições
contratadas, a capacidade de pagamento e a sustentabilidade do relacionamento
no longo prazo. Quando o consumidor assume compromissos que não consegue
manter, os efeitos podem aparecer na inadimplência, na perda de confiança e no
desgaste da relação com a marca.
Para
Orsi, o desafio está em equilibrar conveniência e responsabilidade. A
tecnologia pode ampliar o acesso a produtos financeiros, mas precisa ser
acompanhada de informação clara, transparência e mecanismos que favoreçam
escolhas conscientes. A inclusão financeira não se resume à possibilidade de
contratar um serviço: depende também de como ele é utilizado e dos efeitos que
produz na vida de quem o contrata.
Nesse
cenário, a educação financeira deve fazer parte da própria experiência digital,
em vez de aparecer apenas como uma iniciativa paralela. Explicações acessíveis
sobre custos, alertas proporcionais aos riscos e informações que permitam
comparar alternativas ajudam o consumidor a entender as implicações de uma
decisão antes de confirmá-la.
“O
desafio para as empresas é construir jornadas que conciliem facilidade de uso,
objetivos comerciais e bem-estar financeiro. Em um mercado cada vez mais
digital, a sustentabilidade dos negócios também depende da capacidade de
estabelecer relações duradouras e de confiança com os clientes”, conclui o
executivo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário