No que me vale minha experiência, concluo que é de escassa valia discutir crenças em geral. As pessoas formam convicções e dificilmente as submetem ao crivo de uma análise de possibilidade, ou de demonstrabilidade. Quem foi feito crente raramente verifica os fundamentos do seu credo; nem sequer dispõe-se a conferir se as suas convicções resistem a argumentos contrários.
Suponho,
talvez presunçosamente, que pouquíssima gente pensa em coisas assim: por que
creio no que creio? A simples hipótese de sacudir as próprias certezas espanta.
Os crédulos cultivam uma “racionalidade” fundada no é porque é, logo é. Ponto e
pronto. São raciocínios viciosos, que se alimentam circularmente, e satisfazem
vidas com baixo índice de indagação.
De regra
sustenta-se uma crença com a própria crença a demonstrar. A isso, em Lógica ou
em Filosofia, chama-se tautologia. É deveras difícil vencer o é porque é, logo
é. Ora, se é, então é, e dê-se por resolvido. Se há uma “explicação” simples,
para que complicar? Aí o desconforto com a ciência: a ciência suspeita até da
ciência, conflita metodicamente o mundo, logo, conflita-me.
A ciência,
porém, no tanto que pesquisa e explica fenômenos, não complica, mas
complexifica a compreensão do mundo. Complicar é tornar confuso. Complexificar
é recusar o simplismo. O mundo não é mesmo simplesinho, tampouco é complicado.
Apenas existem mais coisas entre as crendices populares e a realidade dos fatos
do que se apreende em perfunctória investigação.
Como
expediente didático, divide-se a ciência em áreas: exatas, biológicas, sociais,
humanas etc. As evoluções nas ciências exatas, em geral, são recepcionadas sem
o crivo da opinião popular. Inventos da física ou da química são desde logo aceitos
e incorporados à vida cotidiana. Se as evoluções atingem os costumes e a moral
dominantes, contudo, são recebidas com ressabio.
As ciências
que tratam dos aspectos morais vigentes transitam mui custosamente. É que seu
objeto são as questões ideológicas, as quais são ideologicamente consideradas.
Seja dizer: nós pensamos sobre ideologia em geral (em tese) a partir de nossa
posição ideológica particular (em concreto). Isso gera um impasse difícil de
superar. Não opomos suspeição a nós mesmos.
Seria possível
despir-me da minha moral para estudar as variadas morais? Conseguiria minimizar
meus valores enquanto observo outros valores? Não creio. São temas de
ideologia. Ideologia é a matéria do pensamento. Ninguém pensa sem ideologia.
Pensa-se a partir de uma ideologia. Qual a possibilidade científica, então, de estudar
as ciências que tratam dessas questões?
Aprender a
surfar ideias: não controlo as crenças do mundo (ideologias), como o surfista
não controla as ondas do mar. O surfista não deslisa mergulhado nas ondas;
põe-se livre sobre elas. Do mesmo modo, eu tenho que fazer um esforço de
surfista e me por, tanto quanto possível, desapegado dos valores em geral. Não
é fácil. Poucos percebem a possibilidade e se animam a tanto.
A quem
tentar, se lhe abrirão horizontes. Os contentes se satisfarão com credulidades cultivadas
por um sistema de repetição de crenças. Pessoalmente, desde que aprendi a me
espreitar, por ceticismo metódico, abandonei certezas. Livros de História me
ensinaram a origem das fés do meu tempo: mostram de onde vieram, quem as
inventou, quando, com que interesse.
O mundo é efeito de relações de poder. Crenças são um negócio como outro qualquer. Os valores que subsistem são os de quem teve força para infundi-los e mantê-los. Eles fazem o mundo ser como é. É libertário indagar-se. Sugiro examinar as próprias convicções. Consegui descomprometer-me das minhas; debato-as; renuncio a elas ao surgir de outras que aprimorem a vida.
Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC
Psicanalista e Jornalista.
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