Adiar atividades pode estar relacionado à dificuldade de lidar com o desconforto emocional; atenção, planejamento e controle de impulsos participam da capacidade de começar e concluir tarefas
Adiar uma tarefa importante, mesmo sabendo que isso pode
trazer consequências, é uma experiência comum. No trabalho, nos estudos ou na
vida pessoal, a procrastinação costuma ser interpretada como falta de
disciplina ou preguiça. Pesquisas sobre o comportamento, porém, apontam que o
adiamento também pode estar relacionado à maneira como lidamos com emoções
desagradáveis e com a expectativa de uma recompensa futura.
Levantamento da Triad PS, citado em publicações sobre o
tema, aponta que sete em cada dez trabalhadores brasileiros procrastinam com
frequência. Já uma pesquisa da plataforma Onlinecurrículo, realizada com 500
brasileiros, identificou que 38,4% gostariam de abandonar o hábito de
procrastinar. Os resultados ajudam a dimensionar a relevância do tema, embora
investiguem aspectos diferentes do comportamento.
A procrastinação pode funcionar como uma forma de evitar
temporariamente o desconforto provocado por uma tarefa. Atividades percebidas
como difíceis, entediantes ou ameaçadoras podem despertar ansiedade,
insegurança ou medo de errar. Ao adiá-las, a pessoa sente um alívio imediato,
mas esse benefício tende a ser passageiro: a tarefa continua pendente e pode
gerar ainda mais preocupação.
“Adiar uma tarefa nem sempre significa falta de vontade ou
de capacidade. Muitas vezes, a pessoa sabe o que precisa fazer, mas tem
dificuldade de lidar com o desconforto de começar. Compreender o que está por
trás desse comportamento é um passo importante para desenvolver estratégias
mais eficazes”, afirma Patrícia Lessa, diretora pedagógica do Supera.
O que as habilidades
cognitivas têm a ver com isso?
A capacidade de iniciar, organizar e concluir atividades
envolve diferentes processos cognitivos. Entre eles estão as funções
executivas, conjunto de habilidades que participa do planejamento, da manutenção da atenção, da memória de trabalho e do
controle de impulsos.
Esses processos ajudam a pessoa a manter o objetivo em
mente, organizar etapas e resistir a distrações ou recompensas imediatas. Isso
não significa que a procrastinação seja causada exclusivamente por uma
dificuldade cognitiva: fatores emocionais, ambientais e individuais também
podem influenciar o comportamento.
Estratégias como dividir uma atividade em etapas menores,
estabelecer um primeiro passo concreto, reduzir distrações e reconhecer as
emoções associadas à tarefa podem ajudar a tornar o início menos difícil.
Quando o adiamento é persistente e causa sofrimento ou prejuízos importantes,
também pode ser útil buscar orientação profissional.
“Desenvolver atenção, planejamento e controle de impulsos é
importante para lidar com desafios do cotidiano. O objetivo não é eliminar todo
desconforto, mas aprender a organizar as ações mesmo quando uma tarefa não é
prazerosa ou parece difícil”, complementa Patrícia.
A estimulação cognitiva propõe atividades que exercitam diferentes habilidades
mentais por meio de desafios e experiências variadas. Embora essas habilidades
sejam relevantes para a autorregulação, não se deve concluir que o treinamento
cognitivo, isoladamente, previna ou trate a procrastinação. A relação entre o
exercício dessas capacidades e a redução do adiamento ainda precisa ser
investigada diretamente.
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