No Dia do Fisiculturista (30/10), especialistas explicam a importância do treino, da alimentação e do descanso e alertam para os riscos dos anabolizantes e da busca excessiva pelo corpo ideal
Ganhar massa
muscular e conquistar definição corporal exige mais do que horas na academia.
No fisiculturismo, modalidade que valoriza o desenvolvimento, a proporção e a
definição dos músculos, os resultados dependem de treinamento planejado,
alimentação adequada, descanso e acompanhamento profissional. O Brasil vem
ampliando sua presença no cenário da modalidade. Em setembro de 2026, 55
atletas brasileiros estavam confirmados no Mr. Olympia, principal competição
mundial de fisiculturismo. Somado a isso, o Panorama Setorial Fitness Brasil
apontou que o número de academias registradas no país passou de 22.581, em
2015, para mais de 60 mil, em 2025. Embora os dados não indiquem diretamente o
número de fisiculturistas, ajudam a contextualizar a expansão do setor.
O ganho de massa
muscular, conhecido como hipertrofia, depende de estímulos adequados, execução
correta dos exercícios e recuperação suficiente. Aumentar as cargas de forma
abrupta ou treinar em excesso não garante melhores resultados e pode elevar o
risco de lesões.
Segundo o Dr.
Fabrício Buzatto, médico e professor de Medicina do Esporte e Fisiatria da Afya
Educação Médica Vitória, o treinamento deve respeitar o ritmo de adaptação do
organismo, incluindo músculos, tendões e articulações. “O ganho muscular
acontece de forma progressiva. Não basta levantar mais peso ou forçar o corpo
além dos próprios limites. É preciso permitir que os tecidos se adaptem ao
treinamento”, explica.
O planejamento
deve considerar a experiência e as condições de cada praticante. Cansaço
persistente, queda no rendimento e dificuldade de recuperação podem indicar
excesso de treinamento. “Treinar mais não significa, necessariamente, ter
melhores resultados. O exercício só contribui para a evolução quando o
organismo consegue se recuperar”, alerta Buzatto.
Alimentação
e suplementos: o que é necessário para ganhar massa?
Uma alimentação
equilibrada fornece a energia e os nutrientes necessários para o treinamento e
a recuperação muscular. As proteínas participam da construção dos músculos, os
carboidratos fornecem energia e as gorduras desempenham funções importantes no
organismo. Na fase de ganho de massa, pode ser necessário consumir mais energia
do que o corpo gasta. Já na etapa de definição, o objetivo costuma ser reduzir
a gordura corporal preservando a musculatura. Em ambos os casos, dietas muito
restritivas devem ser evitadas.
A Dra. Juliana
Couto Guimarães, médica e professora de Nutrologia da Afya Educação Médica
Montes Claros, destaca que os resultados dependem da combinação entre
alimentação e treinamento. “Para ganhar massa muscular, não basta comer mais. É
necessário consumir energia e nutrientes em quantidades adequadas aos objetivos
de cada pessoa, junto a um treinamento de força bem orientado”, explica.
A especialista também
ressalta que suplementos não são obrigatórios para todos. O whey protein pode
ajudar a complementar a ingestão de proteínas, enquanto a creatina pode
favorecer o desempenho e os ganhos de força e massa muscular quando associada
ao treinamento. Nesse sentido, Dra. Juliana destaca que a necessidade de
suplementação depende da alimentação, dos objetivos e das condições de saúde de
cada pessoa.
Descanso
e saúde cardiovascular
O desenvolvimento
muscular também depende da recuperação. Por isso, dormir bem e respeitar os
intervalos entre os treinos ajudam o organismo a reparar os tecidos e a se
adaptar aos exercícios. A falta de descanso pode favorecer a fadiga e
prejudicar o desempenho.
A preparação
também exige atenção à saúde cardiovascular, principalmente quando envolve
treinos intensos e cargas elevadas. O Dr. Anderson Estevan, médico e professor
de Cardiologia da Afya Educação Médica Goiânia, explica que algumas doenças
podem permanecer sem sintomas. “A avaliação médica ajuda a identificar
problemas que nem sempre provocam sinais evidentes e que podem aumentar o risco
durante o exercício. Com essas informações, é possível orientar a prática de
acordo com as condições de saúde de cada pessoa”, afirma.
Pessoas com
hipertensão, diabetes, colesterol elevado ou histórico familiar de doenças
cardíacas podem precisar de cuidados específicos. Dessa forma, exames podem ser
solicitados conforme a avaliação individual. Dor ou pressão no peito, falta de
ar desproporcional ao esforço, desmaio e palpitações acompanhadas de mal-estar
são sinais de alerta para que o exercício seja interrompido, e em casos de
sintomas intensos ou persistentes, deve-se buscar atendimento médico imediato.
Anabolizantes:
riscos que vão além da aparência
O uso de
esteroides anabolizantes sem indicação médica pode provocar aumento da pressão
arterial, alterações do colesterol, problemas no fígado, mudanças hormonais e
comprometimento da fertilidade. “Os anabolizantes podem provocar um aumento
anormal do músculo cardíaco e alterar o funcionamento do coração, favorecendo
arritmias, insuficiência cardíaca e até morte súbita”, complementa Estevan.
Outras estratégias
para acelerar a definição, como desidratação intencional, uso de diuréticos e
dietas excessivamente restritivas, também podem causar complicações. Por isso,
medicamentos e hormônios não devem ser utilizados por conta própria para
modificar a aparência ou melhorar o desempenho esportivo.
Saúde
mental: quando a disciplina vira obsessão?
A rotina do
fisiculturismo exige organização, mas a busca pelo corpo ideal pode prejudicar
a relação com a alimentação, o exercício e a própria imagem corporal.
Comparações constantes nas redes sociais também podem intensificar a insatisfação
com a aparência. A Dra. Mariana Ramos, docente do curso de Psicologia da Afya
Centro Universitário Itaperuna, explica que a disciplina não deve provocar
sofrimento excessivo. “A disciplina saudável permite ajustes quando necessário.
Já a rigidez excessiva faz com que qualquer mudança no treino ou na alimentação
seja vista como uma ameaça, provocando culpa, ansiedade ou medo”, explica. Entre
os sinais de alerta estão sentir culpa intensa após comer algo fora do
planejamento, ter medo exagerado de perder massa muscular, insistir nos
exercícios mesmo com lesões e deixar de participar de encontros sociais por
causa da dieta ou do treinamento. Em alguns casos, a preocupação persistente
com a falta de musculatura pode estar associada à dismorfia muscular, condição
que exige avaliação profissional. O acompanhamento psicológico pode ajudar a
lidar com a pressão estética e a construir uma relação mais equilibrada com o
esporte.

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