Por que ainda choramos por
alguém que morreu há 10, 20 ou 30 anos? Psicanalista nos fala porque uma
música, um cheiro, uma fotografia ou até uma conquista podem fazer uma ausência
antiga voltar a doer — e porque isso não significa que o luto não foi elaborado
Há
pessoas que morreram há cinco, dez, vinte ou até quarenta anos e que, em
determinados momentos, parecem voltar a ocupar intensamente nossos pensamentos.
Isso pode acontecer ao encontrarmos uma fotografia antiga; ao ouvimos uma
música; ao prepararmos uma receita; aos sentirmos um perfume conhecido;
passarmos por determinado lugar. Ou simplesmente quando chega 2 de novembro,
Dia de Finados, e a ausência de alguém que fez parte da nossa história volta a
ganhar espaço. Mas se tantos anos já passaram, por que ainda dói?
Segundo
Cláudia Antonelli, psicanalista da Federação Brasileira de Psicanálise
(FEBRAPSI), isso não é sobre quanto tempo é necessário para
“superar” uma morte, mas compreender que elaborar uma perda não significa
apagar da vida psíquica – da mente e dos pensamentos de alguém - a pessoa que
partiu.
“Existe
uma expectativa social de que o tempo faça a pessoa esquecer, como se a
ausência precisasse deixar de provocar qualquer emoção para que o luto
estivesse elaborado. Mas aquilo que foi vivido em uma relação importante passa
a fazer parte da nossa própria história. Seguir vivendo não significa eliminar
esse vínculo da memória”, explica.
Por que Finados pode fazer a saudade reaparecer?
O
feriado de Dia de Finados funciona como uma espécie de marcador coletivo da
ausência e essa data simbólica costuma reativar emoções relacionadas à perda.
Isso não significa que a pessoa “voltou ao início” do processo de luto.
“Podemos
passar meses ou anos vivendo normalmente e, diante de uma data, de uma música
ou de uma lembrança, sentirmos novamente uma tristeza a respeito de alguém que
se foi. Isso não quer dizer que todo o caminho percorrido de elaboração, de
luto, foi perdido. O luto não acontece como uma linha reta na qual cada dia
obrigatoriamente dói menos que o anterior”, diz Antonelli. “A tristeza pela
perda de uma pessoa significativa em nossa vida, também faz parte e deve poder
coexistir com outros sentimentos”.
Existe prazo para o luto acabar?
Uma
das frases mais repetidas diante de uma perda é: “O tempo cura.” Mas o tempo,
sozinho, não é necessariamente sinônimo de cura ou elaboração.
Cada
perda encontra uma história diferente. A relação com quem morreu, as circunstâncias
da morte, aquilo que ficou dito ou não-dito, também as experiências anteriores
de perda e o momento da vida em que a morte aconteceu podem influenciar a
maneira como cada pessoa atravessa este luto. Por isso, comparar processos não
faz sentido e pode aumentar ainda mais o sofrimento.
“Uma
pessoa pode querer falar sobre quem morreu todos os dias; ou em certos
momentos. Outra talvez precise de silêncio. Algumas guardam objetos e outras
recordações; outras preferem se desfazer deles. Há quem visite o cemitério e
quem nunca consiga ou queira voltar lá, também. Não existe uma maneira correta
de sentir saudade; de elaborar um luto. ”
É preciso “deixar quem morreu para trás”?
Expressões
como “você precisa seguir em frente”, embora muitas vezes sejam ditas na
tentativa de ajudar, podem transmitir a ideia de que continuar vivendo exige
abandonar emocionalmente quem morreu.
Para
a psicanálise, a elaboração pode acontecer de outra maneira: a pessoa reconhece
a realidade da ausência, ao mesmo tempo em que encontra novas formas de
carregar consigo aquilo que aquela relação representou.
A
lembrança deixa de ocupar necessariamente o mesmo lugar doloroso dos primeiros
momentos e pode aparecer em histórias, lembranças, hábitos, objetos, frases e
pequenas escolhas da vida cotidiana, que nos remetem a alguém que já não está.
“Não
precisamos escolher entre viver e lembrar. A pessoa que morreu não continuará
presente da mesma maneira, mas aquilo que vivemos com ela pode continuar
fazendo parte de quem somos; do legado simbólico e afetivo que cada encontro
significativo pode nos deixar, por toda uma vida.”
Por que guardamos roupas, mensagens e áudios de quem morreu?
Uma
roupa que permanece no armário. Uma mensagem de WhatsApp que nunca é apagada.
Um áudio que a pessoa escuta de vez em quando. Uma receita escrita à mão. Um
perfume. Um objeto aparentemente sem importância.
Depois
de uma morte, objetos podem ganhar um valor que não possuíam antes.
Eles
deixam de ser apenas coisas e passam a funcionar como vestígios ou mesmo pequenos
símbolos de uma relação.
Isso
ajuda a explicar por que simplesmente dizer a alguém que “está na hora de jogar
tudo fora” pode ser invasivo e inadequado, por mais que a intenção possa ser
boa.
“O
objeto pode carregar uma história, uma lembrança ou uma sensação de
continuidade. O importante é compreender o lugar que ele ocupa para aquela
pessoa, naquele processo. Guardar algo de quem morreu não significa, por si só,
incapacidade de elaborar um luto e de seguir vivendo.”
O luto não é sobre “esquecer”
A
psicanalista Cláudia Antonelli lembra-nos ainda que nos espaços de reflexão
psicanalítica, como numa análise, a morte, o luto e as separações costumam
atravessar profundamente um processo analítico, como parte inerente da
constituição da experiência humana, de cada um.
Perdas
fazem parte constante da vida. Perda de pessoas queridas, mas também de ideais,
ilusões, às vezes projetos, desejos não realizados.
“Quem ou o que morreu não ocupa mais um lugar concreto em nossa vida, mas continua ocupando um lugar em nossa história. O trabalho do luto não exige esquecimento. Ele envolve, pouco a pouco e de maneira singular para cada pessoa, encontrar uma renovação, uma reorganização de si, e, da forma possível, de viver com a ausência”, finaliza.
Associação Brasileira de Psicanálise – ABP
FEBRAPSI
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