Você pega o celular para responder uma mensagem. Abre o WhatsApp,
passa pelo Instagram, olha uma notificação, vê um vídeo, fecha tudo. Cinco
minutos depois, a mão procura o aparelho novamente. Desta vez, você nem sabe
exatamente por quê. Esse comportamento, cada vez mais comum, não significa
necessariamente que exista uma informação importante esperando na tela. Muitas
vezes, o que existe é a expectativa de que alguma coisa nova possa ter
acontecido. Segundo a neurocientista e aromaterapeuta Daiana
Petry, o cérebro é especialmente sensível à novidade e aprende
rapidamente comportamentos associados à possibilidade de recompensa.
“Nem sempre pegamos o celular porque recebemos uma mensagem. Às
vezes, pegamos porque podemos ter recebido. Essa diferença é importante.
A expectativa de encontrar uma novidade já pode ser suficiente para manter o
comportamento de checar a tela”, explica.
Ao desbloquear a tela, pode não haver nada interessante. Mas
também pode existir uma mensagem de alguém de quem gostamos, uma curtida, uma
notícia importante, um vídeo divertido ou alguma informação que desperte
curiosidade.
“Quando uma recompensa não acontece sempre da mesma maneira,
existe um componente de expectativa. Você não sabe exatamente o que vai
encontrar. Essa imprevisibilidade ajuda a entender por que o gesto de conferir
pode se repetir tantas vezes ao longo do dia”, explica Daiana.
Com a repetição, o comportamento pode se tornar tão automático que
a pessoa abre um aplicativo sem ter tomado conscientemente a decisão de fazer
isso.
“É aquele momento em que você olha para a tela e pensa: ‘Por que
eu abri o Instagram mesmo?’. O cérebro já aprendeu uma sequência: pausa, tédio,
desconforto ou espera podem virar gatilhos para pegar o aparelho.”
Por que é tão difícil simplesmente ficar sem fazer nada e
não pegar o celular?
Fila, elevador, sala de espera, intervalo entre duas reuniões,
cinco minutos antes de dormir. Momentos que antes poderiam ser ocupados
simplesmente olhando ao redor passaram a ser rapidamente preenchidos pela tela.
Para a neurocientista, isso também pode alterar nossa relação com
o tédio. “Se toda pequena pausa é imediatamente preenchida com um estímulo,
começamos a ter menos oportunidades de experimentar momentos de baixa
estimulação. O cérebro se acostuma a encontrar alguma coisa acontecendo o tempo
inteiro”, explica.
O problema não está apenas no tempo total de tela, mas na fragmentação
da atenção. Uma tarefa é interrompida para olhar uma mensagem; a mensagem leva
a outro aplicativo; minutos depois é preciso voltar ao que estava sendo feito.
E se, antes de abrir o celular, você sentisse um cheiro?
Em vez de tentar combater o hábito apenas dizendo “não vou olhar o
celular”, a aromaterapeuta sugere criar um marcador sensorial antes do gesto
automático.
Quando surgir aquela vontade de desbloquear a tela sem um motivo
definido, a pessoa faz primeiro uma pequena pausa e direciona conscientemente a
atenção para o aroma.
“Não estamos falando que determinado cheiro vai ‘desintoxicar o
cérebro de dopamina’ ou eliminar a vontade de usar o celular. Isso seria uma
simplificação. A ideia é utilizar um estímulo sensorial para criar uma pausa
entre o impulso e a ação”, explica.
O olfato tem uma característica particularmente interessante nesse
exercício porque mantém conexões estreitas com áreas cerebrais envolvidas em
emoção e memória.
“Quando você direciona deliberadamente a atenção para um cheiro,
precisa sair por alguns segundos daquele comportamento completamente automático
e perceber o que está acontecendo naquele momento. O aroma funciona como um
convite para voltar ao presente.”
Um experimento de 30 segundos
“Antes de desbloquear o celular, experimente sentir
conscientemente o aroma do café por alguns segundos. Não porque o café tenha o
poder de eliminar a vontade de olhar a tela, mas porque você está introduzindo
uma experiência sensorial entre o impulso e a ação”, ensina.
Outra opção é o óleo essencial de hortelã-pimenta que tem um aroma
marcante e pode funcionar como um estímulo sensorial para trazer a atenção para
aquele momento. “Antes de desbloquear a tela, a pessoa sente o aroma, faz uma
pausa e se pergunta: ‘Eu realmente preciso abrir o celular agora ou fiz isso
automaticamente?’”, finaliza Daiana.
Daiana Petry - Aromaterapeuta, perfumista botânica, naturóloga e especialista em neurociência. Professora dos cursos de formação em aromaterapia, perfumaria botânica e psicoaromaterapia. Autora dos livros: Psicoaromaterapia, Cosméticos sólidos e Maquiagem ecoessencial. Fundadora da Harmonie Aromaterapia.
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@daianagpetry
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